A Igreja e a atração pelas ditaduras: a análise do biblista Alberto Maggi

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13 Janeiro 2021

"A ascensão ao poder de muitos ditadores, ou aspirantes a ditadores, não poderia ter ocorrido sem o apoio e a aprovação, muitas vezes entusiástica, de importantes expoentes da Igreja", escreve Alberto Maggi, sacerdote e teólogo, biblista, frei da Ordem dos Servos de Maria, em artigo publicado por Il Libraio, 12-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Alberto Maggi, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou na Pontifícia Faculdade de Teologia Marianum e Gregoriana de Roma e na École Biblique et Archéologique française de Jerusalém.

Biblista, é uma das vozes da Igreja mais ouvidas tanto por fiéis como por não crentes.

Fundador do Centro de Estudos Bíblicos “G. Vannucci” em Montefano (MC), atua na divulgação das sagradas escrituras, interpretando-as sempre a serviço da justiça, nunca do poder. Com a editora Garzanti publicou Chi non muore si rivede, Nostra signora degli eretici, L’ultima beatitudine – La morte come pienezza di vita, Di questi tempi e Due in condotta.

Seu novo livro é La verità ci rende liberi (A verdade nos torna livres, em tradução livre, Garzanti, com lançamento previsto para setembro), uma conversa com o vaticanista do Repubblica, Paolo Rodari.

Eis o artigo.

Igreja apóstata

A ascensão ao poder de muitos ditadores, ou aspirantes a ditadores, não poderia ter ocorrido sem o apoio e a aprovação, muitas vezes entusiástica, de importantes expoentes da Igreja. Se sempre houve, e sempre haverá, padres corajosos que pagarão com a marginalização, a perseguição e até com vida a denúncia da prostituição da Igreja aos poderosos de plantão, é inegável que grande parte da hierarquia eclesiástica ficou sem qualquer constrangimento de braços dados com ditadores e sempre abençoou e olhou com aprovação aqueles políticos que garantem a salvaguarda da tríade Deus-Pátria-Família. E não importa, se para fazer isso, eles manipularão e pisotearão a mensagem de Jesus e limitarão ou sufocarão toda liberdade.

Para esses eclesiásticos, partidários dos prepotentes, o evangelho é apenas um livro a ser aspergido com incenso nas liturgias, assim como para os poderosos é uma mera distração a ser sacudida nos comícios, como um titereiro com seus fantoches, sem que a mensagem de Jesus tenha minimamente influído em suas vidas, ou que enxerguem uma contradição entre os valores que eles enfaticamente defendem e sua conduta.

É triste e constrangedor ter de admitir que, na trágica história do catolicismo, a Igreja foi conivente, ou até mesmo cúmplice de toda ditadura e, só para nos ater à história mais recente, basta recordar aquela de Mussolini, "o homem da Providência" , aquela do catolicíssimo Franco, "Caudillo de España por la gracia de Dios", e do devoto, porém feroz, Salazar, ex-seminarista português, fervoroso defensor de Nossa Senhora de Fátima, até os atuais esquálidos replicantes, cínicos defensores a todo custo da tradição e dos sadios valores do passado.

Qual é a razão da irresistível atração da Igreja por todas as formas de ditadura? Por que a Igreja, que deveria ser a expressão de uma comunidade profética animada pelo Espírito e a sentinela da sociedade, primeira a lançar alarmes sobre o nascimento de novos ditadores, em vez disso prefere mimá-los, apoiá-los e protegê-los?

A hierarquia religiosa, consciente da fragilidade e incoerência da doutrina que quer impor aos fiéis, faz com que, para compensar a sua fragilidade, sinta a necessidade de se aliar aos detentores do poder, recorrendo muitas vezes ao homem forte, ao homem de soluções rápidas e linguagem tosca. Para obrigar os fiéis a obedecerem à vontade divina, muitas pessoas da hierarquia estão dispostas a apoiar aberta ou veladamente aquelas forças políticas que se apresentam como salvadoras da Pátria, da Família e da Religião, numa espécie de tácito pacto diabólico, onde o poder religioso sustenta e, ao mesmo tempo, precisa ser sustentado pelo poder político.

