Depois de Trump, grupos católicos de reassentamento de refugiados procuram reconstruir o que foi destruído

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14 Janeiro 2021

Menos de uma semana após a vitória de Joe Biden nas eleições, Rachel Pollock começou a receber e-mails e telefonemas de autoridades católicas ligadas ao reassentamento de refugiados em todo o país, perguntando quanto demoraria até que eles pudessem voltar ao trabalho.

A reportagem é de Christopher White, publicada por National Catholic Reporter, 12-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Durante os últimos quatro anos, Pollock, diretora dos serviços de reassentamento da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, viu os programas serem encerrados um por um, devido ao contínuo corte na admissão de refugiados pelo governo Trump.

“Em 2016, tínhamos 71 escritórios nos EUA e atualmente operamos com 40”, disse ela à NCR. Agora, Pollock e seus colaboradores esperam que a promessa de Biden de aumentar a meta de admissão anual para 125.000 refugiados em comparação com o limite de 15.000 indivíduos por parte de Trump, abrirá as portas para novas chegadas que ajudarão a restaurar seus esforços nos programas.

“Para nós e para outras agências de reassentamento nos EUA, os últimos anos significaram uma perda de grande parte da capacidade de fazer esse trabalho”, disse Pollock, que estabelece parcerias com agências locais de caridade católica em todo o país que reassentam refugiados nas comunidades locais.

Junto com a perda de 30 parceiros de programa que tiveram que interromper totalmente seus trabalhos, ela diz que os escritórios que ainda estão fazendo o trabalho de reassentamento estão atendendo a um número muito menor do que há quatro anos.

“Eles estão comprometidos com esse trabalho, mas tem sido um tempo muito desafiador”, disse ela. Mesmo assim, pela primeira vez em vários anos, Pollock está se sentindo otimista sobre as intenções declaradas pelo governo Biden de aumentar o teto de admissão de refugiados e o que isso pode significar para os grupos católicos em todo o país.

“Sabemos que a meta de 125.000 que o governo Biden estabeleceu é elevada e exigirá tempo e investimento”, disse Pollock. “A infraestrutura para reassentamento foi realmente dizimada ao longo dos últimos anos, mas estamos realmente ansiosos para fazer isso, porque tem sido muito crucial para a nossa missão, e temos a esperança de que o governo Biden será um bom parceiro federal para esse nosso objetivo.”

Durante 40 anos, a Catholic Charities de Dallas trabalhou em conjunto com os bispos dos EUA e o Departamento de Estado para ajudar a reassentar refugiados. Em 2016, a organização comemorou um recorde de quase 1.000 novos ingressos. No entanto, em dezembro de 2018, eles deram as boas-vindas à sua última família adulta, e, nos últimos dois anos, o programa foi encerrado.

David Woodyard, CEO da Catholic Charities de Dallas, disse ao NCR que o reassentamento de refugiados foi uma “parte significativa” dos seus programas nos últimos 40 anos.

“Temos orgulho dessa história e somos conhecidos por isso na nossa comunidade”, disse ele, lembrando que, em 2018, eles empregavam cerca de 45 pessoas que trabalhavam no reassentamento de refugiados. No entanto, quando as novas chegadas pararam, ele teve que demitir ou realocar 80% dessa equipe.

“Continuamos atendendo às necessidades daqueles que reassentamos, assim como aos refugiados que vieram por meio de outras agências ou foram realocadas para a região de Dallas”, disse Woodyard, observando que há um treinamento vocacional e o ensino de idiomas contínuos para indivíduos e famílias que eles apoiaram.

“Agora, vemos que os ventos estão mudando”, disse Woodyward, descrevendo o desejo de receber novos recém-chegados. “É uma missão que nos é cara e querida, e estamos confiantes de que temos a capacidade de voltar a crescer e a fazer isso rapidamente.”

