Um “plano” de vacinação sonolento e inaceitável

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03 Dezembro 2020

Pandemia avança e alguns países começam a imunizar na próxima semana. No Brasil, governo quer postergar tudo até março; e ter, em um ano, só metade da população vacinada. Nesta lógica, ricos estariam protegidos — com vacina paga.

A reportagem é de Maíra Mathias e Raquel Torres, publicada por Outras Palavras, 02-12-2020.

O pré-plano de imunização

O Ministério da Saúde divulgou ontem como espera que seja o plano de imunização contra covid-19 no Brasil. A ideia é que comece entre março e junho e seja feito em quatro etapas, terminando no fim de 2021. Na primeira, serão vacinados profissionais da saúde, idosos a partir de 75 anos, a população indígena e pessoas com mais de 60 anos que vivam em instituições de longa permanência. Isso dá 13 milhões de pessoas, ou 6% da população.

Em seguida, vêm todas as pessoas com entre 60 e 74 anos, começando pelos mais velhos – mais 22,1 milhão de brasileiros. Na terceira etapa estão incluídas pessoas com comorbidades que apresentam maior risco para a doença; segundo a Folha, não há estatísticas oficiais que permitam dimensionar a quantidade de pessoas nesse grupo. Na última etapa, serão beneficiados professores, forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional e a população carcerária.

Segundo o governo, no fim do ano terão sido imunizadas 109,5 milhões de pessoas (ou 52% da população) em duas doses, usando, ao todo, cerca de 220 milhões de doses.

Vale lembrar que, atualmente, o Brasil tem acordos para obter cerca 142 milhões de doses, sendo 100 milhões de Oxford/AstraZeneca e outros 42 milhões das vacinas do Covax Facility. As 46 milhões de doses de CoronaVac negociadas pelo governo de São Paulo ainda não estão garantidas para distribuição nacional. E, se tudo der certo, a Fiocruz e o Instituto Butantan poderão produzir mais doses das vacinas de Oxford e da Sinovac.

O secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, disse que o plano final só vai ficar “definitivamente pronto, fechado”, quando pelo menos uma vacina estiver registrada na Anvisa. Já dissemos por aqui que faz sentido pensar os grupos prioritários de acordo com as características da vacina que se tem: em que faixas etárias ela é mais eficaz, se reduz somente o adoecimento ou também a capacidade de as pessoas transmitirem o vírus, etc. Mas aguardar a posição final da Anvisa para aprovar o plano pode acabar aumentando um desafio logístico que já é suficientemente grande.

A pasta não definiu, por exemplo, quantos insumos (como seringas) e salas de vacinação serão necessárias, segundo a apuração d’O Globo. Em nota, o ministério disse que está “no processo” de compra de 340 milhões de seringas e agulhas e que um edital nesse sentido está para ser lançado. No Painel, da Folha, fabricantes dizem que a falta de encomendas do governo pode gerar atrasos nas campanhas de vacinação no ano que vem. Segundo a Abimo, associação de fabricantes de equipamentos médicos, o setor pode precisar de pelo menos quatro meses para atender grandes demandas.

No mundo real

Arnaldo Medeiros também apresentou a visão do governo sobre como seria a vacina ideal. “O que nós queremos de uma vacina? Qual o perfil de uma vacina desejada? Claro, que ela confira proteção contra a doença grave e moderada, que ela tenha elevada eficácia, que ela tenha segurança, que ela seja capaz de fazer uma indução da memória imunológica, que ela tenha possibilidade de uso em diversas faixas etárias, e em grupos populacionais. E que idealmente ela seja feita de dose única, embora muitas vezes isso talvez não seja possível, só seja possível em mais de uma dose, mas fundamentalmente que ela seja termoestável por longos períodos, em temperaturas de dois a oito graus. Por quê? Porque a nossa rede de frios, nessas 34 mil salas, é montada e estabelecida com uma rede de frios de aproximadamente 2°C e 8°C”.

