O Papa Francisco enfrenta 2021 de uma posição fortalecida. Vou explicar o porquê. Artigo de Marco Politi

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05 Janeiro 2021

"O Papa Francisco enfrenta o 2021 de uma posição fortalecida, pronto para iniciar em março uma missão internacional de primeiro plano: uma viagem ao Iraque e uma visita à antiga cidade de Ur, berço lendário de Abraão", escreve Marco Politi, jornalista, ensaísta italiano e vaticanista, em artigo publicado por Il Fatto Quotidiano, 04-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

O Papa Francisco enfrenta o 2021 de uma posição fortalecida, pronto para iniciar em março uma missão internacional de primeiro plano: uma viagem ao Iraque e uma visita à antiga cidade de Ur, berço lendário de Abraão.

Há um ano, cercado por uma diversificada oposição pelos resultados do Sínodo sobre a Amazônia, ele foi obrigado a renunciar a lançar a experiência de um clero casado nas regiões onde um sacerdote chega para celebrar missa apenas uma vez a cada ano, ano e meio. Uma vasta frente, que incluía os cardeais Burke, Mueller, Ruini, Sarah e o próprio papa demissionário Bento XVI, que o colocou com as costas contra a parede, impedindo-lhe a virada.

Podia até mesmo surgir o temor de que a dinâmica propulsora do pontificado bergogliano tivesse encalhado. Mas, em vez disso, a sucessão de eventos ao longo de 2020 o tornou mais forte. Ele diria que são mais fortes os processos postos em movimento. E ele estaria certo. Porque no decorrer do final do ano passado, linhas de clara descontinuidade foram traçadas em relação às quais nenhum sucessor poderá voltar atrás.

São três os campos nos quais Francisco realizou uma virada definitiva.

1) A renovada declaração de que os homossexuais são "filhos de Deus" e têm o direito de viver "em família" varre para sempre o magistério homofóbico do passado e envia para o sótão a sutil distinção ratzingeriana segundo a qual os homossexuais como pessoas devem ser respeitados, mas se eles vivem sua sexualidade, estão presos em uma "grave desordem".

Francisco marca o princípio que a pessoa é um bom cristão em relação ao próprio comportamento para com a palavra de Deus e para com o próximo e que isso é válido independentemente de como se vive a própria sexualidade. Sim, o Antigo Testamento (e até mesmo São Paulo) usa palavras inflamadas contra os homossexuais, mas o Antigo Testamento também admite a escravidão, a poligamia, o concubinato e a vingança. Reflexos culturais ligados a períodos históricos específicos.

Francisco não se preocupa em escrever ensaios de revisão teológica, apenas precisa enfatizar o princípio de que cada ser humano se qualifica não pela forma como vive o amor, mas pela maneira como se coloca diante do bem e do mal. A partir de agora, se as correntes homofóbicas continuarem a existir na Igreja e na sociedade, não poderão mais se reportar ao magistério papal. O pontífice já indicou outro horizonte.

2) Também o escândalo dos cerca de 300 milhões de euros jogados no investimento do prédio londrino na Sloane Avenue, com seu entorno de manobras opacas de "mediadores" e o relacionado caso Becciu, com suas implicações de interesses familiares e o improvável financiamento de uma autodenominado especialista em inteligência, levou Francisco a uma virada no que diz respeito à maneira como o Vaticano por décadas tratou as coisas podres que apareciam em sua própria casa ao lidar com dinheiro.

O Papa Bergoglio

- 1. deu total liberdade de investigação aos investigadores do Vaticano Gian Piero Milano e Alessandro Diddi, incluindo a apreensão de computadores nos escritórios da Secretaria de Estado;

- 2. demonstrou que se um cardeal prefeito de um dicastério da Cúria (em terminologia leiga, um ministro de estado) perde a confiança do pontífice por falta de transparência e má administração, ele é imediatamente destituído de seu cargo e também é afastado do colégio cardinalício;

- 3. ao transferir os fundos reservados da Secretaria de Estado para a APSA (Administração do Patrimônio da Sé Apostólica) e apoiando as competências de supervisão dos balanços das várias administrações do Vaticano pela Secretaria da Economia, reforçou a política de transparência na utilização de dinheiro no Vaticano.

Para entender a diferença abismal em relação aos escândalos financeiros do passado, basta lembrar o total fechamento do Vaticano, na época de João Paulo II, em relação à quebra do Banco Ambrosiano (culminando com o estranho enforcamento de Roberto Calvi na Ponte dos Frades Negros em Londres) e às comprometedoras cartas de patrocínio assinadas por Monsenhor Marcinkus. Na época, o Vaticano se fechou e se limitou a pagar aos credores internacionais US $ 250 milhões a título de "contribuição voluntária". A hipocrisia oficial só foi quebrada em 2017 pelo cardeal Pell, então prefeito da Secretaria da Economia, que revelou que a quantia paga por baixo da mesa pelo Vaticano havia chegado a 406 milhões de dólares.

3) O terceiro elemento de virada. A publicação da pesada documentação relativa à carreira do cardeal McCarrick trouxe à luz o sistema de proteção que permitiu galgar a hierarquia estadunidense a um afável sedutor de seminaristas, mais tarde desmascarado também como pedófilo. No caso específico, os dois pontificados de Wojtyla e Ratzinger, que os opositores de Francisco sempre acenam instrumentalmente como autênticos baluartes da "verdadeira doutrina", foram impiedosamente expostos em seus trágicos silêncios de encobrimento.

A comitiva de João Paulo II, agora está provado, recusou-se tenazmente a receber as denúncias sobre os comportamentos de McCarrick, favorecendo-o, em um clima de substancial silêncio de cumplicidade. Ratzinger, por sua vez, apesar de ter podido iniciar uma investigação, preferiu confiar no esquecimento. Assim, a luva de desafio lançada pelo ex-núncio em Washington Viganò contra Francisco, acusado de protecionismo contra McCarrick, se transformou na derrota do ex-embaixador do Vaticano. E na derrota foi arrastada a credibilidade de grande parte do partido anti-Bergogliano.

Além disso, alguns de seus principais expoentes - o cardeal Mueller e, mais uma vez, Mons. Viganò - comprometeram-se com o ridículo apelo pela liberdade da Igreja ameaçado por uma conspiração mundial sob o pretexto das medidas anti-Covid.

O ano passado, por outro lado, relançou o protagonismo do Papa Francisco com o estouro da pandemia. O impressionante rito de 27 de março na Praça de São Pedro colocou em destaque na opinião pública mundial - entre crentes e não crentes - a figura do Papa como uma personalidade capaz de refletir as angústias e a necessidade de solidariedade e esperança das massas atingidas pela pandemia.

Mas, acima de tudo, seu apelo por uma reconstrução que restabeleça um mecanismo de mercado verdadeiramente "social", superando a existente economia financeira de rapina e lutando contra as desigualdades, o 'repropôs' como líder religioso-político que interpreta as escolhas que aguardam a humanidade.

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