2º domingo do advento - Ano B - Preparemos o caminho do Senhor!

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Por: MpvM | 04 Dezembro 2020

"O Advento pode ser, se assim o desejarmos, um tempo de desapropriação, para melhor encontrar Cristo. Ao longo desta Segunda Semana o apelo que nos é dirigido é o de procurar libertar espaço para que o Senhor venha. Só assim poderemos clamar do fundo de nosso coração “Vem Senhor!” Maranata!

"Se Deus convida o ser humano à transformação e à mudança através de profetas, de ontem e de hoje, a quem chama e a quem confia a missão de questionar o mundo e os seres humanos, estou suficientemente atenta aos profetas que questionam meu estilo de vida e meus valores? Dou crédito às suas interpelações, ou os considero figuras incomodativas, ultrapassadas e dispensáveis?"

A reflexão é de Sonia Cosentino, leiga. Ela possui graduação em teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio (2005) e mestrado tem teologia pela mesma Universidade (2008).

Leituras do dia
1ª Leitura - Is 40,1-5.9-11
Salmo - Sl 84,9ab-10.11-12.13-14 (R.8)
2ª Leitura - 2Pd 3,8-14
Evangelho - Mc 1,1-8

Queridas irmãs e queridos irmãos, estamos vivendo o Tempo do Advento. Neste Segundo Domingo deste tempo litúrgico encontramos a Primeira Leitura de hoje retirada do Livro do profeta Isaías (40, 1-5; 9-11) de onde destaco como o tema mais relevante, a consolação amorosa de Deus que prepara um caminho para seu povo percorrer. O profeta garante aos exilados na Babilônia que é esta a vontade de Javé, pois Ele está preparando um caminho para seu povo transformando toda estepe, colina ou elevação em largos vales (vv. 3-4). Além disto, Deus agirá como um pastor carregando seu povo carinhosamente em seu regaço (v.11) em direção à terra da liberdade e da paz.

“Consolai, consolai o meu povo, diz o Senhor, falai ao coração de Jerusalém...” (vv. 1-2). Ao ouvirem a expressão “meu povo”, todos e todas percebem que existe uma relação muito íntima entre Deus e eles. Pedir ao profeta que “fale ao coração” de seus ouvintes significa que Deus deseja tranquilizar seu povo, fazendo isto com amor e ternura. A misericórdia de Deus anuncia a esse povo amargurado, desiludido e frustrado que Ele não o abandonou nem esqueceu e que vai atuar no sentido de oferecer de novo a vida e a liberdade. Essa mensagem que nos traz o Deutero-Isaías representa um extraordinário "capital de esperança" ao Povo de Deus de todas as épocas e lugares.

Podemos perceber que assim como o povo no Exílio da Babilônia estava frustrado e desorientado, hoje também, muitos de nós se encontram desiludidos e paralisados. Questionamo-nos por que Deus permite o drama sanitário da pandemia, a crise política mundial, as “fake news”, a devastação do meio ambiente, a desigualdade gritante e cruel entre os seres humanos, o preconceito mortal em relação a qualquer tipo de diferença seja racial, econômica, social, intelectual, de gênero, de nacionalidade, a crescente onda de conservadorismo e fundamentalismo religioso... Além, de muitas outras mazelas que enfrentamos nos dias de hoje.

Além disto, ao olharmos numa outra direção, vemos que no tempo do profeta, havia outras pessoas do povo instaladas e acomodadas em seu pequeno “mundinho”, desfrutando do conforto e das benesses da riqueza e do poder que haviam adquirido. Se olharmos nossa realidade de hoje encontramos pessoas vivendo esta mesma realidade atroz, quando muitos se locupletam da cruel desigualdade que assola nossa sociedade, e dentro de uma perspectiva da meritocracia, acreditam merecer o que há de melhor a usufruir egoisticamente. Pensam estar protegidas de todo mal que atinge os outros companheiros e companheiras de caminhada, tratando-os com egoísmo, indiferença e exclusão.

Como cristãos e cristãs devemos nos perguntar:

Em qual dos dois grupos me encontro: o dos desiludidos e paralisados, ou o dos acomodados em sua riqueza e poder? Será que percebo que há possibilidade de esperança e conversão nos dois grupos, pois Deus está preparando amorosamente um caminho para eu percorrer em direção à verdadeira liberdade?