Para que isso aconteça, Ashley Feasley, diretora de política do escritório dos Serviços de Migração e Refugiados dos bispos dos EUA, disse ao NCR que há três coisas que ela gostaria que acontecessem: no primeiro dia de mandato, ou logo depois, Biden precisa reenviar a determinação presidencial para o Congresso, que é o requisito legal necessário para aumentar o teto de refugiados para o ano fiscal.

Em segundo lugar, ela gostaria que o novo governo restabelecesse os laços com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, para servir de parceiro de referência, laços que o governo Trump encerrou.

Em terceiro lugar, ela gostaria que o governo Biden colocasse a sede do reassentamento de refugiados em áreas de necessidade regional, o que requer colaboração entre o Departamento de Estado e os governos de cada região em particular. Essa tinha sido a prática anterior até que o governo Trump começou a sediar a sua aceitação de recém-chegados em áreas de importância geopolítica para os EUA.

“De todos os programas de migração, o reassentamento de refugiados é aquele sobre o qual o presidente tem mais poder executivo”, disse Feasley. Embora, segundo ela, os programas como os dos bispos dos EUA e de outros parceiros envolvidos no reassentamento voluntário estejam em um “padrão de espera”, assim que as coisas estejam em andamento, eles estarão “prontos para agir”.

Pollock concordou, dizendo que o processo de restabelecimento dos programas de reassentamento “deve ser feito em colaboração com os nossos parceiros federais, e não podemos sair na frente deles”.

“Mas as pessoas estão muito ansiosas para fazer o trabalho, e estamos ansiosos para fazer parcerias com eles quando chegar a hora”, acrescentou ela.

Para lideranças como Woodyard e outros escritórios da Catholic Charities em todo o país, Pollack diz que há um “desejo reprimido de se envolver nesse trabalho”.

“Foi muito difícil para eles ter que fechar as portas”, disse. “Quando você está fazendo esse trabalho, você ouve sobre os perigos específicos dos quais os refugiados estão fugindo, você ouve sobre os membros das famílias com os quais eles gostariam de se reencontrar e você ouve e vê a determinação deles de restabelecer suas vidas nos EUA, e é realmente doloroso ter que parar tudo isso.”

Embora alguns críticos do reassentamento tenham afirmado que a Igreja Católica está interessada apenas no reassentamento de refugiados para ganhos financeiros, Feasley descarta rapidamente essa inverdade, observando que o reassentamento não é uma empresa geradora de lucros.

“Trata-se de uma parceria público-privada que foi estudada por outros países como um exemplo”, disse ela, acrescentando que a maioria dos refugiados que chegam são de outras tradições religiosas. “Nós não os reassentamos porque eles são católicos. Nós fazemos esse trabalho porque nós somos católicos, e é isso que fazemos na nossa fé.”

Woodyard também lamentou o fato de os refugiados muitas vezes terem sido incluídos no debate sobre a imigração doméstica nos últimos anos, especialmente quando se trata da crise na fronteira sul dos EUA, sem que a maioria das pessoas entenda as diferenças.

“Esses programas foram difamados e mal compreendidos”, disse ele. “Nenhum dos refugiados que chegam é ilegal”, observando que os recém-chegados passam por uma extensa investigação pelo Departamento de Estado.

De acordo com os dados das Nações Unidas, existem quase 80 milhões de pessoas deslocadas no mundo, quase 26 milhões das quais são refugiados. Feasley disse que, quando se olha a partir dessa perspectiva, o programa em geral é bastante pequeno. Mesmo assim, disse ela, esse reassentamento global caiu 50% nos últimos quatro anos.

“Quando os EUA não reassentam, outros países também não o fazem”, observou ela.

Feasley e Pollock disseram que estão orgulhosos pelo fato de a Igreja Católica ser um exemplo importante no trabalho de reassentamento e acreditam que isso mostra o que a Igreja e o país têm de melhor.

Para Pollock, o reassentamento de refugiados é um exemplo do que o Papa Francisco quer dizer quando fala sobre a construção de uma “cultura do encontro”.

“Quando você faz esse trabalho, você vive uma estreita proximidade com esse encontro”, disse Pollock. “As pessoas estão prontas para fazer isso de novo.”

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