Dom Luiz Fernando Lisboa: “Não se evangeliza de barriga vazia”

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Por: Jonas Jorge da Silva | 09 Março 2021

Até inícios de fevereiro, Dom Luiz Fernando Lisboa, C.P., era bispo da Diocese de Pemba, em Moçambique. Agora, retorna ao Brasil nomeado para a Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo. Traz em sua bagagem uma rica experiência missionária, que irradiou pelo mundo após sua firme denúncia da guerra que, com interesses escusos, açoita os mais pobres daquele país, que carecem das mínimas condições de vida, em contraste com uma região rica em recursos naturais.

Sua voz ecoou ainda mais forte com o gesto de solidariedade do Papa Francisco, que não só telefonou para Dom Luiz Fernando, como também o recebeu em audiência privada em Roma, no dia 18 de dezembro do ano passado, além de empreender e motivar diversas ações de solidariedade. Como de praxe, Francisco, da sonhada “Igreja pobre e para os pobres”, protagonizou mais um gesto, entre tantos outros, que aponta para uma Igreja de fato universal, comprometida com a globalização da solidariedade.

A propósito da carta encíclica Fratelli Tutti e da atual Campanha da Fraternidade Ecumênica, Dom Luiz Fernando Lisboa discorreu sobre o tema Religiões e dignidade humana: da indiferença à defesa dos direitos humanos. O debate [online] ocorreu no último dia 6 de março, organizado pelo CEPAT, com a parceria e apoio do Instituto Humanitas UnisinosIHU, o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de AlmeidaOLMA, as Comunidades de Vida CristãCVX, Regional Sul, o Conselho Nacional do Laicato do BrasilCNLB e a Iniciativa das Religiões UnidasURI.

A conversa com Dom Luiz Fernando não se limitou apenas a uma mera revisão da contribuição dos documentos da Igreja em relação aos direitos humanos, mas também resultou na partilha de uma experiência missionária que buscou colocar a dignidade humana no centro da evangelização. Não por acaso, ao longo da partilha serena, polida e cativante do ex-bispo da Diocese de Pemba, o ouvinte é interpelado pela urgência da mensagem. “O trabalho primeiro da Igreja é evangelizar. Muito bem. Mas não se evangeliza de barriga vazia”, descortina.

Comprometido com os fundamentos do Concílio Vaticano II, Dom Luiz Fernando fez uma rápida passagem pelos principais marcos que permeiam o tema dos direitos humanos. Além da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948, citou os documentos conciliares.

Dom Luiz Fernando Lisboa, C.P. no debate "Religiões e dignidade humana: da indiferença à defesa dos direitos humanos"

Avaliou que o Concílio Vaticano II passou algum tempo adormecido, mas que atualmente está sendo retomado de forma magistral. Embora reconheça que na América Latina as diversas conferências episcopais buscaram traduzir para este continente os passos do Concílio, o mesmo não ocorreu em todas as partes do mundo, fazendo com que a Igreja permanecesse muito eurocêntrica e fechada para algumas realidades.

Também citou a importância da Doutrina Social, em seu todo, e particularmente documentos como a Laudato Si e a Fratelli Tutti. Lembrou que o Papa Francisco tem buscado aproximar as religiões e derrubar muros que impedem um verdadeiro diálogo. Nesse sentido, a atual visita ao Iraque também será um marco, assim como já foi, entre outros, o encontro do Papa com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb.

Para Dom Luiz Fernando, além da Fratelli Tutti, que coloca no centro a fraternidade humana, a Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano nos une em muitos pontos comuns, como a defesa da dignidade humana, dos mais frágeis e vulneráveis. Trata-se de nos unirmos para a prática do amor, para cuidar da Casa Comum e construir uma linguagem que leve em conta as necessidades do próximo.

Na sequência, deu concretude ao tema falando da experiência missionária que teve em Moçambique. Inicialmente, mencionou um pouco dos desafios do continente africano, que foi repartido entre as grandes potências da Europa como se fosse um bolo e que hoje sofre uma nova colonização, sendo invadido por grandes potências e empresas multinacionais.

Jonas Jorge da Silva, do Cepat e Dom Luiz Fernando Lisboa, C.P. no debate “Religiões e dignidade humana: da indiferença à defesa dos direitos humanos”

Mais do que falar das estratégias de poder das forças dominantes, Dom Luiz Fernando falou da riqueza de um povo que demonstra resistência diante de tanto sofrimento, invasões e depredações. Em Moçambique, embora a língua oficial seja a portuguesa, fala-se mais de 30 línguas. Entre o povo mais simples, não se fala português.

Em seus oito anos como padre e, depois, como bispo da Diocese de Pemba, Dom Luiz Fernando descobriu uma enorme riqueza cultural e religiosa naquele povo. Em sua avaliação, quando em missão, é necessário retirar as sandálias e estar disposto a reaprender com a experiência do outro.

Ao denunciar a guerra que a região de Cabo Delgado vive nesses últimos três anos e meio, Dom Luiz Fernando faz questão de ressaltar que, em primeiro plano, está a raiz econômica do conflito, já que se trata de uma região muito rica em recursos naturais: gás, petróleo, rubis, outro, pedras semipreciosas, grafite, mármore e madeira. “É uma terra explorada de diversas formas”, denuncia.

