Por que Francisco não apoia os “teocon” estadunidenses. Entrevista com Massimo Borghesi

Papa Francisco. | Foto: Vatican News

07 Abril 2021

“O caminho da misericórdia, que Francisco indica à Igreja contemporânea, não se contrapõe ao caminho da Verdade como acusam os teocons (cristãos conservadores) e os tradicionalistas. Para o Papa, a Misericórdia é, hoje, o caminho para a Verdade”. Conversa da Formiche.net com o filósofo Massimo Borghesi, autor de "Francisco: A Igreja entre a ideologia teocon e hospital de campanha" (em tradução livre, Jaca Book).

 

A entrevista é de Francesco Gnagni Porpora, publicada por Formiche, 06-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Com sua ascensão ao trono papal, o Papa Francisco herdou uma condição, aquela da Igreja Católica, severamente testada tanto pelos escândalos do clero como por uma secularização agressiva que encontrou expressão em uma verdadeira guerra cultural e midiática, e que em muitos aspectos continua até hoje. Para entender melhor todo o panorama subjacente ao que aconteceu naquele 13 de março de 2013, porém, precisamos voltar no tempo, pelo menos até a queda do Muro de Berlim. Naqueles anos, de fato, nos Estados Unidos estava se delineando uma ligação particular entre espírito estadunidense, batalhas éticas e pensamento católico, que se tornaria predominante em alguns aspectos e cuja direção é governada por um grupo de formadores de opinião que o filósofo Massimo Borghesi, professor catedrático de Filosofia Moral do Departamento de Filosofia, Ciências Sociais, Humanas e Educação da Universidade de Perugia, escolheu colocar sob os holofotes para a elaboração de sua última obra intelectual, "Francesco: La Chiesa tra ideologia teocon e ospedale da campo” (Jaca Book,, 272 p.), sobre a qual falou ao Formiche.net.

 

Eis a entrevista.

 

Professor, em seu livro publicado em 2017 pela Jaca Book, "Jorge Mario Bergoglio: Una biografia intellettuale" (aqui a resenha de Formiche.net) tentou destacar a estrutura fundamental do pensamento filosófico do Papa Francisco, mostrando como o seu componente propriamente original, da dialética dos opostos, insere-se, sem dúvida, na linha tradicional da doutrina católica. Mesmo assim, muitos ainda têm dificuldades para entender esta passagem, quase inexplicavelmente. Ou existe uma explicação, e você tentou colocá-la em preto no branco em seu último livro...

 

Por parte dos jornalistas existe, de fato, uma verdadeira desatenção à "biografia intelectual" do Papa, quase como se ela não fosse importante para compreender as linhas do pontificado. Nisso ainda são afetados pelo preconceito europeu de que aquilo que vem da América Latina não pode ter grande profundidade cultural. Eles estão errados, e no livro que você cita isso é amplamente demonstrado. O cerne do pensamento "católico" do papa deriva de seu encontro ideal com o modelo da "polaridade" da vida e da sociedade indicado por Romano Guardini. Segundo ele, a Igreja aparece como o lugar do "complexio oppositorum". É esse modelo que permite a Francisco escapar do maniqueísmo político-religioso que marcou o mundo a partir de 11 de setembro de 2001. Um maniqueísmo que contagiou também a Igreja Católica que, principalmente nos Estados Unidos, às vezes parece se confundir com o fundamentalismo evangélico.

 

Com a formação da orientação teo-conservadora, nasce uma corrente que terá grande peso no mundo católico EUA. Aquela que você chama, na linha da definição do jornalista Enzo Bettiza de "cato-comunismo", de "cato-capitalismo". Que também estará destinada a influenciar uma visão do catolicismo mundial, que repercute até na Itália através de um projeto eclesial apoiado pelos chamados "ateus devotos" liderados por Marcello Pera, a quem você dedica bastante espaço no livro.

