Estado de ódio: o extremismo de extrema direita. Um relatório

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18 Fevereiro 2021

“State of Hate: Far-Right Extremism in Europe” [Estado de ódio: o extremismo de extrema direita na Europa] é um relatório histórico que explora o estado do extremismo de extrema direita em toda a Europa. Trata-se de uma colaboração entre três importantes organizações de pesquisa antifascistas europeias: a HOPE not hate Charitable Trust (Reino Unido), a Fundação EXPO (Suécia) e a Fundação Amadeu Antonio (Alemanha).

O relatório inclui contribuições de 34 acadêmicos, pesquisadores e ativistas de destaque de todo o continente e perfis de 32 países. Inclui ainda uma pesquisa exclusiva com 12.000 pessoas em oito dos principais países europeus (Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Hungria, Polônia e Itália), medindo as atitudes em relação a imigração, comunidades minorizadas, feminismo e descontentamento político.

O relatório na íntegra está disponível aqui, em inglês.

Publicamos aqui a introdução do relatório. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

 

Introdução

Joe Mulhall*

* Pesquisador sênior da HOPE not hate, a maior organização antifascismo e antirracismo do Reino Unido. Historiador do pós-guerra e do fascismo contemporâneo, com doutorado pela Royal Holloway, da Universidade de Londres. É membro do Conselho do Holocaust Memorial Day Trust, no Reino Unido.

O ano de 2020 será marcado para sempre pela pandemia global que se espalhou pelo mundo, trancando-nos nas nossas casas, escondendo os nossos rostos atrás de máscaras e tragicamente matando centenas de milhares de vidas. À medida que entramos em 2021, o número de mortos continua aumentando, embora a chegada de várias vacinas tenha fornecido um raio de esperança muito necessário.

No entanto, embora um tênue fragmento de luz tenha começado a levantar a escuridão aparentemente interminável do ano passado, as ramificações da pandemia continuarão a ser sentidas nos próximos anos; não menos importante, a crise econômica iminente que afetará a economia mundial. No entanto, de forma alguma houve apenas más notícias. Diante de tamanha tragédia, vimos comunidades se unirem, vizinhos e estranhos ajudando uns aos outros e exemplos de sacrifício, amor e esperança de partir o coração.

O ano de 2020 também foi um ano de raiva, com milhões de pessoas em todo o mundo indo às ruas para gritar “Não consigo respirar”, em protesto contra o assassinato de George Floyd. Os protestos do Black Lives Matter em mais de 60 países em todos os sete continentes, incluindo a Antártica, levantaram a questão do racismo e da desigualdade sistêmica na agenda política. Estátuas caíram, nomes de ruas mudaram e debates nacionais sobre racismo, legados imperiais e coloniais encheram as colunas dos jornais e as telas dos televisores.

Na Europa, os protestos do Black Lives Matter muitas vezes assumiram uma inflexão doméstica, refletindo questões locais como a morte de Adama Traoré, que se tornou um elemento central dos protestos em Paris. Aquilo que começou nas ruas de Minneapolis em maio deu origem a um momento global de protesto.

De forma não surpreendente, para a extrema direita europeia, tanto a pandemia global quanto os protestos do Black Lives Matter foram vistos como oportunidades. Embora grande parte da extrema direita europeia não tenha conseguido explorar a pandemia tanto quanto esperava, ela deu início a uma nova era de teorias da conspiração, à medida que as pessoas buscam conforto em explicações simples e monocausais para um mundo aparentemente fora de controle. Enormes manifestações anti-lockdown e de teorias da conspiração foram vistas em toda a Europa, especialmente em grandes eventos em Londres e Berlim. Os efeitos de longo prazo disso são difíceis de quantificar, mas certamente existe o perigo de que as comunidades online de teorias da conspiração estejam fornecendo novas trajetórias de radicalização, especialmente na direção de teorias da conspiração mais abertamente antissemitas.

