A ilusão do “eu” das redes de comunicação digital produz um tipo de democracia aparente, mas sem uma visada democrática. Entrevista especial com Rosane Borges

Para a pesquisadora é preciso pensar de forma interseccionada as tecnologias, a política e a economia para percebermos como esta interdependência produz impactos na democracia

Foto: PxHere

Por: Ricardo Machado | 13 Mai 2021

 

Diz-se, no dia a dia das redações, que à imprensa cabe “afligir os satisfeitos e satisfazer os aflitos”. Ocorre, no entanto, que não são raros os casos em que a comunicação, em especial o jornalismo, produz discursos contrários a esta prerrogativa. “A mídia tradicional tem uma responsabilidade culposa no processo de destituição dos direitos humanos”, pontua a professora doutora e pesquisadora Rosane Borges, em entrevista por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

Some-se a isso a nova dinâmica de sociabilidade impulsionada pelas tecnologias de comunicação e informação, com seus algoritmos e seus simulacros de realidade que geram impactos profundos na democracia. “Há, aparentemente, um processo democrático em que todos têm o poder de enunciar, somos todos emissores e produtores de informação. Mas esta aparente democracia não tem uma visada democrática”, descreve.

 

Daí a necessidade constante de se pensar a política, a economia e a tecnologia como eixos profundamente interligados. “Produzir conexões destes três eixos implica pensar, em primeiro lugar, que só é possível uma realização da política se pensarmos que todos nós somos sujeitos. O problema é que as redes sociais e a comunicação tecnológica produzem ‘eus’, e a noção de eu, por definição, é precária para qualquer coisa, mas produz nos sujeitos a ideia de que são superempoderados”, complementa.

 

Por fim, Rosane ressalta, diante do contexto em que estamos expostos, que o papel das religiões está ligado ao “compromisso com a defesa da vida e com princípios e valores emancipatórios, sejam as religiões cristãs ou não”. Mais ainda, que “em momentos de crise o nosso papel é projetar que mundos podem ser construídos e reconstruídos”.

 

Rosane Borges (Foto: Reprodução Youtube)

Rosane Borges é jornalista, pesquisadora colaboradora do Centro Multidisciplinar de Pesquisas em Criações Colaborativas e Linguagens Digitais - Colaboradora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - USP. É doutora e mestra em Ciências da Comunicação também pela USP, ex-coordenadora nacional do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra - CNIRC, da Fundação Palmares, órgão do Ministério da Cultura. Possui diversos livros publicados, dentre eles, Esboços de um tempo presente (Rio de Janeiro: Editora Malê, 2016), Mídia e Racismo (2012); Jornal: da forma ao discurso (São Paulo: Editora Paulinas,2002), Rádio: a arte de falar e ouvir (2003), Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (São Paulo: Imprensa Oficial, 2004).

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Até que ponto o trabalho da imprensa tem sido conivente com o atual cenário e a partir de que ponto tem cumprido um papel de denúncia às violações que temos vivido?

Rosane Borges – A conivência no trabalho da imprensa aparece quando ela acaba difundindo discursos de ódio, não tensionando discriminações e usando um léxico que reforça os preconceitos. No que toca às denúncias, o ponto de virada é o da mídia não hegemônica, alternativa, de que temos vários exemplos, como a A ponte e Alma preta, que cumprem um papel importante ao denunciar violações dos direitos humanos.

Não temos um debate público decente na mídia hegemônica sobre essas violações, não há sequer um programa dedicado a este tema. Em muitos programas, é comum haver frases do tipo “direitos humanos para humanos direitos” e não há, na nossa sociedade, tampouco na mídia, questionamentos sobre esses enunciados. Então, a mídia tradicional tem uma responsabilidade culposa no processo de destituição dos direitos humanos, mas, por outro lado, o jornalismo engajado vem procurando fazer denúncias de maneira equilibrada, responsável e ética.

 

 

IHU On-Line – Como os algoritmos interferem em nossas formas de sociabilidade no ambiente digital?

Rosane Borges – Os algoritmos interferem na medida em que determinam o que é e o que não é importante. Isso é terrível porque é a lógica algorítmica que define o que é prioritário à minha leitura ou às minhas buscas. A forma como me coloco nas redes sociais, nos ambientes digitais e a curadoria que faço de mim mesma é mediada pelos algoritmos, à medida que buscamos mais engajamentos nos conteúdos que produzimos. Ocorre, entretanto, que nem sempre o conteúdo com maior engajamento é aquele com maior interesse público, de modo que os algoritmos interferem de forma negativa para pensarmos as coletividades e o espaço público.