 

A corrente dos Catholic Neoconservative, liderada por Novak, Neuhaus, Weigel, Sirico, toma forma nos EUA sob a presidência de Reagan e depois se estabiliza sob a presidência de Bush jr. realizando uma verdadeira hegemonia na Igreja norte-americana e, consequentemente, no catolicismo mundial. Representa uma reação ao progressismo ideológico, individualista e libertário que caracterizou a nova esquerda estadunidense a partir dos anos 1970. Movendo-se para a direita, um grupo de intelectuais católicos provenientes da esquerda dá forma a uma nova versão do "americanismo católico" que se focaliza sobre duas diretrizes: adesão total do catolicismo ao modelo capitalista e cultural wars, ou seja, batalhas culturais para defender um grupo restrito de valores declarados irrenunciáveis. Entre eles, em primeiro lugar, a defesa dos nascituros. Assim nasceu uma síntese singular entre uma orientação pró-vida e uma apologia ao capitalismo. Singular porque não reflete no fato de que o próprio espírito do capitalismo justifica a mentalidade sacrificial que está por trás do "direito" ao aborto. Na Itália, a corrente “teocon” se afirma nas duas décadas que vão de 1990 até a primeira década do novo milênio. O think-tank de referência será a Fundação Magna Carta de Marcello Pera enquanto o jornal de referência será o Il Foglio de Giuliano Ferrara. O objetivo era juntar luta ética sobre "valores não negociáveis", defesa do Ocidente "cristão" contra relativismo e Islã, plena solidariedade com a guerra estadunidense contra o Iraque. O objetivo era criar um bloco liberal-conservador-católico de molde anglo-saxão. A Igreja daquela época, como documento na obra, não será insensível a esse projeto. O fim do projeto, devido ao desastroso desfecho da guerra do Iraque e da crise do capitalismo mundial, não impede que os principais oponentes do atual pontificado em nosso país venham quase todos do mundo neocon.

 

No centro de tudo isso está o pensamento social da Igreja, puxado de um lado ou de outro. Acabada a era da teologia da libertação e consumada a queda do Muro de Berlim, a cristandade lhe pareceu ter sido engaiolada por uma nova "teologia do capitalismo", cujo casus belli será tirado, habilmente, de uma releitura tendenciosa da Centesimus Annus, que na realidade, tinha uma mensagem totalmente diferente.

 

A operação Centesimus Annus é aquela que permite aos católicos neoconservadores tomar a ponte de comando na Igreja norte-americana. A encíclica de João Paulo II, publicada em 1991 em concomitância com a queda do comunismo soviético, de forma alguma favorecia a celebração do capitalismo. Um capitalismo que então assumiu cada vez mais uma face financeira, desprovida de freios inibidores, que vai levar o mundo à beira do colapso com o caso do Lehman Brothers em 2008. A Centesimus annus se mostrava muito crítica à ideia de um capitalismo sem freios e repropunha de maneira clara a tradicional doutrina social da Igreja sobre o assunto. A operação ousada e arranjada por Novak, Neuhaus, Weigel, seria aquela de apresentar um documento crítico ao capitalismo "puro" como uma sua apologia. Com a Centesimus annus, a Igreja teria finalmente abandonado sua desconfiança no liberalismo econômico e teria se adaptado aos padrões do mundo europeu ocidental. João Paulo II se tornava o cantor do modelo estadunidense com uma ruptura em relação à reflexão de seus antecessores. Descrevo como os neoconservadores tiveram sucesso nessa empreitada em meu livro. De fato, por meio dessa leitura eles se imporão como intérpretes, dentro da Igreja, da linha de João Paulo II. Sua liderança no mundo eclesial EUA passa por sua deformação da Centesimus annus. Graças a ela, o cato-capitalismo podia se tornar hegemônico.

