4º domingo do advento – Ano B - O protagonismo de Maria na nova Aliança

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Por: MpvM | 18 Dezembro 2020

“O relato da Anunciação (Lc 1,26-38) nos dá pistas que podem ajudar a pensar e questionar a situação da mulher hoje na Igreja e a descobrir caminhos de luta que favoreçam a conquista do espaço que nos pertence como cristãs – e onde possamos atuar com todas nossas potencialidades.”

A reflexão é de Maria de Lourdes da Fonseca Freire Norberto. Ela possui graduação em Teologia (2014), graduação em Letras (1976), graduação em Comunicação Social (1980) e mestrado em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, onde atualmente é doutoranda em Teologia. É membro fundador do coletivo Teo-mulher.

Leituras do Dia
1ª Leitura - 2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16
Salmo - Sl 88,2-3.4-5.27.29 (R.2a)
2ª Leitura - Rm 16,25-27
Evangelho - Lc 1,26-38

Neste 4º domingo do Advento, Lucas narra o anúncio do anjo a Maria – de que ela seria a mãe do filho de Deus – e, também, sua resposta forte e decidida, que imediatamente a torna protagonista na nova aliança que Deus propõe à humanidade.

O Advento é um tempo litúrgico marcado pela centralidade da figura da mulher. É nas mãos de uma jovem humilde de Nazaré, uma pequena aldeia perdida numa região remota e esquecida da Palestina, que Deus coloca o futuro de seu projeto e sua própria entrada na nossa história.

A liturgia do domingo de hoje nos apresenta uma Maria com muitos sentidos, que servem de inspiração para todas nós: a mulher grávida à espera de seu rebento com incertezas e esperanças, a jovem que, frente ao imponderável, arrisca tudo por uma causa maior, a mulher que, na fé, ouve a Palavra e sente a necessidade de silenciar e meditar sobre os acontecimentos nos quais se vê inserida, a discípula solidária que compreende as necessidades dos outros e se dispõe a servir acolhendo todos que precisam sem medir esforços e a mulher corajosa que, mesmo diante do novo e do risco, encara o futuro com fé, esperança e alegria, como recomenda o anjo quando a ela se dirige.

O relato da Anunciação (Lc 1,26-38) nos dá pistas que podem ajudar a pensar e questionar a situação da mulher hoje na Igreja e a descobrir caminhos de luta que favoreçam a conquista do espaço que nos pertence como cristãs – e onde possamos atuar com todas nossas potencialidades. São essas pistas: o medo do enfrentamento de uma jovem assustada, manifestado nas palavras do anjo; os questionamentos inseridos na pergunta de Maria e, finalmente, a entrega e o compromisso, manifestados no seu “faça-se”, uma das poucas palavras por ela pronunciada nos quatro evangelhos, mas, como as demais, definitiva e cheia de significado.

Maria tinha medo. Era uma mulher jovem, humilde e inexperiente, numa sociedade patriarcal onde os homens tinham a palavra e o poder e a mulher não tinha nenhuma voz, nem vez. Dela era esperado somente a obediência ao seu marido e senhor, a geração dos herdeiros e a organização da vida doméstica. Ela não compreendia nem estava preparada para enfrentar a grandiosidade do acontecimento no qual se via envolvida e assim aceitar o que dela era esperado. Como poderia ser possível romper com a estrutura religiosa e social e mesmo política de época, já que era da Galileia, lugar de comunidades pobres, marginalizadas e esquecidas e não pertencia à elite da Judeia de onde era esperado que fosse escolhida a mãe do Messias? Como aceitar em liberdade o que lhe era anunciado pelo anjo em nome de Deus diante das consequências que daí resultariam? Como enfrentar os poderosos de seu tempo e levar sua missão a êxito?

Junto com o medo, Maria teve também dúvidas diante da dificuldade de realização de tal projeto. Ela já estava prometida a um homem, sabia das consequências de uma gravidez nas circunstâncias. No entanto, em vez de se calar e fugir, ela enfrentou seus medos e dúvidas, respondendo prontamente a Deus, em liberdade e com vontade. Ela não só aceitou, como se apresentou como servidora do Senhor. Mesmo partindo de medos, dúvidas e incertezas levou sua decisão às últimas consequências e se pôs inteiramente à disposição da vontade de Deus. Ela se arriscou e se jogou por completo na missão que lhe era confiada, movida por uma confiança inabalável e sem perder a alegria.

A primeira leitura (2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16), em consonância com o evangelho de hoje, indiretamente enfatiza o papel de Maria como protagonista do plano divino de salvação, ao preconizar a realização deste na encarnação do Salvador que se dá no seio de uma mulher. Tanto para Natã como para Maria, a garantia de que a missão oferecida é vontade de Deus está explicitada nas palavras “o Senhor está contigo”, dirigida aos dois.

O Salmo (Sl 88,2-3.4-5.27.29 ) retoma o tema da Aliança, feita primeiramente com Abraão e reafirmada e concretizada em Jesus Cristo. Já na conclusão da carta aos Romanos (Rm 16,25-27), a segunda leitura deste domingo, há uma exaltação ao plano de Deus, oculto por séculos e revelado na encarnação do Filho de Deus. Ambos os textos, ainda que sem mencioná-la diretamente deixam perceber a importância e definitividade da anuência de Maria à proposta divina.

Como na época de Maria, nós ainda vivemos em um mundo que privilegia homens fortes, de sucesso, de preferência jovens e saudáveis. As demais pessoas, em sua maioria, vivem à sombra destes, ou são escondidos ou até mesmo esquecidos. Infelizmente, os contextos eclesiais, em sua grande maioria, reproduzem este mesmo modelo. A Igreja vive uma crise de identidade e se divide entre um grande grupo que defende uma estrutura clerical de poder, em que não há muito espaço para atuação leigos e principalmente mulheres nas instâncias de decisão e outro, menor, que valoriza o verdadeiro seguimento de Jesus Cristo, em que há espaço para a contribuição de todos e que luta para trazer para o centro os interesses dos mais frágeis e necessitados.

Não será então este o momento para nós mulheres, inspiradas pelo exemplo de Maria, uma jovem assustada pelo tamanha da missão que lhe era confiada e que nem por isto deixou de assumir seu papel na história, começarmos a questionar nossas inseguranças e o status quo injusto, nos comprometendo com a parcela da Igreja que luta pela equidade e justiça e fazendo nossas vozes ouvidas e nossas propostas colocadas em pauta como a de qualquer outro cristão?

Não é somente sobre defendermos nossos direitos, mas principalmente sobre não ficarmos à margem das decisões, dos compromissos e das ações da Igreja e mesmo da sociedade, nos tornando atuantes em todos os níveis numa luta por uma sociedade cada vez mais justa, onde haja espaço e oportunidade para todos e cuidado prioritário com os mais frágeis, que são também os que mais precisam.

Assim como o “sim” de Maria, o nosso “sim” para o projeto do Reino deve ser decidido, profundo, corajoso, nos colocando em movimento e desencadeando outros sins, numa espiral que atinja todos e possa gerar uma nova história coletiva aberta ao novo, sempre em sintonia com o “sim” amoroso de Deus, proferido desde sempre e que abarca todos sem distinção nem privilégios.

 

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