A mudança que eu gostaria. Entrevista com Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal da Alemanha

Discussão do Sínodo Alemão | Foto: Harald Oppitz/KNA

25 Janeiro 2021

Devido à crise dos abusos sexuais, a exigência de reformas ressoa mais forte; mas recentemente tem havido tensões consideráveis entre a Conferência Episcopal alemã e Roma. Qual é a posição da Conferência Episcopal? Conversamos sobre isso com seu presidente, o bispo Georg Bätzing.

 

A entrevista é de Stefan Orth e Volker Resing, publicada por Il Regno, fevereiro-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista. 

 

Monsenhor, há um ano o senhor é presidente da Conferência Episcopal alemã, mas pessoalmente ainda é pouco conhecido. Certa vez, o senhor disse que a casa de seus pais era católica por inteiro. O que isso significa?

Isso significa que era naturalmente católica, no contexto de Igreja de povo então vigente. Em Niederfischbach, a cidade onde nasci, a maioria das pessoas era católica. Nas famílias dos meus pais havia religiosos e padres. A participação na celebração eucarística aos domingos e feriados não era um dever, mas simplesmente uma coisa normal. O meu pai era funcionário da empresa ferroviária alemã, mas também compositor como segunda atividade, por isso ele se realizou na música.

 

Sua família era católica em sentido rígido?

Não, não era preconceituosa nem rígida, era normal. Embora a celebração dominical desempenhasse um papel importante e as pessoas orassem em casa, a Igreja não estava no centro. Cada um de nós poderia pensar e agir como considerasse mais certo.

 

Havia discussões com os pais?

Sobre as posições eclesiais no. Mas na casa dos meus pais também sempre houve um traço crítico: não seguir opiniões sem se questionar, não seguir caminhos sem examiná-los. A esse respeito, meus pais criticaram, mas também apoiaram, o desejo que expressei muito cedo de me tornar padre. Eu queria ir para o ginásio, porque já na época queria ser pároco. Os meus pais sempre disseram: faça isso, mas saiba que não podemos ajudar muito nisso.

 

Como surgiu esse desejo de ser pároco?

O fascínio da missa está na origem da minha vocação. Não sei quando percebi isso conscientemente, mas foi muito, muito cedo. Já sabia que queria ser padre no primeiro ano de escola. Quando, às vezes, por ocasião das confirmações, me perguntam se alguma vez quis exercer outra profissão, sempre digo: para ser sincero, na verdade, não.

 

Quais são as diferenças decisivas entre aquela época e hoje?

O mundo mudou completamente. Cresci num clima positivo de vida eclesial, sempre vivenciei a Igreja como uma realidade que liberta a pessoa: no empenho como coroinha, com os grupos juvenis, na música, nas múltiplas possibilidades de envolvimento e desenvolvimento, num ambiente amplo para crescer, ser acolhido e posto à prova, amparados por uma atmosfera positiva.

 

Que mudanças na Igreja desde sua infância e adolescência foram particularmente positivas e continuam a ser importantes?

É bom que a era de uma Igreja sustentada pelo seu meio tenha acabado. Muito cedo, desde o início dos meus estudos, depois nos anos seguintes e também como padre espiritual nos vários cargos que desempenhei, também percebi a outra face dessa forma de Igreja de povo: a pressão que era exercida, a falta de liberdade que dominava, a indecisão então possível nas questões de fé. O quadro em que vivemos agora é claramente muito mais adequado à fé cristã. Eu não gostaria de forma alguma de voltar para trás.

 

Eu queria ser um pastor

Mas o senhor queria se tornar pároco e nunca se tornou ...

De onde eu venho, costuma ser chamado pastor. Na verdade, eu queria ser pastor e nunca me tornei. Passei vinte anos na formação dos padres, depois acompanhei as peregrinações e finalmente fui nomeado vigário geral. Hoje, como bispo, tenho mais uma vez a oportunidade de encontrar pessoas, portanto me reaproximei do desejo originário da minha vocação.

 

Mas também há algo dramático: não se tornou o que queria.

É isso mesmo. Pode-se dizer que em parte a culpa é minha, porque nunca escolhi algo por iniciativa própria, mas sempre fui enviado, ou pelo menos me pediram para ir a determinados lugares. Nunca fui capaz de dizer não.