Quando se trata do Black Lives Matter, a extrema direita europeia irrompeu em acessos de raiva, rejeitando qualquer discussão sobre sociedades racistas e, em alguns casos, voltando-se para uma política racial cada vez mais aberta, uma tática que provavelmente não pagará dividendos para eles no longo prazo.

Em meio ao caos e à tragédia, entretanto, houve momentos de notícias genuinamente boas. Em outubro, após um julgamento que durou mais de cinco anos, a liderança do partido grego neonazista Aurora Dourada foi considerada culpada de dirigir uma organização criminosa. Em 2012, ondas de choque foram sentidas em todo o continente, quando o partido conseguiu eleger 18 deputados em meio à turbulência da crise financeira.

No entanto, após o assassinato de um antifascista em 2013, teve início um inquérito criminal, embora muitos tivessem pouca esperança de que ele teria as enormes ramificações que tem. O líder do Aurora Dourada, Nikos Michaloliakos, e seis importantes colegas foram condenados por chefiar uma organização criminosa, Giorgos Roupakias foi julgado culpado de assassinato, e 15 outros foram condenados por conspiração. O julgamento dizimou uma das organizações neonazistas mais perigosas do continente, embora a ameaça de violência de extrema direita na Grécia permaneça.

O mês de novembro viu mais notícias boas, quando Donald Trump perdeu a eleição presidencial para Joe Biden e Kamala Harris, a autoridade feminina de mais alta posição eleita na história estadunidense. O resultado foi um grande revés para a extrema direita europeia, grande parte da qual se alinhara estreitamente a ele, especialmente os regimes de extrema direita na Polônia e na Hungria.

No entanto, agora não é hora para complacências. Mais de 74 milhões de estadunidenses votaram nele em 2020. Eles votaram nele depois de ele chamar os neonazistas e fascistas em Charlottesville de “gente muito boa”; depois de impor uma proibição de viagens aos muçulmanos; depois de se retirar do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas; depois de retuitar vídeos antimuçulmanos do vice-líder do Britain First [grupo de extrema direita no Reino Unido] e depois de separar crianças migrantes dos seus pais. Trump pode ter perdido, mas há milhões de pessoas nos Estados Unidos e em todo o mundo que ainda concordam com ele. Sua derrota é um revés bem-vindo e mais uma prova de que a ascensão da direita não é inevitável ou invencível, mas, em grandes partes do globo, as sociedades ainda estão se afastando das normas liberais, progressistas e democráticas e indo em direção a sociedades fragmentadas, divididas e anti-igualitárias. Os pilares da democracia liberal continuam balançando.

O ano chegou ao fim com o Reino Unido finalmente cumprindo a promessa do Brexit ao abandonar a União Aduaneira e o Mercado Único no dia 31 de dezembro de 2020. As causas do Brexit são complexas e de forma alguma totalmente ligadas à extrema direita, mas um sentimento anti-imigrantes desempenhou um papel-chave e, sem dúvida, impulsionou grande parte da extrema direita europeia.

No Reino Unido, a extrema direita já deslocou a sua atenção para a política anti-migrantes e antichineses, mas em grande parte da Europa a extrema direita continuará lidando com as suas próprias atitudes em mudança em relação à União Europeia nos próximos anos.

Uma extrema direita internacional

É importante afirmar desde o início que qualquer visão geral da extrema direita europeia necessariamente falará em termos gerais. É especialmente importante entender isso ao falar sobre a extrema direita online contemporânea. Embora continue sendo importante explorar tendências em organizações tradicionais de extrema direita, como os partidos políticos, a extrema direita moderna está atualmente passando por uma mudança mais ampla e mais fundamental; nomeadamente, a emergência de uma ameaça transnacional e pós-organizacional.

O cenário europeu da extrema direita hoje é uma mistura de partidos políticos de extrema direita formalizados, como os Democratas da Suécia, o Vox na Espanha, a Liga na Itália e o AfD na Alemanha, e uma série de movimentos de extrema direita mais soltos e transnacionais, compostos por uma variedade díspar de indivíduos que colaboram coletivamente, mas não formalmente.