Em concreto, o que é que me impede de percorrer este caminho e renascer para uma vida mais humana, livre e feliz? Os bens materiais? A posição social? O comodismo? O medo? O egoísmo? O Advento é o tempo favorável para limparmos os caminhos da nossa vida, de forma a que Deus possa nascer em nós e, através de nós, libertar o mundo. Enfim, é preciso correr riscos! É preciso ousar e romper as correntes que nos mantêm fechados em nosso “mundinho” confortável e supostamente protegido. É preciso estar com os olhos voltados para o futuro que ainda está por vir e que deve ser acolhido, mas também construído por cada um de nós.

A segunda leitura de hoje vamos encontrá-la na Segunda Carta de Pedro (2 Pd 3,8-14), e dela destaco, como principal mensagem, a vigilância necessária diante da imprevisibilidade da Parusia, a Segunda vinda de Jesus.

Os cristãos e cristãs dos primeiros tempos, a quem a carta é dirigida, estavam convencidos da iminente chegada de Jesus para eliminar definitivamente o mal e para instaurar permanentemente o Reinado de Deus. No entanto, o tempo passava e a segunda vinda do Senhor não acontecia. Os crentes estavam decepcionados e eram objeto de deboche. O autor da carta, então, explica-lhes as razões pelas quais o Senhor ainda não veio. A primeira delas é que Deus não está dependente do tempo, como nós que vivemos na História, pois, "um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia" (v. 8). A segunda é que Deus é paciente e pretende prorrogar o tempo da História para dar a todas e todos a oportunidade de acolherem a salvação que Ele oferece (v. 9).

Logo, não é possível definir o momento exato da Parusia: será algo inesperado e surpreendente (vv. 9; 12), que os crentes devem esperar vigilantes e preparados (v.14). Portanto, a questão fundamental que os cristãos devem pôr, a propósito da segunda vinda do Senhor, não é a questão da data, mas sim a questão de como esperar e preparar esse momento, de tal forma que possibilitem a experiência histórica de "novos céus e nova terra onde habitará a justiça" (v.13).

A partir daí podemos nos perguntar:

Hoje, vivo uma vida de acordo com a vocação a que fui chamada, uma vida que tem como princípio norteador as opções de vida de Jesus de Nazaré?

Sou capaz de perceber que minha conduta vigilante, ativa e cheia de esperança no Senhor colabora para concretizar na terra a vivência da justiça entre os seres humanos e entre as nações?

No texto do Evangelho de Marcos (MC 1,1-8) que nos é proposto hoje, gostaria de destacar em primeiro lugar o caráter subversivo de seu autor. De maneira única em todo o Novo Testamento, Marcos inicia seu escrito dizendo: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (v. 1). Somente ele intitula sua obra de Evangelho que significa, como bem sabemos, boa notícia. Evangelho era uma palavra mais utilizada na esfera política do que na religiosa. Na verdade, a palavra “evangelho” era usada para anunciar as notícias mais importantes do império, como o nascimento de um filho do imperador e as vitórias em uma guerra ou batalha. Ao utilizá-la para falar dos acontecimentos referentes a Jesus, Marcos se assume como subversivo, afirmando que “boa notícia” não é o que sai de Roma, mas a que sai de Nazaré, na vida de um homem simples, corajoso e cheio de amor: Jesus de Nazaré. Se Marcos se assume subversivo politicamente, aplicando a palavra “evangelho” a Jesus, é nítida também a sua subversão religiosa, ao abrir a “história” de Jesus com a mesma palavra que se abre o Antigo Testamento, isto é, com o termo grego: arkhê, cujo significado mais autêntico é princípio, ao invés de início, como traz o texto litúrgico de hoje. Ao usar esta palavra o evangelista quer dizer que a história da salvação tem, em Jesus, um novo princípio, um novo fundamento, desafiando assim a religião oficial da época. E, finalmente, ao afirmar que Jesus é também Filho de Deus, Marcos desafia, ao mesmo tempo, tanto o império quanto a religião. Portanto, de modo simples, mas ao mesmo tempo profundo, Marcos enfrenta os dois poderes mais fortes e organizados da época na terra de Jesus: o império romano e a religião oficial judaica.

Podemos nos perguntar:

Sou seguidora de Jesus, que com coragem e ousadia evangélica e subversiva aponta com ousadia a política que assola nossa sociedade, a do ódio ao diferente, seja ele estrangeiro, pobre, negro, mulher, LGBTQIA+, povos originários, enfim uma sociedade violenta, truculenta, assassina, que invisibiliza, quando não descarta os pequenos e que dá mais valor ao dinheiro do que à vida?