Mas esse comportamento perverso, tão antigo como trágico, tem um nome que, paradoxalmente, nasceu justamente na Igreja: apostasia, o repúdio da própria fé, a traição do próprio credo que se transforma em engano enquanto esses eclesiásticos, apesar de apóstatas, conservam intacto todo o seu aparato exterior, tornando-se simulacros vazios, manequins de vestimentas reluzentes que escondem o nada, senão algo pior, "sepulcros caiados" de evangélica memória, dos quais Jesus nos convidava a manter distância, pois "por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão” (Mt 23,27).

Como é possível que justamente os representantes da religião, aqueles que afirmam ser investidos por um mandato divino, sejam os primeiros a trair seu Senhor para se venderem ao senhorio de plantão? Nos Evangelhos há páginas tão dramáticas quanto atuais sobre a apostasia, que nasce do confronto entre dois poderes, aquele político, representado por Pilatos, e aquele religioso, representada pelos sumos sacerdotes (Jo 19; Mt 27). Eles devem decidir o destino daquele que ambos sabem ser um inocente, Jesus. Pilatos já está decidido a libertá-lo, não vê nele nenhum perigo para o Império e entende que a acusação que os líderes religiosos fazem a Jesus, de ser um malfeitor que pretende se tornar rei, é apenas um pretexto. Até os sumos sacerdotes sabem que não era verdade o motivo da periculosidade de uma realeza de Jesus. O perigo para a instituição religiosa, por eles sustentada e representada, é que com Jesus Deus comunica e se manifesta diretamente no homem, sem nenhuma necessidade das mediações criadas pela instituição religiosa, do templo ao culto, do sacerdócio à Lei ...

Diante do procurador romano, os líderes religiosos, para ter sucesso em sua intenção de eliminar Jesus, jogam sua última cartada, a da chantagem. Eles sabem que Pilatos é um homem frustrado. Sonhava alguma grande carreira em Roma e, em vez disso, acabou na longínqua e perdida Judeia com o único título de "Cavaleiro": "Se soltas este, não és amigo de César! Qualquer que se faz rei é contra César” (Jo 19,12).

"Amigo do César" [Amicus Cesaris] não era um simples certificado de amizade com o imperador, mas um cobiçado título honorífico concedido por Tibério ao restrito círculo de seus íntimos e era o que lhe permitiu angariar seus favores. Pilatos, chamado a escolher entre a vida de um inocente e a própria carreira, faz uma última tentativa, perguntando aos líderes religiosos se deveria crucificar seu rei (Jo 19,15).

Os sumos sacerdotes, chamados a escolher entre Jesus e o fim do sistema religioso ameaçado pela sua pregação, fazem sua escolha sem hesitar, afirmando que não têm “outro rei senão César” (Jo 19,15). Os líderes religiosos preferem o rei romano ao rei dos judeus, o governante ao libertador. Para os detentores do poder religioso, é melhor um domínio opressor que, no entanto, lhes permite justificar sua opressão sobre o povo, do que o Deus libertador. Aqueles que pretendiam ser os únicos representantes de Deus são, na verdade, aqueles que o traem. E Pilatos cede e o entrega a eles "para ser crucificado" (Jo 19,16).

No Evangelho de Mateus, os líderes religiosos dirigem-se a Pilatos chamando-o de Senhor (Gr. Kyrie): não reconhecendo em Jesus, "Deus conosco" (Mt 1,23), o Senhor, são forçados a dirigir com esse nome ao governante romano. A apostasia está consumada: Jesus é um impostor e Pilatos seu Senhor.

A denúncia dos evangelistas é muito severa: esses líderes religiosos não são servos de Deus, mas do poder, ao qual se submetem, reconhecendo seu poderio, para manter intactos seus privilégios e interesses.

Uma linha muito clara emerge dos Evangelhos: a Igreja, aquela que nasce da boa nova de Jesus, nunca deve alinhar-se com os poderosos e muito menos ser sua cúmplice, nunca deve calar-se para sua própria conveniência, mas denunciar seus crimes. Só assim terá a garantia de ser fiel ao Deus que derruba governantes de seus tronos (Lc 1,52).

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