Belluzzo: sistema econômico nega às pessoas o direito de comer

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28 Abril 2021

 

“A desestruturação social que foi produzida por esse capitalismo está agregando as pessoas. No Brasil ainda está um pouco devagar isso. Mas eu tenho claro que é inevitável, não dá para aguentar. Você não pode aguentar esse fenômeno da fome generalizada. Isso não tem como subsistir. Sobretudo nessa sociedade aqui, onde isso não é um fenômeno natural. Não é como a fome numa economia medieval, que decorria de uma má colheita. Não é essa fome. É a fome produzida pelo sistema econômico. Ele nega às pessoas o direito de comer. Eu não vejo como isso possa sobreviver. Digo para os meus amigos do mercado financeiro: ‘Olha, vocês tomem cuidado porque da próxima vez a guilhotina não vai ser no rei, não. Vai ser no reinado do mercado financeiro. É o que está aparecendo no mundo inteiro: a disfuncionalidade, a crueldade do mercado financeiro”.

A reportagem é de Eleonora de Lucena e Rodolfo de Lucena, publicada por Tumatéia, 27-04-2021. 

O alerta é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo ao Tumatéia. Diz ele: “Estamos vivendo um momento de transformação, de mudança, e esses momentos em geral são dolorosos, são um pouco incertos, nos deixam meio na dúvida. Mas eu estou vislumbrando aí mudanças importantes. Tanto na vida concreta das economias como no pensamento econômico. É preciso que os economistas abandonem esses modelos muito binários e abstratos no mau sentido. A economia convencional é um cadáver insepulto. Só precisa sepultar. Enquanto ele estiver morto, porém exposto, tem muita gente que é capaz de enfiar o dedo na barriga do morto para ver que gosto tem”.

Professor da Unicamp, fundador da Facamp, Belluzzo foi secretário de política econômica do ministério da fazenda (1985-1987), secretário de ciência e tecnologia do Estado de São Paulo (1988-1990) e secretário de economia e planejamento (1991-1995). Considerado um dos mais brilhantes economistas heterodoxos do mundo, nesta entrevista ele trata dos desafios para o Brasil superar essa fase tenebrosa, do embate entre China e Estados Unidos e das mudanças na economia mundial (acompanhe a íntegra no vídeo). Na conversa, ele adverte:

“Em toda a transição estrutural e profunda, como a que eu imagino que estejamos observando, você vai ter trepidações. Não só na área da economia stricto sensu, mas na área social também. Porque as pessoas já não estão suportando mais serem tratadas da maneira que estão sendo tratadas”.

Coáulos monetários

Ele cita, como exemplo, o resultado do julgamento do policial que matou George Floyd: “É uma ruptura, uma mudança importante. Em todos os casos anteriores de violência policial contra negros, os policiais foram absolvidos, a despeito de os fatos serem muito parecidos. A pressão social exercida pelos movimentos como o Black Lives Matter foi importante para haver a condenação”.

Outro exemplo: a tentativa frustrada do JP Morgan de criar uma superliga do futebol europeu, baseada somente nos times mais fortes e por fora das entidades tradicionais. “O JP Morgan caiu do cavalo porque se meteu a reformular e criar a superliga. Estava avançando de tal maneira a financeirização dentro do futebol, que eles chegaram a essa ousadia. Foram repelidos pelos torcedores. Os torcedores não querem que os seus clubes virem simplesmente coágulos monetários. Tem uma relação afetiva aí. É um fenômeno social que indica que o pessoal não está muito a fim de ser governado dessa maneira”.