 

Quando o senhor percebeu a existência de violência na Igreja Católica?

Na verdade, muito cedo, porque na minha cidade natal na época dos meus irmãos houve violência de um padre. Pessoalmente não estive envolvido, porque no meu tempo aquele pároco já não estava mais na paróquia.

 

Cedo, significa quando o senhor era jovem?

Sim, quando jovem. E aconteceu exatamente como ainda vemos hoje. As coisas estavam escondidas, mas de alguma forma se sabia. Ninguém falava disso, mas o tema existia.

 

Os irmãos de quem o senhor fala estavam pessoalmente envolvidos?

Graças a Deus, não.

 

Como foi? Sabia-se, mas ninguém falava...

O pároco foi afastado de uma hora para outra e nunca mais exerceu aquela função. A gestão da paróquia foi confiada ao capelão. Mais tarde, em 1970, foi nomeado um novo pároco, que permaneceu 37 anos, até sua morte. Foi sua primeira e última paróquia. Este pároco exerceu uma grande influência na minha formação, mas nunca abordou a questão e também nunca o teria feito em público.

 

Quando o senhor se deparou com esse tema novamente?

Aprendi no seminário que a violência é um tema que não diz respeito apenas a um lugar ou a indivíduos, mas a toda a diocese. Naturalmente que ali eu estava mais perto de certas situações. Uma vez fui convidado para presidir a uma celebração na Quarta-feira de Cinzas, porque justamente naquele dia estava se realizado no tribunal um processo contra o pároco por violência. Era o início dos anos 1990 e isso me marcou profundamente.

 

Durante o tempo em que foi Reitor do Seminário e Vigário Geral, também cometeu erros na gestão da violência?

(Pausa) Não. Pelo menos que eu saiba. Na época em que eu era vigário geral, os padrões já estavam bem definidos. O bispo Stephan Ackermann levou a questão muito a sério, e o vigário judicial se ateve estritamente à lei. Foi muito importante para todos nós observarmos os padrões que tínhamos. Como reitor, considerando a formação dos padres, devo dizer que, conforme constatou o Studio-MHG [1] o número de padres realmente pedófilos é muito baixo. Não conheci nenhum no âmbito da formação sacerdotal. Mas é claro que a questão da imaturidade sexual ou mesmo humana era um tema frequentemente tratado na época do seminário, muitas vezes também nos diálogos com os seminaristas. Não raro, esta questão esteve também na base da decisão de não admitir um seminarista à ordenação sacerdotal. No entanto, na diocese de Trier também houve violência por parte de padres que foram nossos seminaristas, e sobre os quais, é claro, olhando para trás, me pergunto se não havíamos cometido erros. Mas não consigo vê-los, porque na época as violências nunca haviam se manifestado.


Violência, um ponto sem volta

No máximo em 2002, todos ficariam sabendo da dramaticidade da questão. Como sua posição mudou ao longo do tempo?

Já no início dos anos 1990 o tema veio à tona. Antes disso, como justamente nos é contestado nos casos abertos, vigorava a estratégia de afastamento dos culpados. Portanto, a atenção estava neles. Praticamente nunca se consideraram as vítimas, não cuidamos de suas feridas e não demos resposta às suas necessidades. Isso mudou e mudou a mim também. Ficou claro para mim que se trata de crimes e por isso existe um direito penal tanto civil como eclesial.

 

Hoje estamos vivenciando o julgamento do comportamento das gerações anteriores de bispos, mais recentemente em Colônia, Aachen e Münster. O senhor considera injusta a maneira como as gerações anteriores são tratadas?

Não se trata de juízos, mas de uma elaboração que represente a realidade. Isso é o que devemos esperar de nós mesmos e daqueles que nos precederam no ministério. Se a realidade é tal que temos que dizer objetivamente: aqui nos comportamos de maneira errada, aqui houve acobertamento, aqui foi levado em consideração apenas a perspectiva do culpado e da forma melhor administrar os abusos cometidos, pois bem, essa abordagem era deficitária. mesmo nas épocas anteriores. Agora é chamado pelo nome, sem que em nenhum caso já seja um juízo. Devemos isso, não menos importante, às vítimas que têm que conviver com o que sofreram, ainda que os responsáveis já estejam mortos há muito tempo.