 

No meio, a dramática passagem da guerra no Iraque. Diante da condenação de Wojtyla à doutrina da “guerra justa”, os pensadores católicos estadunidenses foram chamados a decidir que lado tomar. Eles mostraram, nesta passagem histórica de enorme importância, qual era a causa que mais lhes importava, se aquela de Roma ou a de Washington. O que resultou?

 

Resultou a verdadeira face do americanismo católico, aquela que permanecera oculta pela leitura manipuladora da Centesimus annus. O conflito traz à tona a face ideológica dos neoconservadores. Nascidos com a intenção de reconciliar catolicismo e espírito estadunidense, eles optam, na verdade, pelo primado dos EUA sobre a Igreja. Diante das provas manifestamente falsas com que o governo estadunidense tentava justificar a entrada em guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, os teocons alinharam-se ao lado de Bush contra João Paulo II que, idoso e doente, permanece firme na oposição a um conflito que não oferecer razões razoáveis e certas. O tempo mostraria depois o quanto Roma estava certa. A guerra no Iraque causou centenas de milhares de mortes, a devastação do país, o êxodo bíblico da histórica comunidade cristã das terras de Nínive. Os “teocons” nunca pediram desculpa por seu trágico erro.

 

No final da temporada woytiliana, Bento XVI foi eleito e imediatamente se tentou cooptá-lo pelas mesmas componentes culturais. Mas a Caritas in Veritate não agradaria de forma alguma o mundo dos intelectuais que ela delineia, e depois de sua publicação tentou-se culpar a resistência interna por parte da Cúria Romana. Mas depois com a chegada do Papa Francisco e com as três encíclicas bergoglianas veio a verdadeira ruptura, que deu origem à dura oposição ao atual pontificado que vemos há anos. Mas o conteúdo das mesmas não difere muito daqueles das encíclicas dos papas anteriores. Então, de onde surge esse ódio radical contra Francisco?

 

Sim, isso sobre a oposição dos teocons a Bento XVI, assim como a João Paulo II, é uma página pouco conhecida. Na verdade, continua-se com a leitura unilateral de que o Papa Ratzinger teria sido um peão nas mãos dos teocons. Na realidade, os teocons tentam, após o rompimento com João Paulo II sobre a guerra, propor novamente seu projeto hegemônico sobre a Igreja relançando-o sobre o papado de Bento XVI. No entanto, a Caritas in veritate, a encíclica social do Papa de 2009, não agrada a eles. Tanto Novak quanto Weigel são críticos do documento, temem que depois da Centesimus annus volte-se novamente à perspectiva de "esquerda" de Paulo VI. Weigel chega a escrever um artigo, "Caritas in Veritate in Gold and Red", no qual separa, com o bisturi, a parte "áurea" do documento, que teria sido escrita pelo próprio Bento XVI, daquela "vermelha" elaborada em sua opinião pela Pontifícia Comissão "Iustitia et Pax". A primeira seria correta, a segunda não. Com isso, o método dos teocons torna-se manifesto. Os documentos do magistério são aceitos apenas pela parte que está de acordo com a ideologia teocon, o restante é rejeitado. A novidade com Francisco é que essa estratégia não funciona mais. De fato, todo o pontificado de Francisco constitui um requestionamento consciente do modelo teológico-político que condicionou a consciência eclesial há trinta anos. Um modelo de direita que substituiu o modelo de esquerda dominante na década de 1970. Diante desse requestionamento, a estratégia dos teocons é separar Francisco de seus predecessores, "isolá-lo", mas, como demonstro em meu livro, isso é uma mistificação.

