O motim católico e aqueles que o apoiam. Artigo de Phyllis Zagano

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13 Janeiro 2021

Ninguém deveria ficar estupefato ao ver como indivíduos e corporações distorcem o catolicismo para encaixá-lo nas suas fantasias políticas. Esses insurrecionistas muitas vezes são apoiados pelos seus bispos. E ninguém quer detê-los.

O comentário é da teóloga estadunidense Phyllis Zagano, pesquisadora associada da Universidade Hofstra, em Hempstead, Nova York. É autora, em português, de “Mulheres diáconas: passado, presente, futuro” (Paulinas, 2019). O artigo é publicado por National Catholic Reporter, 11-01-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Não sou nem uma cientista política nem uma política, mas acredito que quanto mais cedo o presidente Donald Trump sair da Casa Branca, melhor. Mas, esteja ele dentro ou fora do cargo, legiões de católicos continuarão a apoiá-lo com os olhos arregalados e a defender suas políticas e suas ações. Eles acham que estão salvando o mundo de Satanás.

De fato, havia um cartaz sobre o prédio do Capitólio outro dia que dizia: “Pelosi é Satanás”. Nancy Pelosi é a presidente da Câmara dos Representantes, católica e democrata.

De onde vem essa raiva? Sem dúvida, há católicos em ambos os lados do “corredor” cada vez mais amplo que separa metaforicamente as crenças políticas. Mas existem os blogs, sites e até redes de comunicação autointitulados católicos que ainda estão espalhando falsidades sobre os resultados da recente eleição presidencial. Eles fizeram o possível para fomentar a rebelião no Capitólio no dia 6 de janeiro.

Os nomes das publicações e sites insurrecionistas católicos são bem conhecidos: Church Militant, CatholicVote.org, LifeSiteNews e o conglomerado de mídia Eternal Word Television Network (EWTN).

Blogueiros individuais, incluindo clérigos, ajudaram a fomentar a turba do Capitólio, defendendo o ardil da “fraude eleitoral”. Escrevendo na publicação britânica The Tablet, Christopher Lamb expôs um dos exemplos mais prejudiciais da intervenção clerical católica na discussão política dos EUA.

De acordo com Lamb, desde novembro, um padre estadunidense chamado John T. Zuhlsdorf tem abusado do rito de exorcismo em um esforço óbvio para incitar seus seguidores, muitos dos quais podem ter estado em Washington no dia 6 de janeiro.

Zuhlsdorf, conhecido como “Pe. Z”, afirmou que Dom Donald Hying, bispo de Madison, Wisconsin, autorizou os exorcismos para fins políticos por ele celebrados, o que o bispo tem negado desde então. Zuhlsdorf publica sua missa tridentina solitária diária na sua residência em Madison, agora protestando contra as Big Tech, aquilo que ele chama de “Diabo de Wuhan” e do Partido Democrata.

Mas seu apelo à sedição ainda ressoa na internet: “Eu acho que está bem claro, há evidências suficientes para demonstrar que houve fraude em alguns lugares, e as pessoas tiveram que cometer essa fraude, não aconteceu por conta própria. Parece ter sido bem organizado”.

Zuhlsdorf, 61 anos, tem um histórico interessante. Luterano convertido, ele abandonou duas vezes um seminário estadunidense e finalmente foi ordenado em Roma em 1991 na diocese italiana de Velletri-Segni. Ele nunca teve uma designação pastoral permanente lá ou em qualquer outro lugar, e viveu por alguns anos em uma fazenda na Diocese de Lacrosse, até que o falecido bispo Robert Morlino o levou para Madison como presidente de uma nova Tridentine Mass Society [Sociedade da Missa Tridentina].

Desde então, o “Father Z's Blog” [Blog do Padre Z], como é chamado, tem se tornado cada vez mais hostil à Igreja não tridentina e, em particular, ao Papa Francisco. Quatro anos atrás, Zuhlsdorf aconselhou seus leitores que não era pecado rezar pela morte do papa.

Verdade seja dita: eu mesma estive na mira de Zuhlsdorf mais de uma vez, junto com o frei franciscano Daniel Horan, que leciona na União Teológica Católica de Chicago; Massimo Faggioli, professor da Villanova University; o padre jesuíta James Martin; o colunista do NCR Michael Sean Winters; e o economista Anthony Annett.

Em seu blog, Zuhlsdorf difamou cada um de nós de uma forma ou de outra. O uso do termo “mira” é preciso. Zuhlsdorf se orgulha da sua permissão de porte de armas e assume uma aura semimilitar. Vários anos atrás, ele aconselhou seus seguidores a interromper um seminário online que eu ministrava sobre as mulheres diáconas, sugerindo que seus leitores “ajudassem”.

Zuhlsdorf é o problema que vem à tona, mas o fato de ele fazer aquilo que ele faz com a autoridade da Igreja é ainda mais preocupante. O porta-voz da Diocese de Madison se recusa a afirmar se o bispo o restringiu de alguma forma. Portanto, Zuhlsdorf, assim como muitos outros, pode continuar seus protestos políticos com o apoio de seus amigos tridentinos em Wisconsin, na internet e em outros lugares. Ele celebra missa na Igreja de Santa Maria, em Pine Bluff, Wisconsin, e frequentemente tem estado na Igreja da Sagrada Família, na cidade de Nova York.

Depois, há o Church Militant, na Arquidiocese de Detroit; e o CatholicVote.org, na Diocese de Madison; o LifeSiteNews, na Arquidiocese de Toronto; e a EWTN, na Diocese de Birmingham, Alabama. Cada um deles contribuiu com o mito da “fraude eleitoral”. Há outros, muitos dos quais vomitam sua raiva com a permissão de seus bispos.

O Papa Francisco disse que ficou “estupefato” com os distúrbios no Capitólio, certamente consternado com as invocações das pessoas ao cristianismo. Eu não fiquei. Não fiquei estupefato ao ver tantos indivíduos que professam o cristianismo invadir os degraus do prédio do Capitólio, atacar oficiais e colocar em risco a vida de membros do Congresso e do vice-presidente dos EUA.

Ninguém mais deveria ficar estupefato ao ver como indivíduos e corporações distorcem o catolicismo para encaixá-lo nas suas fantasias políticas. Esses insurrecionistas muitas vezes são apoiados pelos seus bispos. E ninguém quer detê-los.

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