Embora reconheça que exista um componente religioso na guerra, que passa pela chegada de alguns grupos extremistas, Dom Luiz Fernando não concorda que seja dado, em primeiro plano, um contorno religioso ao conflito. Sendo assim, denuncia os diversos problemas sociais enfrentados pelo povo: escolas precárias, com muitas crianças estudando debaixo de árvores, quando não fora da escola, péssimas condições sanitárias e altíssimo nível de pobreza. “Não há emprego, não há perspectiva de futuro”, lamenta.

A guerra produz deslocamentos internos de pessoas que são obrigadas a deixar suas aldeias para fugir de perseguições, com pessoas que tiveram familiares mortos, casas destruídas ou que fogem preventivamente. Elas precisam deixar tudo para trás. Das 17 cidades que compõem Cabo Delgado, 9 delas estão envolvidas em guerra.

Muitas dessas famílias são acolhidas em outras aldeias, por gente muito pobre, ou então passam a viver em assentamentos muito precários, sem as mínimas condições. A Igreja de Moçambique, e mais especificamente em Cabo Delgado, tem buscado ajudar por meio da Cáritas e organismos de diversos países.

“Minha transferência para Cachoeiro de Itapemirim foi um cuidado do Papa”, reconheceu Dom Luiz Fernando, agradecendo pela solidariedade de Francisco, que com seus gestos deu visibilidade e trouxe maior apoio à região de Cabo Delgado. Solidariedade que o bispo também experimentou durante seus anos de missão: “Eu aprendi muito com aquele povo. Aprendi como ser solidário. Vi famílias muito pobres, que têm muito pouco, acolherem outras”, afirmou.

Dom Luiz Fernando lamentou o fato de, muitas vezes, como Igreja, ficarmos apegados ou presos, no sentido de amararas, a doutrinas. Se vivemos em um mundo plural, “é muito pobre, é muito pouco, qualquer proselitismo”. Em sua opinião, já está mais do que na hora de respeitar mais o outro, suas crenças e seu modo de pensar, construindo pontes. “Que nossas posturas sejam mais abertas”, pediu, já que é preciso se apegar ao que é mais essencial, ou seja, a dignidade da pessoa humana: o direito a comer, o direito à água potável, habitação, educação.

As pontes que precisam ser construídas devem fazer com que todas as religiões trabalhem juntas em favor da dignidade humana, dos direitos humanos. “Essa reação à Campanha da Fraternidade e a tantos outros passos que a Igreja já deu é uma reação muito pobre, de quem está fechado, de quem se julga dono da verdade, de pessoas que não querem dar passos em relação à fraternidade universal”, avaliou.

“A verdade é Deus”, “não podemos mais alimentar guerras verbais ou que vão às últimas consequências”, pediu. Nesse sentido, mencionou a viagem do Papa ao Iraque, dizendo que “o Papa arrisca a própria vida, mas faz isso como um gesto para o mundo todo de que é preciso se aproximar, dialogar, respeitar os outros”.

O agora ex-bispo da Diocese de Pemba é um defensor irredutível do diálogo. “Todo diálogo é positivo. Mesmo que seja preciso dialogar muitas vezes”, reconheceu.

Diante do sofrimento do povo, em geral, reconheceu a força e esperança que cultivam. E avaliou que diante da negação de direitos aos pobres, a Igreja em Moçambique sempre buscou colocar o dedo na ferida. “O primeiro trabalho da Igreja é evangelizar. Muito bem. Mas não se evangeliza de barriga vazia”, apontou, e lamentou que quando a Igreja tenta apontar as feridas, muitas vezes é incompreendida, tentam tirar a credibilidade da Igreja.

A Igreja de Moçambique também questiona a forma como as multinacionais se apropriam das riquezas do país, com uma exploração predatória que traz sofrimento para as populações locais. Embora as multinacionais tentem cooptar as Igrejas, a mesma não se rende, pois levam os recursos que poderiam trazer mais vida para o povo.

Em relação às reivindicações da guerrilha na região de Cabo Delgado, Dom Luiz Fernando disse que não são muito claras e que não existe um líder com um nome concreto. Assim, fica difícil saber as reivindicações dessa guerra. O que está claro é que alguém está lucrando com essa guerra e que existem líderes internos e externos que têm interesse na mesma.

Por fim, quando questionado sobre a atual situação no Brasil, a partir da pandemia e das vidas perdidas pela disseminação do vírus, Dom Luiz Fernando lamentou que alguns adotem o negacionismo como regra de vida, reconhecendo que o país poderia estar em um estágio mais avançado na vacinação, mas “passos não foram dados, encomendas não foram feitas, documentos não foram assinados”. Por fim, desabafou: “É muito triste voltar ao país e ver uma realidade como essa”.

Para Dom Luiz Fernando, não se deve idealizar tanto certos líderes em detrimento da maioria da população. “É muito difícil dialogar com um governo, quando o governo se fecha em suas verdades. É muito triste, triste, ver um governante máximo do país ir em encontros sem máscara, com aglomerações”, arremata.

Eis a íntegra da exposição e debate.

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