Três reflexões no dia em que o Brasil perdeu uma Piracicaba

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04 Mai 2021

 

"No dia 02 de maio de 2021, uma cidade de Piracicaba, deixou de existir no Brasil. Atingimos mais de 400 mil mortes! No entanto, este fato tão terrível continua sendo desconsiderado por uma boa parte da população brasileira", escrevem Fabio Camilo Biscalchin, mestre em Educação (Unimep) e Daner Hornich, doutor em Filosofia (PUC-SP).

Eis o artigo.

Em 2020 a população estimada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) da cidade de Piracicaba, situada no interior do estado de São Paulo, era de 407.252 pessoas. Esta informação, última registrada, pelo o que tudo indica, por ora, é a que servirá de parâmetro para o levantamento da realidade e das demandas do povo, bem como para a elaboração de políticas públicas mais assertivas, já que não temos conhecimento de quando será efetuado o próximo censo no Brasil, ferramenta imprescindível para tal fim.

No dia 02 de maio de 2021, uma cidade de Piracicaba, deixou de existir no Brasil. Atingimos mais de 400 mil mortes! No entanto, este fato tão terrível continua sendo desconsiderado por uma boa parte da população brasileira; talvez, a origem desta opção pela cegueira, tenha se iniciado nos anos de 2013, 2014, período em que, pelo menos, três elementos se tornaram mais evidentes e acentuados dentro do Brasil e em alguns outros países, e que permanecem presentes:

[1] A supervalorização da superficialidade como estratégia de dominação. Vídeos - não textos e artigos -, de dois ou três minutos, em média, tratando de assuntos de muita complexidade começaram a ser demasiadamente simplificados, oferecendo conclusões apressadas às questões que não são passiveis de simplificação. Pessoas descompromissadas ou desprovidas de instrução, assimilam estes vídeos e, instantaneamente, se sentem empoderadas de um suposto conhecimento que, até então, era validado pela pesquisa, pela análise, pela investigação realizada por uns poucos estudiosos e cientistas que se dedicavam por anos a propósito.

Uma vez empoderadas pelos vídeos efêmeros, julgam-se capazes de demonstrar mais conhecimento do que aqueles (pesquisadores, cientistas) fomentando a supervalorização da superficialidade, que é sinônimo de uma vida veloz que não permite mais tempo para refletir, isto é, flexionar-se e, então, gastar muito tempo, talvez a vida toda, no estudo de um fato/objeto.

A superficialidade é o mesmo que não pensar, afinal, pensar exige tempo para desconstruir o conceito estudado, para chegar à realidade que ele carrega consigo. Exige silêncio e meditação sobre o que foi visto na realidade. Exige silêncio, abstenção dos ruídos e dos rumores sobre o que estão dizendo a respeito daquilo que está sendo estudado, para, assim, chegar à realidade por ela mesma, sem intermediários. Pensar exige tempo. A superficialidade é atrelada à velocidade. O pensar busca o conteúdo robusto do que se estuda por vários ângulos. A superficialidade é o vazio da gritaria. Não há nada lá.

A autora alemã Hannah Arendt dizia que a banalização do mal está ligada ao não pensar. A banalização do mal está estreitamente ligada à superficialidade.

[2] Nunca neste país celebramos tanto a divisão ao invés da comunhão. Quando não se pensa, quando se vive a partir das conclusões superficiais, o mal predomina. O mal é a divisão. A divisão aparece através do ódio. O ódio não permite a comunhão.

Nestes últimos sete ou oito anos, o Brasil vive a divisão e, neste momento, o país está sendo construído apenas para alguns; os demais estão destinados a morrer. Não se observa mais um sentido de pertença, em que a vida digna de um somente é possível com a vida digna de todos.

A comunhão exige não deixar ninguém para trás ou para baixo.

Para os cristãos a mensagem é explicita: “a divindade se esvaziou (kénosis), se fez pequena, para que na pequenez pudesse resgatar até o último dos mais miseráveis”. É impossível aceitar um cristão vivendo na superficialidade e, assim, no ódio.

[3] Ele está no meio de nós e não acima de nós. Talvez os cristãos tenham sido levados e induzidos ao erro ao se submeterem à superficialidade, já que é inimaginável, na correta teologia, aceitar a ideia de um “deus acima de todos”.

A ideia de um “deus acima de todos” é a mesma ideia de “cada um por si e deus por todos”. É a ideia do ódio, da concorrência, da falsa predestinação, do equivocado conceito de mérito. NÃO! Na teologia cristã, “Deus está no meio de nós”; Ele é comunhão, ele é trindade, ele é comunidade. Deus está no nosso meio através das relações interpessoais pautadas na busca do bem comum, que levam à comunhão. A comunhão nasce da verdade, que é estar ao lado dos mais pobres. Não é possível ser cristão aceitando que as pessoas vivam na miséria. Ao contrário, é preciso resgatar a todos para que usufruam de uma vida mais digna, oferecendo-lhes condições equitativas de vida em plenitude e não, somente, de sobrevivência.

Diante do exposto, questiona-se: por que chegamos à situação de ter uma vida pautada a partir de uma interpretação superficial da verdade?

A resposta não é simples, contudo, passível da provocação: “ausência de uma educação de profundidade”! Sem educação não aprendemos a fazer reflexões e análises e, consequentemente, ficamos mais vulneráveis às superficialidades.

E, atinente aos cristãos, apreendemos que lhes faltou uma boa catequese, uma boa escola dominical e, portanto, bons catequistas; faltaram bons padres e pastores educados em profundidade; faltaram bons bispos e líderes religiosos. Ademais, onde estão os padres, os pastores, os provinciais religiosos, o bispo para explicar que “deus não está acima de todos”, mas, sim, “no meio de nós”, e no que implica a presença dEle em nosso meio e junto de todos nós.

 

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