As religiões como instâncias críticas no seio da globalização

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Por: Jonas Jorge da Silva | 20 Fevereiro 2021

As religiões podem favorecer uma humanização das relações sociais, como também podem dificultá-las. Podem ser construtoras de muros, em resposta aos impactos de um mundo hiperconectado, como também podem ser instâncias que globalizam a solidariedade.

Foi a partir desta perspectiva que o teólogo Elias Wolff, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, apresentou o tema “Religiões e Globalização: dos muros à fraternidade universal”. O debate [online] ocorreu na noite do dia 18 de fevereiro, organizado pelo CEPAT, com a parceria e apoio do Instituto Humanitas UnisinosIHU, o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de AlmeidaOLMA, as Comunidades de Vida CristãCVX, Regional Sul, o Conselho Nacional do Laicato do BrasilCNLB e a Iniciativa das Religiões UnidasURI.

Igor Borck, do CEPAT, Elias Wolff, da PUCPR e Jonas Jorge do CEPAT, no debate "Religiões e Globalização: dos muros à fraternidade universal".

Em um primeiro momento, Wolff fez uma contextualização do atual estágio da globalização, apresentando um pouco da complexidade de suas problemáticas, bem como as possibilidades do estabelecimento de novas formas de sociabilidade. Ao mesmo tempo em que se vive um profundo avanço tecnológico, com a incessante promessa de um progresso social alavancado pela ciência e a técnica, persistem problemas elementares que colocam em xeque a própria sobrevivência de grandes parcelas da população, escancarando as desigualdades e injustiças estruturais.

A esse respeito, em artigo recém-publicado no sítio do IHU, intitulado “Toda Campanha da Fraternidade tem seu valor, mais ainda se for ecumênica!”, Wolff destacou que “o mundo globalizado tem sérias ambiguidades. A raiz delas está na lógica do sistema financeiro e mercadológico que rege a globalização. Essa lógica busca manter a hegemonia de impérios que se sustentam por novos modos de colonizar os povos”.

Tal realidade cobra de todos um posicionamento frente às suas contradições e polarizações. Afinal, qual é o lugar do ser humano em um contexto de globalização econômica, de homogeneização de práticas e hábitos ditados por grupos dominantes, na frenética corrida global pelo lucro a qualquer preço?

A resposta a esta pergunta também passa pela forma como se dão as práticas religiosas em um contexto global. Para Wolff, as religiões deveriam se portar como instâncias críticas a determinada forma de globalização, oferecendo os valores de sua tradição em favor da humanização do mundo. Da abertura ao transcendente e da pergunta sobre Deus nascem as condições para o encontro e o diálogo entre as religiões em prol de um mundo fraterno.

As religiões podem cumprir um papel muito importante para o enfrentamento das adversidades contemporâneas, caso sejam capazes de ultrapassar os limites de uma conexão global pautada apenas no tecnicismo e nas leis do mercado. Nesse sentido, Wolff considera que as religiões podem ser instrumentos para uma conectividade espiritual e de valores, oferecendo sentido à vida das pessoas.

Elias Wolff da PUCPR, no debate "Religiões e Globalização: dos muros à fraternidade universal".

A globalização baseada principalmente na circulação de mercadorias gerou o que o Papa Francisco denuncia como a cultura do descarte, que desconsidera a diversidade dos povos e exclui grandes grupos populacionais da justa distribuição da riqueza gerada no mundo. Diante das “sombras de um mundo fechado”, expressão utilizada pelo Papa Francisco na Fratelli Tutti, cabe às religiões resistir às práticas fundamentalistas, racistas e xenófobas, que produzem intolerância e violência.

Segundo Wolff, cabe a todos nós o seguinte questionamento: “nossa prática religiosa promove o diálogo ou potencializa o ódio?”. De acordo com o texto-base da Campanha da Fraternidade deste ano, infelizmente, no Brasil, “no primeiro semestre de 2019, o aumento de casos de intolerância religiosa foi de 56% em comparação ao mesmo período de 2018”. É apenas um exemplo do quanto ainda é necessário refletir sobre as nossas práticas religiosas.

Para Elias Wolff , “não se vai a Deus sem passar pelo humano”, portanto, urge vincular o humano ao religioso, com a promoção de uma globalização focada na dignidade humana. Se as religiões possuem uma missão humanizadora, o que não favorece a vida também não condiz com a proposta das religiões. Além de ser uma instância crítica muito importante no mundo globalizado, cabe às religiões ser o motor da globalização de um mundo fraterno.

Durante o debate com os participantes, Elias Wolff também discorreu sobre temas como a intolerância, a violência e o sentido das religiões. Em sua opinião, é importante que as pessoas conheçam muito bem a sua própria tradição religiosa para não incorrer em erros de interpretação das fontes de sua própria fé. O diálogo verdadeiro, que acontece banhado pela caridade, não anula a fé de ninguém, ao contrário, faz com que todos cresçam e se enriqueçam pelas diferenças.

Em relação à crise das atuais estruturas religiosas, Wolff observa que muitas vezes não conseguem colher as necessidades e carências de sentido apresentadas pelas pessoas. De forma esperançosa, é tarefa das organizações religiosas oferecer às pessoas um significado e um sentido frente às vicissitudes do cotidiano.

Embora reconheça a precariedade e a provisioriedade institucional das religiões, Wolff avalia que cabe às religiões apresentar suas convicções em um diálogo aberto e sem amarras. O problema não está em ter convicções nascidas da experiência de fé, mas, sim, em torná-las inflexíveis, rígidas, absolutas. Quando isso acontece, o que é provisório se eterniza e, então, surge o conflito entre as tradições religiosas.

Nossas instituições religiosas precisam recuperar as relações que possibilitam uma verdadeira integração com o outro. Para Wolff, a instituição é um meio, um instrumento de acolhida, de cuidado, de sensibilidade apurada. Nesse sentido, não podem ser frias, mas humanizadas e humanizadoras. Urge uma conversão das instituições “para que o espírito penetre e sustente a vida das pessoas”.

Eis a íntegra da exposição e debate.

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