Sonhar não custa nada, só que a distância entre o ideal e o real pode ser gigantesca. Por enquanto, nenhuma das vacinas que apresentaram algum resultado de fase 3 consegue atender à lista de desejos do ministério. A de Oxford/AstraZeneca – única aposta do governo federal – atende à temperatura estabelecida, mas precisa ser administrada em duas doses. O mesmo vale para a Sputnik V. Já as da Pfizer e da Moderna precisam ficar em temperaturas de -70°C e -20°C, respectivamente (embora a da Moderna aguente um mês sob refrigeração comum). No Brasil, há testes de fase 3 com outras duas candidatas: a CoronaVac e a da Johnson & Johnson, que também são administradas em duas doses.

Mesmo concordando que implantar cadeias de frio para temperaturas tão baixas seja difícil, vários especialistas acreditam que isso não deveria ser uma barreira para garantir a imunização. A Folha discute algumas soluções possíveis para o Brasil. Segundo Márcia Barbosa, professora de Física da UFRGS e diretora da Academia Brasileira de Ciências, os cursos de física de universidades de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco possuem instalações com temperaturas abaixo dos -70ºC. “Mas são instalações grandes e fixas. Teríamos de adaptar a tecnologia para torná-la portátil e, a partir desses centro de pesquisa, poderíamos ampliar e distribuir”, diz ela.

O Conselho Nacionalde Climatização e Refrigeração também diz que dá para fazer adaptações. “O país conta hoje com a cadeia de produção dedicada ao armazenamento e distribuição de vacinas bastante robusta e que pode ser adaptada para a necessidade de qualquer empresa, a qualquer temperatura, inclusive a -70° C”, confirma o engenheiro Ariel Gandelman, membro do conselho.

Nós, por aqui, também acreditamos que com investimento e vontade política esse tipo de problema poderia ser contornado. O que nos parece menos factível é conseguir de fato comprar doses suficientes das vacinas da Pfizer e da Moderna, como comentamos ontem. Por ora, os brasileiros precisam se contentar em torcer para que o imunizante da AstraZeneca tenha uma eficácia razoável; que os erros no seu ensaio não atrasem muito a aprovação; e que a transferência de tecnologia para a Fiocruz corra de forma rápida, de modo que a produção nacional comece no prazo previsto.

Presente e futuro

Pela primeira vez em dez anos, uma vacina contra o HIV chegou à fase 3 de testes clínicos. Segundo o El País, trata-se de um produto da Janssen (da Johnson & Johnson) que tem a mesma tecnologia usada pela farmacêutica em seu imunizante contra o novo coronavírus. O ensaio vai envolver 3,8 mil pessoas e deve durar entre 24 e 36 meses. A última tentativa, lembra a reportagem, terminou fracassada em 2009, quando se viu que a vacina testada só tinha eficácia de 30%.

Se houvesse maior acesso aos tratamento antirretrovirais, a epidemia que mata mais de 600 mil pessoas por ano poderia estar controlada – como se sabe, os remédios reduzem tanto a carga viral que impedem a pessoa infectada de passar o HIV adiante. Porém, segundo o Unaids, programa de combate à Aids das Nações Unidas, um terço das 38 milhões de pessoas que vivem com o vírus não o recebem.

Quando se trata das crianças, a proporção é ainda pior: há 1,7 milhão vivendo com HIV, e metade não tem acesso a tratamento. A cada ano, morrem cem mil crianças em decorrência desse vírus. O alto custo é um entrave; outro está nos erros nas dosagens e no sabor amargo dos comprimidos, o que dificulta a administração. Ontem foi anunciado um acordo com os fabricantes de genéricos Viatris e Mcleods para reduzir o preço de um dos componentes do coquetel de US$ 400 para US$ 36. Com isso, o tratamento de um ano passaria de US$ 480 para cerca de US$ 120. Além disso, o dolutegravir vai estar disponível num comprimido solúvel e com sabor morango, para melhorar a aceitação. No primeiro semestre do ano que vem, o produto vai estar disponível em Benin, Quênia, Malauí, Nigéria, Uganda e Zimbábue.

