Profecia em nosso tempo. Estamos dispostos a ouvir os profetas que estão em nosso meio?

Foto: Pixabay

25 Mai 2021

 

"A voz do profeta frequentemente causa desconforto, levantando questões que tentamos evitar para que não perturbem nossa paz. Em nossa época, aqueles que abordam o problema da catástrofe climática estão experimentando uma resposta semelhante. Suas vozes são levantadas alertando pelo bem de todos nós, nos desafiam a reconsiderar nosso padrão de vida, fazendo perguntas incômodas relacionadas a valores e julgamentos que preferiríamos não ouvir", escreve Chris McDonnell, teólogo inglês, em artigo publicado por La Croix International, 22-05-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Muitos artigos foram escritos sobre a extraordinária vida do teólogo suíço Hans Küng, que morreu no último mês de abril aos 93 anos.

Para ele que foi, verdadeiramente, um homem extraordinário.

Crítico da Igreja que amava, ele permaneceu leal através de muitas tribulações. Ele permaneceu padre, apesar do tratamento punitivo dado por aquelas autoridades. Ele apenas continuou questionando, promovendo o pensamento e a reflexão.

Como consequência, sua licença para ensinar teologia em uma Universidade Católica foi caçada por João Paulo II em 1979. Teria sido um ato de generosidade se tivesse sido restaurada nos anos recentes em reconhecimento da sua significativa contribuição para a teologia de nosso tempo.

Cerca de 17 anos antes, João XXIII havia nomeado Küng um perito, um conselheiro especialista no início do Concílio Vaticano II.

Esse visionário bispo de Roma reconheceu no jovem teólogo suíço aquelas qualidades que sem dúvida prenunciavam a natureza profética do homem que conhecemos por meio de seus ensinamentos e extensas publicações escritas nos anos subsequentes.

 

The times they are a-changin' (Os tempos estão mudando)

Coincidente com a vida de Küng foi a de Bob Dylan, o cantor e compositor americano que completa 80 anos na próxima semana. Ele também, à sua maneira, é um profeta. Ao escrever suas canções, ele traçou as placas de sinalização para uma jornada de exploração e mudança.

Uma estrofe de The Times They Are A-Changin tem estas palavras:

 

Come writers and critics (Venham escritores e críticos)
Who prophesize with your pen (Que profetizam com suas canetas)
And keep your eyes wide (E mantenham seus olhos abertos)
The chance won't come again (A sorte não virá novamente)
And don't speak too soon (E não falem tão brevemente)
For the wheel's still in spin (A roda segue girando)
And there's no tellin' who that it's namin' (E não há quem a nomeie)
For the loser now will be later to win (Porque os perdedores de agora depois vencerão)
For the times they are a-changin' (Porque os tempos estão mudando)

 

De muitas maneiras essas poucas palavras resumem profecia.

Aproveitando o momento, o profeta alerta seus ouvintes sobre a oportunidade de mudança, a chance única de seguir uma nova direção. Ele também reconhece que muitas vezes o profeta é ignorado, suas palavras rejeitadas ao cair em ouvidos surdos.

Mas com o passar do tempo, sua validade e sua verdade são reconhecidas.

Esta foi a experiência de Jesus que, como João registra no capítulo 4 de seu Evangelho, “Um profeta não é honrado em sua própria cidade natal” (Jo 4, 44).

Lucas também nos diz que Cristo disse: “Nenhum profeta é jamais aceito em sua própria pátria”(Lucas 4, 24).

É verdade que, em muitas ocasiões, estranhos nos ouvem quando as pessoas mais próximas se afastam.

 

The sound of silence (O som do silêncio)

No entanto, as palavras de profecia ainda ecoam ao longo dos anos, levando-nos de onde estamos e indicando onde nossa jornada pode nos levar se apenas ouvirmos.

Outra canção dos anos 1960, cantada por Paul Simon e Art Garfunkel, The Sound of Silence, reflete sobre a necessidade de escutar.

 

Hello darkness, my old friend (Olá escuridão, minha velha amiga)
I've come to talk with you again (Eu venho aqui falar contigo novamente)
Because a vision softly creeping (Porque uma visão levemente rastejando)
Left its seeds while I was sleeping (Deixou suas sementes enquanto eu dormia)
And the vision that was planted in my brain (E a visão que foi plantada em meu cérebro)
Still remains (Ainda permanece)
Within the sound of silence (Dentro do som do silêncio)