Cada vez mais acentua-se uma perspectiva individualista do eu, do eu que “lacra”, do eu que “tomba”. Isso tudo nos leva a questões muito sérias, afinal por que e para quem é importante manter o ambiente digital tal como está configurado? Quais são os conteúdos que, realmente, desejamos fazer circular? O que é, de fato, interesse público?

 

 

IHU On-Line – Quais são as implicações da algoritmização na democracia?

Rosane Borges – De certa forma a algoritmização impacta diretamente a democracia. Há, aparentemente, um processo democrático em que todos têm o poder de enunciar, somos todos emissores e produtores de informação. Mas esta aparente democracia não tem uma visada democrática. O fato de estarmos todos em um ambiente digital e termos a possibilidade e facilidade de transmitir e propagar conteúdos não significa que o projeto democrático se consolidou. Ao contrário, a algoritmização nos leva a processos autoritários e a um fluxo de informações que priorizam apenas uma dimensão de nossa natureza, justamente aquela ligada ao eu, à individualização e aos espaços privados.

 

 

IHU On-Line – De que maneira os algoritmos reatualizam processos históricos de discriminação, tais como o racismo, a xenofobia, o sexismo etc?

Rosane Borges – Os algoritmos reatualizam esses processos históricos de várias formas, até da maneira mais grosseira, como se descobriu em relação ao algoritmo do Google que associava pessoas negras a macacos e gorilas. Há ali, flagrantemente, um algoritmo racista, que na lógica do ‘zero e um’ pode parecer abstrato, mas são programados por uma pessoa humana. O que chamamos de algoritmo depende previamente de um nível de organização e hierarquização que é dado pelo humano.

Esta reatualização dos preconceitos e do racismo aparece dessa forma, quando um algoritmo confunde pessoas negras com macacos, mas também de maneiras mais veladas, com uma reatualização do racismo com influenciadoras e influenciadores digitais que pertencem às classes sociais e raciais hegemônicas, quase sempre mulheres e homens brancos, cis, héteros, que acabam tendo maior amplificação de suas falas e produzindo desequilíbrios e desigualdades.

Isso tudo nos permite dizer que os algoritmos atualizam esses processos a partir de várias frentes, quando priorizam e tornam a voz de pessoas dos grupos hegemonizados com muito mais alcance. Além disso, quando associam pessoas a processos de destituição da humanidade, como nos casos em que ligam pessoas negras a macacos, mulheres a um rebaixamento de sua condição pela dinâmica de gênero e por aí vai.

 

 

IHU On-Line – Como romper com as bolhas nas quais estamos inseridos e nos deslocarmos a outras perspectivas que nos tornem capazes de, ao menos, perceber as complexidades que nos cercam?

Rosane Borges – Ao falar sobre bolhas, recuperamos o próprio sentido da comunicação, pois ao nos comunicarmos colocamos coisas em comum. Ao tornar coisas comuns, significa que não seremos apenas transmissores de determinada informação, mas, sim, que temos de nos vincular ao outro, pois comunicação significa “ser-com”. A comunicação supõe a vinculação com o outro.

É importante rompermos as bolhas, pois não falamos somente com quem é igual a nós. A bolha é protetora, como diz Peter Sloterdijk, com suas camadas ou como o feto na barriga da mãe. Mas a comunicação, por outro lado, é um desafio constante porque nos comunicamos não para procurar proteção ou validar o que já pensamos sobre o mundo. Nos comunicamos para aprender com o outro e esse aprendizado é um desafio, porque não é, digamos assim, algo que seja “florido”. A comunicação é algo que exige levarmos em conta a alteridade em seu sentido radical e que só somos com o outro, portanto, romper a bolha significa ter consciência que o eu não se basta. Então, se o eu não se basta, essa jornada chamada vida só tem sentido se eu contar com o outro. Isso é a base dialógica de todo o processo de comunicação.

Será que, realmente, a gente quer se comunicar com o outro? Será que a gente quer escutar o outro? As redes digitais sugerem que estamos em diálogo, pois são muitos comentários e conteúdos, mas, na verdade, o que se tem é uma babel, uma estridência muito grande em que nem sempre a escuta do outro é levada em conta porque eu me fecho na minha bolha e a minha bolha me protege.

 

 

IHU On-Line – De que maneira podemos produzir conexões entre a política, a economia e a tecnologia de modo que possamos minimizar os riscos à nossa Casa comum?

Rosane Borges – Conectar política, economia e tecnologia implica retomar o debate sobre a comunicação que fazíamos antes. A política supõe a gestão do comum, sujeitos e coletividades. Quando pensamos a economia, guardadas as devidas proporções, estamos pensando algo similar, isso porque ela é um lastro que deve ser benéfico a todos, ou seja, um modo de organização de nossa vida e dos meios de produção. A tecnologia, por sua vez, não é apenas um meio, portanto não está vinculada apenas à dimensão instrumental, uma vez que ela define certos parâmetros de nossa humanidade, ou seja, tem uma envergadura antropológica.