Afirma Belluzzo:

“Caiu a ficha para todo mundo. Não é viável continuar nessa conformação que estamos observando de riqueza financeira se valorizando, e a economia da produção e do emprego encolhendo. Todo mundo está percebendo que tem uma disfunção nos mercados financeiros. Desde o “New York Times”, passando pela “The Economist”, os sites acadêmicos há uma pletora de textos e de análises tentando entender essa transformação que ocorreu no capitalismo recentemente, que o pessoal chama vulgarmente de financeirização. É uma mudança importante na estrutura da riqueza que vem de 40 anos, depois que foi desencadeada a desregulamentação financeira. Isso não é uma anomalia do capitalismo. O capitalismo está fazendo das suas; ele está realizando a sua natureza. Se você soltar o bicho, ele vai fazer das suas. Vejo vários economistas perplexos. O establishment não sabe mais o que fazer. Ele não se comove, não se move. É um problema que mostra o déficit de ação política das classes que deveriam estar incumbidas de enfrentar esse problema”.

 Brasil não tem elite, só ricos primitivos

“O mais grave é que isso situa o Brasil numa situação de atraso e falta de perspectiva, de projeto. O atraso maior e a falta de visão da equipe econômica que está aí. As reformas não querem dizer nada. Aqui é uma vergonha. O Brasil não tem elite, só tem ricos. É uma gente que não tem nada na cabeça, são primários, primitivos. Eles têm um bom representante na Presidência, que é o Bolsonaro. A gente tem que pensar nos bolsonaristas, nas pessoas que implícita ou explicitamente apoiaram essa vergonha”.

Ele segue:

“Quem criou o empresariado brasileiro, quem deu o início, o pontapé inicial foi Getulio Vargas. Ele criou vários deles, inclusive importando empresas para que os empresários brasileiros exercessem [o seu papel]. Eu conheci muitos deles, Antonio Ermírio, Claudio Bardella, Paulo Villares, Paulo Vellinho, Kasinski, Mindlin, todos que eram as faces visíveis da indústria brasileira. Essa turma sumiu. Não houve nenhuma tentativa de reposição. O que temos hoje, ou são os chamados empresários tipo Luciano Hang, da Havan, que na verdade não cria nada, só transporta as coisas. A Luiza Trajano é uma pessoa respeitável. Mas os demais se transformaram, na verdade, em rentistas. Não têm nenhuma vitalidade. Você tem que recriar os empresários com uma ação de Estado muito complexa, com avanço tecnológico, reindustrialização, busca de certos setores. Não me surpreende que eles se prostem diante de um presidente que é completamente analfabeto, ignorante, não tem nenhuma noção de nada. Ele me lembra os caras com quem eu jogava futebol na várzea de São Paulo”.

Analisando o que acontece nos EUA, na Itália e em outras paragens, diz o economista:

“O Brasil está na contramão do mundo neste momento. Mais na contramão do que nós podemos imaginar. Nos EUA, o Biden, contrariando a atitude de seu predecessor, encetou uma campanha de vacinação em massa e muito rápida. Ao mesmo tempo, está construindo dois programas, um de sustentação da renda das famílias, de 1,9 trilhão de dólares. É para sustentação de famílias, empresas, estados e municípios. Em seguida, ele desencadeia um programa de dois trilhões de dólares para investimento em infraestrutura, ciência, tecnologia, inovação, na reconstrução da infraestrutura norte-americana. E também em incentivo para as empresas que tentem avançar e construir mais capacidade dentro dos EUA. Há ainda um debate sobre o aumento dos impostos sobre os ganhos de capital. Biden está usando uma estratégia rooseveltiana, exatamente para fortalecer os Estados Unidos. E isso envolve as relações com a China. É um programa muito avesso a isso que gente está vendo no Brasil”.

Privatização maluca e lata do lixo

Belluzzo condena a política de relações exteriores do Brasil sob Bolsonaro, especialmente o abandono do país do Banco dos Brics. “Criamos uma situação muito negativa para o país. É triste”. A destruição, ele enfatiza, é geral no país:

“Em todas as dimensões você está destruindo a estrutura organizacional da economia brasileira, com essas privatizações malucas, essa tentativa de privatizar o Banco do Brasil. É tudo no mesmo diapasão: é a destruição interna e a destruição da reputação externa que o Brasil tinha, sempre teve. Mesmo no governo militar, o Brasil manteve essa atitude mais independente, mais autônoma, resistindo às várias pressões. Agora jogamos tudo isso na lata do lixo, ladeira abaixo”.

 

 

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