 

Portanto, se ficar provado que alguém depois de 2002 não cumpriu as Diretrizes como parte de sua responsabilidade de governo, deveria ser demitido?

Em qualquer caso, deve assumir as consequências de seu comportamento. Já temos as Diretrizes há quase 20 anos. Se alguém está no cargo hoje e for demonstrado que não agiu de acordo com as Diretrizes, deve explicar-se a respeito e assumir as consequências.

 

Portanto, demissão?

Também pode ser demissão.

 

Muitas vezes, a responsabilidade é atribuída a outra pessoa ou ninguém é pessoalmente responsabilizado. Onde estão exatamente as responsabilidades: no bispo, no vigário geral, no responsável pelo pessoal?

No caso da diocese de Limburg, as responsabilidades foram empurradas aqui e ali. O bispo nada sabia sobre isso, porque o responsável pelo pessoal teria agido de forma autônoma. A atribuição não clara da responsabilidade é algo que precisamos mudar. Deve ficar claro quem é responsável pelo quê. Portanto, precisamos de uma elaboração independente, para que possamos aprender com ela a estabelecer estruturas claras de responsabilidade e processos correspondentes. Claro que, no final, o bispo é o responsável pelo que acontece na sua diocese.

 

Sou um bom conservador

Hoje o senhor é visto como um reformador. Existe um ponto de virada em sua vida, do qual não se pode mais voltar, mas, ao contrário, é preciso avançar com mais decisão?

Nesse sentido, nunca houve um ponto de virada. Pessoalmente, eu me descreveria como um bom conservador, porque amo esta Igreja e de bom grado dedico minha vida e energia a ela. Mas eu quero que mude.

 

Se agora o senhor fosse discutir com o Georg Bätzing do dia de sua ordenação, brigaria sobre a ordenação sacerdotal de mulheres?

Não. Georg Bätzing já discutia a respeito na época. Em 1984, como presidente do comitê estudantil da universidade, participei da organização de um seminário independente, como eram chamados na época, sobre o ministério na Igreja. Naquela época, tínhamos também um estreito vínculo de amizade com os alunos que aspiravam a outras vocações pastorais. Eram os anos de bloqueio do recrutamento dos representantes pastorais. Isso me motivava pessoalmente a me solidarizar profundamente com aqueles alunos, e ainda o faço. Ficávamos nos perguntando: uns são cortejados, desejados e procurados no ministério sacerdotal, outros são bloqueados. Eu percebia isso como uma injustiça.

 

E o ministério sacerdotal para as mulheres?

Então, como hoje, preocupo-me em considerar lealmente os argumentos da Igreja sobre porque o ministério sacramental caiba apenas aos homens. Mas também devo dizer honestamente que esses argumentos são cada vez menos convincentes, e que na teologia existem argumentos muito mais dissecados a favor da abertura do ministério sacramental também às mulheres. É por isso que muitas vezes menciono o diaconato das mulheres, porque o vejo como um espaço de ação. No que diz respeito ao ministério do presbítero, os papas, a partir de João Paulo II, afirmaram em uníssono que à questão já foi respondida; e, no entanto, continua sobre a mesa.

 

Existe uma certa frustração na Igreja: por um lado, pela contraposição, e, por outro, pelo que muitos percebem como uma paralisia em relação às mudanças. Como o senhor planeja lidar com a situação?

As contraposições estão aumentando na Igreja, mas também na sociedade; isso é muito perigoso. No entanto, não percebo um aumento da frustração no Caminho Sinodal. Existem muitos estímulos importantes. Estamos em uma janela temporal em que podemos realmente mudar algo, estou convencido disso. Temos que aproveitá-la.

 

Sobre o tema da falta de padres, concretamente: até por causa das condições de admissão, por exemplo a obrigação do celibato, a situação é dramática; em algumas dioceses já não há mais nenhum candidato. Considerando, por outro lado, que a estrutura sacramental da Igreja exige sacerdotes, a tensão cresce cada vez mais ...

Estou muito convencido de que também em nosso tempo há vocações ao sacerdócio. Mas essas vocações são exasperadas e tornadas incertas pela situação existente na Igreja. Os conservadores às vezes dizem que se há exasperação é porque os progressistas querem mudar tudo. Mas se perdemos o vínculo com a sociedade, se como Igreja nos “exculturamos” ainda mais, bloqueamos as vocações. Isso é um drama. A quanta substância renunciamos, que poderíamos ter como força de evangelização, por que nos apegamos às atuais condições de admissão? Esta questão está pendente há muito tempo.

