A Igreja e os abusos sexuais sob a ótica dos arquétipos culturais

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22 Abril 2021

 

Existe a intenção de proteger a instituição, que se presume desejada pelo próprio Deus. Existe a certeza de se conceber como um corpo autônomo, portanto regulado e sujeito a normas diferentes daquelas da sociedade civil secular. Existe o corporativismo, que tende a proteger seus membros de intrusões externas. Existe tudo isso. Mas na raiz da incapacidade da Igreja Católica de fazer frente ao escândalo dos abusos sexuais cometidos por padres e religiosos - independente das intervenções individuais que aconteceram, inclusive por alguns pontífices - existe uma razão cultural: a convicção de que a pedofilia não é um "crime", mas um "pecado", e como tal é redimível através de um percurso de penitência e expiação, a realizar-se dentro da instituição, a única com direito a julgar o pecador e a proferir condenações, mesmo pesadas, porém sempre dentro do perímetro que ela mesma traçou.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada por Il Manifesto, 21-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma cultura do pecado que penetrou em profundidade e foi totalmente assimilada graças a uma tradição teológica e canônica de vinte séculos, que só entrou em crise nos últimos quarenta anos, quando na opinião pública, num amálgama apenas aparentemente contraditório de secularização e renascimento do sagrado, porém retirado do controle das instituições eclesiásticas, abriu espaço de forma avassaladora a ideia - a princípio longe de ser compartilhada - de que a pedofilia não é um crime contra a moral, mas uma violação dos direitos humanos dos sujeitos mais frágeis, um crime abjeto e imperdoável.

Com as denúncias públicas dos abusos sexuais cometidos pelo clero (as primeiras em meados dos anos 1980), amplificadas pelos meios de informação e de comunicação em geral - especialmente o cinema -, a rolha explodiu: a Igreja Católica se viu atingida por um escândalo após outro que foram minando a sua credibilidade para muitos fiéis, gerando descrédito e alimentando a raiva contra as hierarquias eclesiásticas, fechadas em seu código de silêncio quando não cúmplices.

A instituição tentou recentemente (o Papa Bento XVI, não o Cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) e está tentando (o Papa Francisco) correr aos reparos com uma série de intervenções e medidas, mas a onda parece impossível de ser segurada. Precisamente porque a falha não é tanto - ou não apenas - normativa e disciplinar, mas precisamente cultural.

Peccato o crimine. La Chiesa di fronte alla pedofilia

É a tese com a qual dois historiadores da modernidade, Francesco Benigno e Vincenzo Lavenia (o primeiro professor na Normale de Pisa, o segundo na Universidade de Bolonha) enfocaram o tema, com uma abordagem original e objetiva que olha para a história e, em certo sentido, aos arquétipos culturais, no livro que acaba de ser publicado pela Laterza: Pecado ou crime. A Igreja perante a pedofilia (em tradução livre, p. 284, euro 20). O livro é o resultado de um esforço de análise e, ao mesmo tempo, de síntese. A história da Igreja é percorrida, observada com as lentes da atitude em relação à sexualidade: desde as origens cristãs (a partir não dos Evangelhos - porque Jesus falou pouco ou nada de "sexualidade" - mas de Paulo, o primeiro a distinguir práticas sexuais virtuosas e pecaminoso, primeira entre elas a homossexualidade) ao Papa Bergoglio, passando pelo Império cristão tardio, Idade Média, Contrarreforma, Idade Moderna, século XX e início do novo século, com os grandes escândalos da pedofilia eclesiástica nos EUA, Irlanda, Austrália, Holanda, Alemanha e Chile. E é interpelado o pensamento dos filósofos, de Foucault a Žižek, invadindo também a literatura contemporânea e o cinema.

Para chegar a uma conclusão que não pretende explicar as causas da pedofilia (o movimento de 1968 e a liberação sexual, junto com a disseminação da homossexualidade, para os setores conservadores; o clericalismo, segundo a ala mais liberal), mas tenta identificar suas profundas raízes e explicar porque a Igreja ainda não parece capaz de virar a página: uma "cultura compartilhada pelos fiéis, pelos padres pedófilos e pelas hierarquias eclesiásticas" - mas agora não mais pela nova sensibilidade da sociedade civil – que é considerada pecado, com sua intrínseca "inelutabilidade" e "redimibilidade".

 

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