Produzir conexões desses três eixos implica pensar, em primeiro lugar, que só é possível uma realização da política se pensarmos que todos nós somos sujeitos. O problema é que as redes sociais e a comunicação tecnológica produzem “eus”, e a noção de eu, por definição, é precária para qualquer coisa, mas produz nos sujeitos a ideia de que são superempoderados.

Congregar política, economia e tecnologia é importante para responder à pergunta: fazemos isso ou aquilo em nome de quê? Pensar a casa comum a partir dessas três categorias implica pensar o destino de todos, pensar a coletividade, pensar o que nos humaniza, ou seja, o que é importante para construir e reconstruir pactos civilizatórios. Não há saída se não for pela política. Ou seja, investir na gestão de todos, calcada nos interesses das coletividades e fazer da tecnologia não instrumento, mas um eixo fundamental para o exercício das nossas ações, práticas, atividades, de modo que elas estejam sempre a favor da preservação e fortalecimento da condição humana, e não do sacrifício da condição humana.

 

 

IHU On-Line – Como a questão da desigualdade – social, de gênero, étnica etc. – é um vetor que amplia a insegurança e os riscos à vida durante a pandemia?

Rosane Borges – Um dos exemplos sobre a desigualdade é o ato criminoso, assassino, como vimos com a Chacina do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio. O que vemos ali é que a desigualdade dinamiza, impulsiona aquela situação, afinal os policiais não iriam daquele jeito às zonas de classe média, à zona sul. Aquela operação só acontece na topografia da desigualdade, porque parte-se do entendimento de que esses territórios são habitados por corpos matáveis. Essa é uma desigualdade fundamental para que a chacina acontecesse, pois trata-se de uma assimetria sustentada por questões de raça e de classe, fundamentalmente. Além disso, esse episódio é, especialmente, terrível, na medida em que o Supremo Tribunal Federal - STF proibiu esse tipo de operação e porque implica em um aumento de mortes de jovens negros na pandemia.

Há, portanto, um Estado que exerce a necropolítica e nega direitos ao mesmo tempo que amplia a insegurança e os riscos à vida. A ampliação da insegurança está diretamente ligada às mortes diretas, corpóreas, por meio do aparelho policial, mas também quando não há um plano de assistência para quem precisa de ajuda. O Auxílio Emergencial demorou muito na primeira fase e, na segunda, reduziu muito seu valor, o que, para quem nada ou pouco tem, é um risco à vida.

A pandemia amplificou todas essas questões, ainda mais em um país onde mais da metade das pessoas não têm acesso a saneamento básico. Somente este fato torna o enfrentamento de uma pandemia desta natureza muito mais difícil, de modo que, sem um investimento importante do Estado na assistência e no envio de materiais de insumo às populações precarizadas e de políticas de desenvolvimento para minorar as desigualdades já existentes, tudo fica mais difícil. A pandemia não inaugurou nenhum desses problemas, mas amplificou a fome, amplificou a questão sanitária – há pessoas que não têm álcool em gel em casa – etc. Consequentemente tudo isso gera riscos para pessoas e famílias em situação de maior vulnerabilidade, afinal as pessoas estão com fome, com medo da polícia, sem dinheiro, desempregadas, aspectos estes que aumentam as desigualdades.

 

 

IHU On-Line – Qual o papel das religiões, especialmente as de matriz africana, na crise da democracia?

Rosane Borges – As religiões têm um papel importante neste momento de necessidade de superação da crise da democracia porque elas têm um papel de religação (religare) com o transcendental. Todas as religiões, de certa forma, têm o compromisso com a defesa da vida e com princípios e valores emancipatórios, sejam as religiões cristãs ou não. Neste momento o papel das religiões é o de estar do lado da vida, do ser humano, da civilização.

As religiões de matriz africana, em especial, são religiões que se fundam em uma solidariedade absoluta, na coletividade e em uma concepção de que somos partícipes da construção do mundo. Nestas religiões a construção do mundo não está acabada e, considerando que o mundo não está concluído, em momentos de crise o nosso papel é projetar que mundos podem ser construídos e reconstruídos. É um protagonismo que deve ser ativo e as religiões não devem ser omissas nestes momentos, ao contrário, devem exercer sua ação política no sentido radical, profundo e vinculado à exigência ética que não transija os valores humanos que nos fazem pessoas e cidadãos com direitos e deveres.

 

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