 

Ecumenismo não se resolve em conversa de bar

Como vão as coisas em relação ao ecumenismo? Em 2003, o teólogo Gotthold Hasenhüttl, de Trier, depois de uma celebração eucarística ecumênica no primeiro Kirchentag ecumênico [Jornada ecumênica] em Berlim, sofreu uma ação disciplinar. Agora o senhor, com o Grupo de Trabalho Ecumênico, está empenhado em implementar a hospitalidade eucarística no próximo Kirchentag Ecumênico em Frankfurt. Uma contradição?

Absolutamente não. Na época foi uma situação completamente diferente. Hasenhüttl havia realizado uma celebração com ministros de diferentes confissões e, neste caso, o bispo de Trier não tinha oura coisa a fazer. Então eu, como membro do Conselho presbiteral, compartilhei o procedimento disciplinar, com todas as reações que ele despertou. Ir além de um caso individual é sempre prejudicial. Mas este não é o caso do documento do Grupo de Trabalho Ecumênico de Teólogos Evangélicos e Católicos da Alemanha (cf. Regno-doc. 11,2020,358s). É um sábio passo à frente, apresentado com bons argumentos. Não se fala de uma celebração comum da Ceia, não se fala de intercelebração, não se fala de intercomunhão geral. Trata-se simplesmente de se perguntar se as pessoas que vão à Ceia como católicas ou à Eucaristia como protestantes tenham boas razões para fazê-lo; aliás, a práxis já existe há muito tempo.

 

Apesar disso, agora existem também críticas a esse documento. Como podem ser neutralizados?

É bom que haja críticas. O Grupo de Trabalho Ecumênico não esperava que seu texto fosse aceito sem críticas. Além disso, amarrou seu trabalho a uma votação e a tornou pública: isso é completamente incomum. As críticas devem ser levadas em consideração e respondidas tanto quanto possível, e é isso que está acontecendo. Como conferência episcopal, responderemos aos pedidos da Congregação para a Doutrina da Fé e introduziremos a crítica em nossa avaliação do documento do Grupo de Trabalho Ecumênico. Da mesma forma, o Grupo de Trabalho Ecumênico também se confrontará com as contrargumentações e dará sua resposta. A Congregação para a Doutrina da Fé tem o direito de formular suas críticas. A minha crítica às suas críticas está a outro plano.

 

O qual seria?

Em primeiro lugar, suscitou irritação o fato de a carta do prefeito com as observações do magistério tenha chegado poucos dias antes da abertura da assembleia plenária da Conferência Episcopal alemã. A avaliação havia sido realizada pelo card. Marc Ouellet já no dia 20 de maio. No final de junho, estive em Roma para a visita inaugural de meu cargo e conversei com três cardeais envolvidos. Nenhum deles mencionou o fato que estava em curso uma avaliação do documento, ou que gostariam de discuti-lo comigo. Em segundo lugar, a reação crítica da Congregação tem pouco apreço pelo esforço ecumênico por trás das considerações do Grupo de Trabalho Ecumênico. Não se trata de uma conversa de bar sobre ecumenismo, mas o trabalho de um grupo de especialistas que também são pessoalmente apaixonadamente ecumênicos. Tem algo cínico dizer a eles simplesmente: não, isso não está certo, trabalhem mais nisso.

 

Esperar para sempre?

Pouco antes dessa discussão, houve um conflito com o Card. Beniamino Stella sobre a instrução da Congregação para o Clero sobre a conversão da pastoral. Qual é a estratégia da Conferência Episcopal para superar o antagonismo entre a Igreja na Alemanha e o Vaticano?

Em junho percebi que há reservas sobre nós, alemães, e a forma como lidamos com as coisas. E isso também diz respeito ao Caminho Sinodal. Tento entender isso e sinto que em Roma há uma forte pressão sobre como manter unida a Igreja universal na presença de características culturais tão diferentes. Do lado católico, ainda não temos respostas válidas. Mas a resposta não pode ser: esperamos até o fim; antes disso ninguém pode avançar, ninguém pode fazer perguntas e buscar respostas adequadas ao seu contexto cultural e, assim, evitar que a distância entre o Evangelho e a respectiva cultura se torne cada vez maior. Esse é o nosso problema. As respostas devem ser mais descentralizadas, devem permitir espaços de manobra. Podemos prosseguir muito mais com a inculturação, onde ela não afete o depositum fidei.