In restless dreams I walked alone (Em sonhos artomentados, caminhei sozinho)
Narrow streets of cobblestone (Ruas estreitas de paralelepípedos)
'Neath the halo of a street lamp (Sob a luz de um poste na rua)
I turned my collar to the cold and damp (Levantei minha lapela pelo frio e a umidade)
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light (Quando meus olhos foram pegos por um flash)
That split the night (Que rasgou a noite)
And touched the sound of silence (E tocou o som do silêncio)

And in the naked light, I saw (E em uma luz nua)
Ten thousand people, maybe more (Dez mil pessoas, talvez mais)
People talking without speaking (Pessoas conversando sem falar)
People hearing without listening (Pessoas ouvindo sem escutar)
People writing songs that voices never share (Pessoas escrevendo músicas que vozes nunca compartilham)
And no one dared (E ninguém ousava)
Disturb the sound of silence (Perturbar o som do silêncio)

“Fools”, said I, “You do not know (“Tolos”, eu disse, “vocês não sabem”
Silence like a cancer grows (Silêncio cresce como um câncer)
Hear my words that I might teach you (Ouçam minhas palavras que eu posso lhes ensinar)
Take my arms that I might reach you” (Peguem minhas mãos que eu posso lhes alcançar)
But my words, like silent raindrops fell (Mas minha palavras, caíram como pingos de chuva)
And echoed (E ecoaram)
In the wells of silence (Nas fontes de silêncio)

And the people bowed and prayed (E as pessoas se curvavam e rezavam)
To the neon god they made (Para o Deus neon que eles criaram)
And the sign flashed out its warning (E o sinal iluminou o alerta)
In the words that it was forming (Nas palavras que estava se formando)
And the sign said, “The words of the prophets (E o sinal dizia, “As palavras dos profetas)
are written on the subway walls (são escritas nas paredes do metro)
And tenement halls” (E nos corredores dos cortiços”)
And whispered in the sound of silence (E sussuradas no som do silêncio)

 

Perturbando a paz

Pois, é isso que o profeta faz, ele se atreve a perturbar nosso silêncio, fazer perguntas e sugerir caminhos que possamos seguir para alcançar a realização.

A voz do profeta frequentemente causa desconforto, levantando questões que tentamos evitar para que não perturbem nossa paz.

Em nossa época, aqueles que abordam o problema da catástrofe climática estão experimentando uma resposta semelhante.

Suas vozes são levantadas alertando pelo bem de todos nós, nos desafiam a reconsiderar nosso padrão de vida, fazendo perguntas incômodas relacionadas a valores e julgamentos que preferiríamos não ouvir.

Mesmo assim, eles persistentemente nos importunam, dizendo: “ouça antes que seja tarde demais”. A nossa é a primeira geração a ter o problema desenhado tão graficamente ao nosso conhecimento e pode muito bem ser a última a ter a oportunidade de fazer algo a respeito.

Os profetas do Antigo Testamento contaram uma história para seu povo, tentando refletir em termos práticos sua percepção da vontade de Deus para suas vidas.

A voz de João Batista, em cumprimento a Isaías, chamou a atenção do povo para Jesus, o Nazareno. Sua voz clamava no deserto, preparando o caminho do Senhor.

Quem nos chama a atenção para os ensinamentos de Jesus, ganha o título de profeta pelo exemplo que nos dá, pela força da voz e pela coragem do agir. Profetizamos tanto pelo que fazemos quanto pelo que dizemos.

 

As palavras dos profetas

Peneirando o léxico de nomes cristãos contemporâneos, vêm à mente homens e mulheres cujas vidas nos contam uma história de fortaleza e coragem, apontando a direção que podemos seguir.

A alguns atribuímos o título de santo, outros passam sem esse reconhecimento, mas não têm menos impacto em nossas vidas. A profecia deles é tão real, se apenas tomarmos tempo para observá-la.

O profeta é deixado de lado, escolhido entre o povo com a intenção de contar a história.

No livro de Deuteronômio, lemos: “Javé seu Deus fará surgir, dentre seus irmãos, um profeta como eu em seu meio, e vocês o ouvirão”.

Indo além do nosso compromisso cristão, outras tradições de fé têm seus profetas, aqueles cujo exemplo de como podemos viver conta uma história e oferece inspiração.

Küng reconheceu isso.

E quando se aposentou em 1996, ele estabeleceu a Fundação de Ética Mundial na Universidade de Tübingen para promover a cooperação e o diálogo entre as religiões ao redor do mundo, pois, a menos que haja tal entendimento, há pouca chance de uma paz duradoura entre as nações.

Há uma inquietação dentro de cada um de nós que busca orientação. Precisamos ouvir com atenção aqueles que nos rodeiam, pois em suas palavras pode estar a semente da direção que buscamos.

As palavras do profeta escritas na parede do metrô estão lá, se quisermos lê-las.

 

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