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16 Abril 2021

 

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 3º Domingo de Páscoa, 18 de abril de 2021 (Lc 24, 35-48). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

O Evangelho deste domingo relata outro evento, após a visita de madrugada das mulheres ao túmulo vazio (cf. Lc 24,1-11), a corrida de Pedro ao sepulcro (cf. Lc 24,12), a manifestação do Ressuscitado “como um forasteiro” (Lc 24,18) aos dois discípulos no caminho a Emaús (cf. Lc 24,13-35).

Ainda no mesmo dia, “o primeiro da semana” (Lc 24,1), o dia único da ressurreição, mas à noite, os dois discípulos que voltaram a Jerusalém estão na sala do andar de cima (cf. Lc 22,12; Mc 14,15), contando aos Onze e aos outros “como reconheceram Jesus ao partir o pão” (Lc 24,25).

E eis que, de repente, percebem que Jesus está no meio deles e faz ouvir a sua palavra: “A paz esteja convosco!”. Não lhes profere palavras de reprovação pela sua fuga no momento da sua prisão, não repreende Pedro pela negação, não diz nada sobre o fato de eles não serem mais Doze, como ele os havia chamado e constituído em comunidade (cf. Lc 6,13; 9,1), mas apenas Onze, porque o traidor foi embora.

Não, ele lhes diz: “Shalom ‘aleikhem! Paz a vocês!”, saudação habitual para os judeus, mas que, naquela noite, ressoa com uma força particular. Essa saudação, dirigida aos discípulos profundamente abalados e perturbados pelos eventos da paixão e morte de Jesus, significa sobretudo: “Não tenham medo!”.

A ressurreição transformou Jesus radicalmente, transfigurou-o, tornou-o “outro” no aspecto, porque ele já “entrou na sua glória” (cf. Lc 24,26) e só pode ser reconhecido pelos discípulos através de um ato de fé. Esse ato de fé é difícil, fatigante: os Onze custam a vivê-lo, a colocá-lo em prática...

Não por acaso Lucas anota que os discípulos “ficaram assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”, do mesmo modo que os discípulos no caminho de Emaús acreditavam ver um peregrino.

Então, Jesus os interroga: “Por que estais preocupados, e porque tendes dúvidas no coração? Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”.

Ao dizer isso, mostrou-lhes as mãos e os pés com os sinais da crucificação. Sim, o Ressuscitado não é outro senão aquele que foi crucificado! Essa ostentação, por parte de Jesus, das suas mãos e dos seus pés transpassados pela crucificação é um gesto que pede que os seus discípulos o encontrem acima de tudo nos sinais do sofrimento, do padecimento e da morte. A carne chagada de Cristo é a carne chagada da humanidade, é a carne do pobre, do faminto, do doente, do oprimido, da vítima da injustiça da violência! Sem esse encontro muito real com a carne dos sofredores, não se encontra Cristo, e a própria ressurreição permanece um mito.

No entanto, apesar dessas palavras e desse gesto, os discípulos não chegam a crer; apesar de uma emoção alegre, não chegam à fé. É verdade, nós, seres humanos, chegamos facilmente à religião, mas dificilmente chegamos à fé; vivemos facilmente emoções “sagradas” ou religiosas, mas dificilmente aderimos a Jesus Cristo e à sua palavra.

Na comunidade dos Onze, devemos ler a história das nossas comunidades, nas quais se vive a e se confessa a fé, mas também se manifesta a incredulidade. No entanto, o Ressuscitado tem uma grande paciência e, por isso, oferece à sua comunidade uma segunda palavra e um segundo gesto.

Ele lhes pergunta se eles têm algo para comer, e eles lhe oferecem um pouco de peixe assado, a comida que costumavam comer juntos, quando viviam a aventura da vida comum na Galileia. Tendo-o recebido, Jesus come na frente deles! Nós ficamos até estupefatos diante desses gestos de Jesus, mas fiquemos atentos: são apenas “sinais” para dizer que a ressurreição de Jesus não é imortalidade da alma e perda total do corpo, não é “a continuação da sua causa” mesmo que ele esteja morto, não é uma memória que se conserva sem que aquele que morreu esteja verdadeiramente vivo.

Jesus dá aos discípulos esses sinais, que, na verdade, contêm verdades indizíveis, para que creiam que o Crucificado realmente venceu a morte. Seu corpo crucificado é um corpo agora vivo, “um corpo espiritual” (1Cor 15,44), isto é, vivo no Espírito, dirá o apóstolo Paulo.

O próprio Lucas escreveria no início dos Atos dos Apóstolos que Jesus “se apresentou vivo aos seus discípulos com muitas provas” (At 1,3), mas que não pareciam ser suficientes para levá-los à fé. De fato, os discípulos permanecem em silêncio, mudos!

Então, Jesus, para fazer com que finalmente cressem, retoma a sua pregação, o anúncio do Evangelho por ele feito até a morte. Ele pede para que recordem as palavras ditas enquanto estava com eles, porque aquelas palavras eram profecia e a palavra de Deus que devia se realizar, assim como devia encontrar cumprimento tudo o que tinha sido escrito sobre ele, o Messias, na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos, isto é, nas santas Escrituras da antiga aliança.

E eis que, enquanto o Ressuscitado recorda e explica a palavra de Deus contida nas santas Escrituras, ele opera o milagre verdadeiro: “Abriu-lhes a mente (diénoixen autôn tòn noûn) para compreenderem as Escrituras”.

O verbo aqui utilizado (dianoígo), nos Evangelhos, tem sempre um sentido terapêutico: designa a abertura dos ouvidos dos surdos e da boca dos mudos (cf. Mc 7,34), dos olhos aos cegos (Lc 24,31). Aqui indica a operação realizada no poder do Espírito Santo, a abertura da mente para a compreensão das Escrituras. Os discípulos, assim “abertos”, podem agora crer e, portanto, ser constituídos testemunhas da ressurreição de Jesus.

Junto deles, Jesus se faz exegeta, intérprete das profecias que lhe diziam respeito, recorda também as suas palavras proferidas durante a pregação na Galileia, mostrando a “necessitas” do cumprimento, da realização na sua vida na sua morte. Ele talvez não tinha conversado com Moisés (a Lei) e com Elias (os profetas) precisamente sobre aquele êxodo pascal que ele devia fazer para Jerusalém (Lc 9,30-31)?

A fé pascal brota da fé e do conhecimento das santas Escrituras, como ainda professamos no Credo: “Padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras (cf. 1Cor 15,3-4)” (resurrexit tertia die secundum Scripturas). Os discípulos entenderam que o desígnio salvífico de Deus se cumpriu na paixão, morte e ressurreição do Senhor, e que esse é o fundamento da fé cristã, da qual brota o anúncio do perdão dos pecados, da misericórdia de Deus para todos os povos da terra: não só para o povo de Israel, mas para todos...

Com muito esforço, Jesus fez com que aqueles discípulos que haviam desaparecido durante a sua paixão cressem novamente, tornou-os testemunhas da sua morte e ressurreição, tornou-lhes capazes de compreender o que é o perdão dos pecados que eles devem anunciar, em virtude do fato de terem sido os primeiros a receber o perdão do Ressuscitado.

Há um ditado de um Padre do deserto que me parece comentar admiravelmente essa página evangélica: “Crer na palavra do Senhor é muito mais difícil do que crer nos milagres. Aquilo que se vê apenas com os olhos do corpo ofusca; aquilo que se vê com os olhos da mente que crê, ilumina”.

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