 

Problemas de compreensão existem até o vértice. Como o senhor percebeu as últimas afirmações do Papa, nas quais ele se expressou geralmente com muito ceticismo sobre os “caminhos sinodais”?

Não devemos insistir em cada declaração feita em cada audiência. Existem comunicações claras às quais nos atemos. O Santo Padre, no início do Caminho Sinodal, escreveu-nos uma carta (cf. Regno-doc. 15,2019,479), na qual nos encoraja a abordar os temas atuais. Na verdade, não fomos nós que os escolhemos, mas são o resultado de uma extensa pesquisa sobre as causas sistêmicas dos abusos. E essas são questões que estão na mesa há décadas e que não foram respondidas. O Papa disse-nos que se trata de evangelização, mas para isso devemos dissolver os bloqueios que obstaculizam a evangelização.

 

Mas na carta o Papa também disse muito mais ...

Certamente, e considero essas palavras um reforço. Ele disse: olhe além da ponta do nariz da Igreja alemã. O sensus Ecclesiae é algo muito importante e não conheço ninguém no Caminho Sinodal para quem isso não seja importante. Além disso, Francisco diz que devemos percorrer um caminho espiritual. Isso também é muito importante para mim e sinto que é isso que estamos fazendo. Por outro lado, não concordo com as demarcações quando, por exemplo, o caminho espiritual é diferenciado do democrático. Um não deve excluir o outro. Não houve concílio em que não tenha se lutado, brigado e votado. Se é isso que se chama democracia, quero mais na Igreja Católica. Espiritual também significa querer compreender, e não excluir, as opiniões do outro.

 

Por exemplo, o papa fala de viri probati, afirmando que esse caminho espiritual ainda não foi suficientemente percorrido. O que quer dizer?

Ele fala frequentemente desse motivo jesuíta do discernimento dos espíritos, do qual haveria tanta necessidade. No entanto, também tenho uma pergunta sobre isso. Qual instância decide se esse processo está maduro ou não? A certa altura você tem que decidir.

 

Esta instância é, no final, o papa?

Não em todas as decisões é o papa. O papa é responsável por tomar decisões sozinho unicamente em questões de fé claramente definidas. Os bispos e o colégio episcopal fazem parte do governo da Igreja universal - cum Petro et sub Petro.

 

Esta é também a hipoteca do Caminho Sinodal. Também neste processo são necessárias decisões para que não termine apenas como um processo de diálogo ...

O Caminho Sinodal tem no estatuto o conceito de assunção de decisões. Esse é o objetivo e existem três níveis. Em primeiro lugar, existem questões que podem ser alteradas na Alemanha por consenso. Em segundo lugar, há pontos que são possíveis de mudanças por meio no direito canônico, mas que ainda não dizem respeito ao nível da Igreja universal. Em terceiro lugar, estão em jogo grandes questões, como a abertura dos ministérios sacramentais às mulheres, às quais não podemos dar uma resposta localmente, mas apenas o podemos fazer ao nível da Igreja universal.

 

Há coisas a decidir na Alemanha...

O senhor espera uma decisão do Caminho Sinodal sobre a possibilidade de as mulheres fazerem a homilia na celebração eucarística?

A situação jurídica atual da Igreja prevê que a proclamação e a presidência da celebração eucarística permaneçam na mesma pessoa. Minha opinião pessoal é que a esse respeito deveria haver mais espaço de manobra do que temos atualmente. O meu desejo é que mais mulheres e mais leigos em geral participem da proclamação na celebração eucarística, porque o testemunho de todos os cristãos é enriquecedor, também para nós padres.

 

Abençoar casais homossexuais é uma decisão que poderia ser tomada independentemente de Roma?

Na minha diocese, iniciei um processo para sondar essa hipótese. Para mim, a questão é mais ampla: como geralmente nos comportamos com casais que não podem se casar na igreja, mas pedem a bênção de Deus? Esta é uma realidade eclesial; para isso, precisamos de soluções que não sejam válidas apenas no âmbito privado, mas tenham também uma visibilidade pública e, juntas, mostrem claramente que nesses casos não se está celebrando um matrimônio.