Outro acordo pode beneficiar adultos em países de renda média-alta, para permitir que fabricantes de genéricos forneçam dolutegravir a preços baixos. São países que normalmente não conseguem se beneficiar de iniciativas de acesso a medicamentos centradas em nações e baixa renda.

Os anúncios vieram no contexto do Dia Mundial de Combate à Aids, que foi ontem. Também na esteira dele, o Ministério da Saúde divulgou os últimos dados do HIV no Brasil: em 2019, o número de casos notificados caiu pela primeira vez em uma década. Foram registradas quase 42 mil novas infecções, contra 45 mil no ano anterior. Ao todo, vivem no país 920 mil pessoas infectadas. A mortalidade chegou, segundo a pasta, ao menor índice dos últimos dez anos: 4,1 por 100 mil habitantes.

O vazamento

A CNN inglesa publicou na segunda-feira uma reportagem que revela uma lacuna entre o que as autoridades chinesas sabiam sobre a evolução da pandemia e o que elas divulgavam publicamente. A rede recebeu 117 páginas de documentos oficiais do Centro de Controle de Doenças de Hubei, província onde a primeira infecção foi documentada. Trata-se do maior vazamento vindo do país desde o início da pandemia.

Os papéis cobrem de maneira incompleta um período extenso que vai de outubro de 2019 a abril deste ano, com dados completos em duas datas: 10 de fevereiro e 7 de março. O responsável pelo vazamento pode não ter escolhido esses dias por acaso: a primeira data marcou um discurso feito por Xi Jinping a profissionais de saúde depois de semanas em que o presidente chinês submergiu das vistas do público. Naquele dia, relatórios internos categorizados como “confidenciais” davam conta de 5.918 novos casos – mais do que o dobro do os 2.478 divulgados oficialmente naquele dia. Ficaram de fora praticamente todos os casos que não foram confirmados por PCR, mesmo os relacionados a pessoas que tiveram contatos com doentes diagnosticados e apresentavam sintomas.

Já a segunda data, 7 de março, é significativa no plano internacional pois foi quando a Itália passou a ocupar o lugar de epicentro da doença, com o governo decretando quarentena obrigatória no norte do país. Nesse dia, o governo chinês divulgou 2.986 mortes, mas os documentos internos dão conta de 3.456 óbitos. Nesse dia, o número oficial de novos casos foi de 83, e o que circulou internamente, 115.

Segundo a rede, os documentos foram vazados por um funcionário do governo chinês e sua veracidade foi checada por seis especialistas diferentes e também por cientistas forenses. O repórter Nick Paton Walsh afirma que, pela leitura, não dá para inferir que houve uma decisão deliberada de esconder números.

Os papéis dão outras informações inéditas. A cidade de Wuhan pode não ter sido o único nem o principal epicentro da doença. Duas cidades da província de HubeiXianning e Yichang – chegaram a registrar mais casos do que na época foi diagnosticado como “influenza” na primeira semana de dezembro. Foram 2.032 casos em Wuhan, 2.148 em Xianning e 6.135 em Yichang. Juntas, as cidades registraram um salto de mais de 2.000% em comparação com a mesma semana de 2018, o que pode indicar que o novo coronavírus já estava circulando nelas.

Os documentos também dão conta das dificuldades do Centro de Controle de Doenças de Hubei – uma “grande lacuna de fundos e de pessoal” –teria causado, por exemplo, o atraso médio de 23 dias nos resultados dos testes.

O Nexo reproduz os principais achados da reportagem da CNN em português.

Gordura para queimar

Um dos primeiros sinais do repique da covid-19 no Brasil foi o aumento de internações nos hospitais de elite de São Paulo, justamente os que atenderam os primeiros casos confirmados da doença no país. Novos números dão conta dos efeitos dessa segunda onda entre os estratos mais ricos da população: a semana passada fechou com uma ocupação de 83% dos leitos destinados a pacientes com covid-19 nos 11 hospitais mais caros da capital paulista, representados pela Associação Nacional de Hospitais Privados.