Estou em harmonia com o Papa Francisco que nos chama a subverter a prática da Cristandade, para sermos uma “Igreja em saída”, a que vai ao encontro daqueles e daquelas que mais necessitam, os que estão fragilizados e são por nós esquecidos? Sou capaz de incluí-los no seio amoroso da Igreja, como o faz uma mãe, sem julgá-los moralmente?

Tenho a ousadia de viver a “Economia de Francisco e Clara”, a economia subversiva da partilha e não a da acumulação?

Até aqui, refletimos apenas sobre o primeiro versículo deste Evangelho, que funciona como seu título e introdução geral. A partir daí surge o profeta João Batista que faz a transição do Antigo para o Novo Testamento, convidando os seus contemporâneos e, claro, os homens e mulheres de todas as épocas, a percorrer um autêntico caminho de conversão, de transformação, e de mudança de vida e mentalidade.

Deste texto (vv. 2-8) destaco João, o Batizador, como mensageiro enviado por Deus para preparar o caminho do Senhor apontando-o como verdadeiro Messias Esperado.

Marcos, ao falar de João, faz citações tiradas da Torá e dos Profetas, sugerindo que ele é aquele do qual falavam as promessas antigas, e que devia vir anunciar e preparar o Povo de Deus para acolher a intervenção definitiva de Javé na História.

João devia preparar o caminho do Senhor, removendo os obstáculos do coração do povo pelo arrependimento, para acolher melhor o Messias esperado. Sua pregação é feita "no deserto" (v.3), para lembrar ao povo que foi lá onde os israelitas libertados do Egito passaram de uma mentalidade de escravos a uma mentalidade de mulheres e homens livres, de uma mentalidade de egoísmo a uma mentalidade de partilha.

“João se vestia de pelos de camelo e se alimentava de gafanhotos e de mel silvestre"(v. 6). Como podemos perceber ele não vestia a púrpura sacerdotal, a que tinha direito como filho do sacerdote Zacarias, mas vestia o traje dos homens do deserto, daqueles que não possuíam riqueza, nem opulência. O estilo de vida de João, sóbrio, desprendido, austero, simples, é um convite claro à renúncia aos valores do mundo e uma interpelação à sociedade de seu tempo e a de todos os tempos.

Finalmente: O que é que João diz sobre esse Messias libertador? Com consciente humildade, diz não ser “digno de desatar a correia de suas sandálias (v.7), e acrescenta ainda que o Messias terá a força de Deus e a sua missão será comunicar esse Espírito de Deus (v.8), Espírito que transforma, renova e recria os corações de mulheres e homens. Portanto, João anuncia que aquele que vem “depois dele” é alguém mais forte e poderoso que ele (vv.7-8).

A partir daquilo que o Evangelho nos apresenta hoje podemos nos perguntar:

Se Deus convida o ser humano à transformação e à mudança através de profetas, de ontem e de hoje, a quem chama e a quem confia a missão de questionar o mundo e os seres humanos, estou suficientemente atenta aos profetas que questionam meu estilo de vida e meus valores? Dou crédito às suas interpelações, ou os considero figuras incomodativas, ultrapassadas e dispensáveis?

E eu, constituída profeta desde o meu batismo, sinto-me enviada por Deus a interpelar e a questionar o mundo e meus irmãos e irmãs? Estou hoje preparando o caminho do Senhor?

O "estilo de vida" de João é uma forte interpelação à nossa sociedade consumista e poluidora do meio ambiente. Ele é um homem que está consciente das prioridades e não dá importância aos aspectos secundários da vida, como a roupa de marca, a alimentação cuidada ou ao poder religioso ao qual tinha direito.

Então, a partir daí cada um de nós pode se perguntar: Quais os valores que considero fundamentais, quais são aqueles que marcam minhas decisões e opções? Como me situo frente a valores e a um estilo de vida que contradiz, claramente, os valores do Evangelho? Entro “na onda” e sigo o que é feito pela maioria que não segue os parâmetros do Evangelho?

Finalmente, destaco a frase que é, de certo modo, a principal mensagem de hoje: "Preparemos o caminho do Senhor!" Como fazer isto hoje? A urgência é seguramente dar a Cristo todo o espaço nas nossas vidas, isto é, limpar o terreno, permitindo que Ele nasça no íntimo de minha vida.

O Advento pode ser, se assim o desejarmos, um tempo de desapropriação, para melhor encontrar Cristo. Ao longo desta Segunda Semana o apelo que nos é dirigido é o de procurar libertar espaço para que o Senhor venha. Só assim poderemos clamar do fundo de nosso coração “Vem Senhor!” Maranata!

 

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