“Não é possível conviver com o vírus: a saída é detê-lo e, se possível, eliminá-lo”

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24 Abril 2021

 

Os países mais bem-sucedidos no combate ao coronavírus fizeram escolhas corajosas: lockdowns direcionados e oportunos, numerosos testes e rastreamento inexorável, limitação da mobilidade, fortalecimento dos serviços de saúde. E bloquearam o vírus antes mesmo de começarem a vacinação em massa.

A opinião é de Walter Ricciardi, médico italiano, professor do campus romano da Universidade Católica do Sagrado Coração e ex-presidente da Associação Europeia de Saúde Pública (EUPHA, na sigla em inglês), de 2010 a 2014.

O artigo foi publicado por Avvenire, 23-04-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Mais de um ano se passou, mas parece que a lição que a Covid nos deu não serviu. Prontos de novo para cometer os mesmos erros cometidos no verão passado. Ou, melhor, no ano passado tínhamos a errônea ilusão de ter cancelado o Sars-CoV-2 com uma corajosa série de intervenções que ninguém no mundo jamais havia feito antes e, com efeito, tínhamos levado a circulação do vírus ao mínimo possível.

Bastaria perseverar por mais um mês e reforçar as atividades de testagem e rastreamento que, em vez disso, rapidamente perdemos para a segunda onda de outubro e a terceira de fevereiro, quando, mais uma vez, não tivemos coragem de fazer lockdowns breves e direcionados para conter o contágio, que, a partir daquele momento, nunca mais nos abandonou.

Falta de coesão e ignorância das evidências científicas são os elementos que estão escancarando as portas para mais uma onda epidêmica. Os mesmos males que atingiram a esmagadora maioria dos países europeus e, por último, com efeitos desastrosos, a Índia.

O que têm em comum países como Nova Zelândia e Taiwan, Ruanda e Islândia, Austrália e Vietnã, Chipre e Tailândia? Pouco ou nada do ponto de vista geográfico, cultural, econômico e social, mas são todos países em que a vida hoje flui mais ou menos normalmente, graças à escolha de não conviver com o vírus, mas de detê-lo e, se possível, eliminá-lo. Eles fizeram escolhas corajosas: lockdowns direcionados e oportunos, numerosos testes e rastreamento inexorável, limitação da mobilidade, fortalecimento dos serviços de saúde. E bloquearam o vírus antes mesmo de começarem a vacinação em massa.

O que têm em comum a Índia e a Itália, a Alemanha e os Estados Unidos, a França e os países do Leste Europeu? A escolha de pensar em poder conviver com o vírus e/ou de pensar que uma única arma, a campanha de vacinação em massa, pode levar a epidemia de volta a níveis suportáveis.

Não será assim: somente motivando o país inteiro a ações corajosas e não cedendo a estímulos divisivos e populistas que pressionam uma população totalmente provada psicologicamente e em parte também economicamente é que se poderá enfrentar uma batalha longa e fatigante, na qual toda invalidação das evidências científicas e da crueza dos dados poderia levar a equilíbrios dramáticos em termos de sofrimento e morte.

Os sociólogos conhecem bem as concessões que muitos governos estão praticando: “imperativo democrático”, é assim que definem a ação de um governo que faz coisas erradas porque grupos importantes de cidadãos assim o exigem.

Foi o que fez o governo indiano ao ceder à pressão dos hindus para não adiar a cerimônia de purificação que ocorre periodicamente, permitindo-lhes que se amontoassem perto de grandes cursos de água. O resultado inevitável foi uma explosão de casos e de mortes, cadáveres amontoados nas ruas, hospitais em colapso e a possibilidade de uma nova variante, talvez mais contagiosa e agressiva do que as conhecidas até agora, que está provocando grandes preocupações em todo o mundo.

A catástrofe levou fatalmente a um lockdown de seis dias, para tentar parar a curva do contágio. Naturalmente não será suficiente, mas o primeiro-ministro, Arvind Kejriwal, mesmo diante da tragédia epocal, achou que tinha que se justificar: “Sempre fui contra os fechamentos, mas isso vai nos ajudar a aumentar o número de leitos hospitalares disponíveis. Foi uma decisão difícil de tomar, mas não tínhamos outra escolha”. E isso diante de mais de 300.000 novas infecções todos os dias e de milhares de mortes cotidianas.

O que preocupa, principalmente, é a pressão sobre os hospitais. Vários Estados da federação indiana relataram a saturação das unidades de terapia intensiva.

As mídias sociais estão repletas de vídeos de funerais em cemitérios lotados, longas filas de ambulâncias fora dos hospitais, transportando pacientes ofegantes, necrotérios cheios de mortos, falta de oxigênio e de medicamentos, pacientes, às vezes até dois em um leito, nos corredores e nas salas de espera das unidades de saúde.

O governo indiano simplesmente ignorou os avisos da comunidade científica. Somente no início de março, o ministro da Saúde indiano, Harsh Vardhan, médico, havia declarado que o país estava “no fim” da pandemia, depois que, no início do ano, havia sido verificada uma queda significativa na curva epidemiológica.

K. Srinath Reddy, presidente da Fundação de Saúde Pública da Índia, advertiu: “Todos queriam voltar ao trabalho. Alguns achavam que havíamos alcançado a imunidade de rebanho, e essa narrativa foi utilizada por muitos, enquanto as poucas vozes que convidavam à cautela não foram ouvidas”.

Nesse contexto, grande parte da Europa está seguindo uma estratégia de convivência, embora deveria buscar uma estratégia de eliminação da Covid-19, e a Itália está se movendo em analogia àquilo que é subestimado pelo governo indiano. Pressionado por forças políticas internas e por setores da sociedade exasperados com as perdas econômicas, o governo italiano está reabrindo segmentos significativos de atividade na presença de uma ampla circulação do vírus, uma forte pressão sobre os serviços sanitários, um sistema de saúde que sofre por falta de pessoal, um quadro de funcionários com idade média avançada e provado física e psicologicamente, e coberturas vacinais ainda não satisfatórias.

O governo atual nasceu da ideia de coesão nacional para enfrentar a pandemia. O sucesso da sua ação só será possível se, justamente, ele for coeso e basear as suas decisões, mesmo que impopulares, em evidências científicas. Toda invalidação de uma ou de outra será causa de infelicidade vindoura. Façamos com que não seja assim.

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