Ampliando o escopo, o Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo fez um levantamento com 76 instituições. Concluiu que em duas semanas a taxa de ocupação dos leitos de UTI dedicados à doença passou de 55% para 84%. A entidade também verificou um salto nas internações por covid-19 em geral: a ocupação foi de 44% para 79% entre a terceira e a quarta semana de novembro.

Mas a matéria da Folha mostra que há uma distância grande mesmo no setor privado. Os 11 hospitais de elite ainda têm muita gordura para queimar: estão reservando apenas 11% de seus leitos para a covid. Nas 76 instituições particulares o quadro é outro: elas reservam 40% das suas vagas para a doença. Mesmo assim, 67% dos ouvidos pelo sindicato dizem ter capacidade de aumentar o número de leitos para covid-19 caso seja necessário.

Já no Rio, a situação é pior. A Associação de Hospitais Privados do estado afirma que a taxa de ocupação dos leitos de UTI na capital fluminense bateu os 98% e os doentes já estão sendo enviados para unidades em outras cidades. Ao que parece, a entidade defende um tipo diferente de solidariedade entre o público e o privado: que novas vagas sejam abertas na rede particular com dinheiro público porque os hospitais privados teriam mais facilidade de contratar profissionais… Na reportagem d´O Globo não há dados que indiquem o que os leitos reservados para covid representam diante da capacidade total da rede representada pela associação.

No Paraná, a Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Curitiba disse na segunda-feira que já havia fila de espera por UTI de 50 pacientes no SUS. O governo estadual nega haver falta de atendimento médico, mas planeja reabrir 89 leitos de tratamento intensivo até meados de dezembro.

Enquanto isso, a discussão sobre a fila única de leitos, em que gestores públicos lançam mão da sua autoridade para requisitar infraestrutura e pessoal de serviços particulares, parece ter sumido do radar durante esse repique de casos.

Um janeiro difícil

Se depender do governo, no dia 1º de janeiro 67 milhões de pessoas que hoje recebem o auxílio emergencial ficarão descobertas. Ontem, o presidente Jair Bolsonaro afirmou: “Alguns querem perpetuar tais benefícios, ninguém vive dessa forma, é o caminho certo para o insucesso” – deixando de lado o fato de que ele próprio durante algum tempo teve como agenda a criação de um programa de transferência de renda que substituísse o Bolsa Família e atendesse mais gente, primeiro batizado de Renda Brasil e, depois, de Renda Cidadã.

De acordo com o jornal O Globo, entre domingo e segunda-feira o martelo foi batido e ficou decidido que o governo apostará na ampliação do Bolsa Família para incluir uma fração (indefinida) da população que ficará desassistida com o fim do auxílio. Mas até esse plano B não sairá do papel tão cedo: “só deverá ocorrer a partir de fevereiro, quando for discutido o orçamento da União 2021”, conta o repórter Geraldo Doca.

O programa criado no governo Lula atende 14,2 milhões de famílias – hoje todas inscritas no auxílio e recebendo R$ 300. Apesar de não ficarem sem nada como os outros 52 milhões de beneficiários do auxílio, também sofrerão um baque, já que o benefício médio do Bolsa é de R$ 192.

Em tempo: na mesma reportagem, aparece uma nova data para a entrega do já folclórico parecer do senador Márcio Bittar (MDB-AC) a respeito da PEC do Pacto Federativo. A promessa é que seja apresentado no início da próxima semana. E deve incluir o fim do investimento mínimo de União, estados e municípios no SUS.

Em construção

Mal acabaram as eleições municipais e João Doria (PSDB) já está investindo na construção da sua imagem para 2022. “Antiextremista, antipopulista e anticorrupção”, segundo o próprio. Em entrevista à Folha, o governador de São Paulo tenta a seguinte manobra: negar que esteja fazendo campanha ao mesmo tempo em que começa a fazer campanha. Joga com a atuação na pandemia e, principalmente, com a CoronaVac. “A hora é da vacinação, não da eleição”, diz ele, admitindo que o imunizante pode projetar seu nome nacionalmente “embora o sentido não seja esse”.

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