Na era da internet, vimos a emergência de movimentos díspares, como o movimento antimuçulmano de “contra-jihad” e o alt-right internacional. Embora todos esses agrupamentos tenham organizações formais dentro deles, eles geralmente são pós-organizacionais. Milhares de indivíduos, em todo o mundo, oferecem microdoações de tempo e às vezes de dinheiro para colaborar com objetivos políticos comuns, completamente fora das estruturas organizacionais tradicionais. Esses movimentos carecem de líderes formais, mas têm figuras de proa, muitas vezes retiradas de uma seleção cada vez maior de “influenciadores” das mídias sociais de extrema direita.

Durante a maior parte do período pós-guerra, “ser ativo” exigia encontrar um partido, entrar nele, fazer campanha por ele, passar de casa em casa, distribuir panfletos e comparecer a reuniões. Agora, a partir do conforto e da segurança das suas próprias casas, os ativistas de extrema direita podem se engajar na política assistindo a vídeos do YouTube, visitando sites de extrema direita, fazendo networking em fóruns, falando em serviços de chat de voz como o Discord e tentando converter “normies” [pessoas que não fazem parte de nenhuma “tribo” específica e compartilham qualquer coisa que esteja fazendo sucesso na internet, até mesmo sem compreendê-la] nas principais plataformas de mídia social, como Twitter e Facebook. O fato de que tudo isso pode ser feito de forma anônima reduz muito o custo social do ativismo.

Esses novos movimentos são mais bem compreendidos como uma hidra de muitas cabeças. Se um ativista ou líder proeminente cai em desgraça, isso não é mais um golpe fatal; outros simplesmente emergirão, e os difamados serão descartados.

É de fundamental importância o fato de que esses movimentos são genuinamente transnacionais. Embora os ativistas geralmente estejam preocupados principalmente com questões locais ou nacionais, eles invariavelmente as contextualizam de maneira continental ou até global. Frequentemente, ativistas de todo o mundo se reúnem por curtos períodos de tempo para colaborar em certas questões, e essas redes soltas atuam como sinapses, transmitindo informações ao redor do globo. Um islamofóbico de um país, indignado por servirem frango halal nos restaurantes de fast-food locais, pode postar isso nas redes sociais, e a história se espalhará pela rede. Se for captado por um “supersharer” (um ativista especialmente influente com um grande público nas mídias sociais), essa história local será pinçada por islamofóbicos afins em todo o mundo e atuará como mais uma “evidência” e os convencerá ainda mais da ameaça de “islamificação”.

Se quisermos realmente entender a extrema direita contemporânea, devemos, portanto, mudar o nosso pensamento. Vivemos em um mundo cada vez menor: seja em nossa própria comunidade, nosso próprio país, continente ou globo, estamos interconectados como nunca antes. Nossa capacidade de viajar, comunicar e cooperar além-fronteiras seria inconcebível há apenas uma geração, e, embora essas oportunidades absolutamente não estejam distribuídas de maneira uniforme, elas abriram oportunidades de progresso e de desenvolvimento anteriormente impossíveis.

No entanto, uma maior interconectividade também produziu novos desafios. Os instrumentos à nossa disposição para construir um mundo melhor, mais justo, mais unido e colaborativo também estão nas mãos de quem os usa para semear divisão e ódio ao redor do mundo. Se quisermos entender os perigos representados pela política do ódio e da divisão, não podemos mais apenas olhar para a nossa rua, a nossa comunidade ou mesmo o nosso país; devemos pensar além dos partidos políticos, das organizações formais e até das fronteiras nacionais.

Como tais, todos os fenômenos discutidos neste relatório deveriam ser entendidos como fatos que ocorrem em diferentes graus em diferentes partes da extrema direita europeia, significando tanto as organizações formais de extrema direita quanto os movimentos pós-organizacionais.

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