 

Isso é possível sem Roma?

Acredito que aqui devemos encontrar formas que são possíveis na liturgia sem uma aprovação romana. Em todo caso, posso dizer por mim mesmo que, após intensa discussão, acho que deveríamos mudar o Catecismo nesse sentido.

 

Portanto, não há necessidade de outro concílio?

No Caminho Sinodal também abordaremos questões tão fundamentais que, no nível da Igreja universal, são normalmente abordadas por meio de um concílio. Aguardo com expectativa a celebração do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade. Aí poderá se colocar, de uma vez por todas, a questão de quando se pode ter a perspectiva de um concílio.

 

Muitas vezes se afirmou que a crise do COVID-19 reforçaria a tendência à secularização. Como a Conferência Episcopal tentará contrastá-la? Como uma nova dinâmica pode ser desenvolvida?

Ninguém se opõe a uma macrotendência como a da secularização do mundo ocidental. Apesar de toda a boa vontade e de todos os esforços, não deteremos a tendência de rarefazer-se a conexão entre a Igreja e a nossa sociedade e ao claro avanço da secularidade. Só podemos testemunhar melhor qual é a nossa tarefa: anunciar o Evangelho com maior força com o nosso testemunho.


Cristãos menos institucionais

Existem percepções muito diferentes: o intelectual francês Michel Houellebecq confessa uma nova curiosidade pelo que é católico. O sociólogo alemão Heinz Bude pede à Igreja que insira melhor o seu anúncio de salvação na sociedade. Na Igreja, por outro lado, muitas reclamações são ouvidas. Falta clima propositivo?

Sim, você me perguntava sobre a crise e eu respondi sobre a crise. E seria fatal negá-la, apesar de todos os outros sinais. Agora existe esta grande transformação da Igreja de povo sustentada pelo meio para uma Igreja da decisão. E eu realmente desejo esta Igreja na qual estamos crescendo.

Mais uma vez: não pode e não deve haver nenhuma volta. Esta também é uma lição da crise dos abusos: uma instituição de Igreja de povo prestou demasiada atenção a si mesma e muito pouco às vítimas. Só recuperaremos a nossa credibilidade – até mesmo para poder recomeçar - se pensarmos em ser cristãos de uma forma menos institucional. Isso pressupõe como admissão fundamental que a secularidade não é nossa adversária. A sociedade secular é nosso campo de jogo para convidar as pessoas a uma ligação com Deus e com a religião; e não é um terreno hostil.

 

Imagine que nós viemos de outro planeta e agora o senhor quer nos apresentar à Igreja Católica na Alemanha. Onde nos levaria?

Primeiro, eu vos levaria para um asilo. Aí fica evidente o nosso limite, a finitude da nossa vida, e precisamente o fato de que a morte pertence à vida e como se pode morrer bem. Isso para mim é uma parte importante da Igreja. Depois, eu iria com vocês a uma Jornada Mundial da Juventude. Essa foi uma descoberta brilhante de João Paulo II. As pessoas não são mais automaticamente socializadas em sentido católico em uma família, esta tarefa é nossa. Oferecer eventos e experiências emocionantes que permitem aprender a conhecer o catolicismo.

 

O senhor gostaria de um evento assim na Alemanha?

Quinze anos se passaram desde a Jornada Mundial da Juventude na Alemanha. Gostaria de assumir o compromisso pessoal de sediar novamente a Jornada Mundial da Juventude. Além disso, ficaria muito feliz se o Papa Francisco nos fizesse uma visita em breve.

 

* Il Regno: A entrevista, que publicamos em nossa tradução do alemão, foi publicada em HerderKorrespondenz 75 (2021) 1, 16-20. Agradecemos ao editor pela permissão de publicação.

 

Nota:

[1] O estudo Violência sexual contra menores por padres católicos, diáconos e religiosos pertencentes a ordens religiosas na área da Conferência Episcopal Alemã (Studio MHG, em italiano) foi encomendado pelos bispos alemães em 2014 para institutos de pesquisa em Mannheim, Heidelberg e Gießen, e foi publicado em 2018 (ndr).

 

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