 

E assim chegamos à atualidade. Depois de retratar Trump como uma espécie de constantiniano anti-Bergoglio, defensor dos valores cristãos contra um catolicismo decadente, você destaca o fato de que Biden é o segundo presidente católico dos Estados Unidos, e o descreve como herdeiro da temporada kennediana. No entanto, questões como do aborto continuam sendo um importante “obstáculo”, como você destaca no livro. Se na origem do movimento teocon está a sentença histórica “Roe vs. Wade” sobre o aborto, hoje nos Estados Unidos a oposição republicana, viva e aguerrida em cada um dos estados, está abraçando a ideia de levar a lei sobre o aborto à Suprema Corte, que se tornou uma maioria pró-vida durante a presidência de Trump. Isso representaria uma conquista histórica para a própria componente neoconservadora e para os bispos estadunidenses que a patrocinam.

 

Infelizmente, o obstáculo do aborto é real. A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de 1973 representa uma grave ruptura para a Igreja Católica estadunidense entre consciência religiosa e nação. Os católicos que estavam na fila da frente do Partido Democrata na década de 1960 são empurrados cada vez mais para a direita nas fileiras do Partido Republicano que, habilmente, coloca-se como interlocutor. Com o passar dos anos, essa lacuna tem se acentuado cada vez mais entre os defensores do direito ao aborto como um direito constitucional e os militantes pró-vida que concentram todo o testemunho público sobre um único valor. Para os católicos, isso significou esquecer a doutrina social da Igreja e a perspectiva do testemunho evangélico no mundo secularizado que transcende os alinhamentos políticos.

 

Evangelização e promoção humana, a dupla polar que está no centro da Evangelii nuntiandi de Paulo VI se perderam nas ruas. Em sua recuperação está o projeto de Francisco que quer empurrar uma “Igreja imóvel”, bloqueada por um esquema maniqueísta. O Papa é decididamente contra o aborto. A este respeito, ele usou palavras de condenação que os pontífices anteriores não usaram. Ele não aceita, entretanto, limitar o empenho do cristão no mundo apenas no ponto reduzido dos pró-vida. A luta contra o aborto, por mais importante que seja, deve ser colocada dentro da proteção e a defesa de tudo o que é "frágil". Nesta tutela da fragilidade reside uma tarefa essencial para a democracia.

 

Em tudo isso, a resposta de Francisco, ou seja, a orientação de seu pontificado missionário, você a identifica em sua "teologia da ternura", que por sua vez tira sua força vital do pensamento "tensionador” que une coração e intelecto, valorizando assim a polaridade do real, e que se origina na formação inaciana e jesuíta de Bergoglio. O convite do Papa, como para João Paulo II, é para abrir as portas a Cristo, com a diferença que se o santo polonês se dirigia para fora da Igreja, o convite do Papa argentino olha para dentro dela. Contra a temporada teocon, você escreve, que terminou no "teo-populismo", a Igreja é chamada a redescobrir o significado da complexio oppositurum no pensamento da reconciliação. “Toda ideologia é uma pedra de tropeço”, conclui, e “a Igreja não precisa de inimigos para viver, mas seu propósito é comunicar a mansa humanidade do Redentor”.

 

O caminho da misericórdia, que Francisco aponta para a Igreja contemporânea, não se contrapõe ao caminho da verdade como acusam teocons e tradicionalistas. Para o papa, a misericórdia é, hoje, o caminho para a verdade. Eu insisto sobre o hoje. Bento XVI, o papa emérito, explica o porquê em uma entrevista de 2016 com o padre Jacques Servais. Para Bento XVI, o fio vermelho que une os três últimos papas, ele, João Paulo II e Francisco, é a escolha pelo primado da misericórdia. E isso não só porque é o caminho evangélico por excelência, mas também porque o homem contemporâneo, dobrando por um mal que não consegue carregar nem confessar, se encontra na figura do filho pródigo da parábola. O caminho da ternura para Francisco não é a via do bom mocismo, que tudo perdoa porque não sabe mais reconhecer o mal, mas é a única via mediante a qual é possível reconhecê-lo. Para confessar os pecados, é preciso já estar idealmente abraçados. A misericórdia está no início e não apenas no fim. Isso é o que o conservadorismo religioso-ideológico, duro como uma pedra, não está em condições de entender.

 

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