Na verdade, todo poema. Wislawa Szymborska na oração inter-religiosa desta

Foto: Pixabay

22 Janeiro 2021

Neste espaço se entrelaçam poesia e mística. Por meio de orações de mestres espirituais de diferentes religiões, mergulhamos no Mistério que é a absoluta transcendência e a absoluta proximidade. Este serviço é uma iniciativa feita em parceria com o Prof. Dr. Faustino Teixeira, teólogo, professor e pesquisador do PPG em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG.

 

Na verdade, todo poema

Na verdade, todo poema
poderia ser intitulado “instante”.

Basta uma frase
no tempo presente,
passado ou mesmo futuro.

Basta que qualquer coisa
levada nas palavras
farfalhe, fulgure,
voe, flutue,
ou talvez mantenha
uma suposta imutabilidade
mas com uma sombra movente;

basta que se fale
de alguém junto a alguém
ou de alguém junto a algo;

da Eva que viu a uva,
mas que não vê mais;

Ou de outras Evas,
de uvas e não uvas
em outras cartilhas
folheadas pelo vento;

Basta que ao alcance do olhar
o autor coloque montanhas provisórias
e vales efêmeros;

se nessa ocasião
ele mencionar um céu
que só pareça eterno e estável;

se surgir sob a mão que escreve
uma única coisa que seja
chamada de coisa de alguém;

se preto no branco,
ou ao menos por conjectura,
por motivo importante ou fútil,
sejam colocados pontos de interrogação,
E na resposta –
Se dois-pontos:

 

Fonte: Wislawa Zsymborska. Para o meu coração num domingo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020, p. 299 e 301.

 

Wislawa Szymborska (Foto: Juan de Vojníkov | Wikimedia Commons)

Wisława Szymborska (1923 - 2012): Conhecida como a "Mozart da poesia", foi uma escritora, crítica literária e tradutora polonesa. Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996, possui cerca de 250 poesias publicadas, com as quais, segunda ela, objetivava "buscar o sentido das coisas". Além disso, Wisława foi chamada de “poeta da consciência do ser”. No Brasil suas obras foram publicados individualmente em jornais e revistas ao longo dos anos. Uma coletânea, intitulada Poemas, com 44 textos, foi publicada em 2011 pela Companhia das Letras. Em 2016 a editora lançou a obra Um amor feliz, e, no ano passado, a editora lançou a terceira coletânea de poemas, Para o meu coração num domingo.

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