1º domingo do advento - Ano B - O que digo a vós, digo a todos: Vigiai! (Mc 13, 37)

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27 Novembro 2020

"Vigiai! É a palavra com a qual o Evangelho de Marcos conclui o discurso escatológico de Jesus antes do início da narrativa que trata de sua paixão, morte e ressurreição. Sentado no Monte das Oliveiras, diante do Templo, ele conversa com os discípulos sobre os sinais que devem anunciar a vinda definitiva do messias, do Filho do Homem.

"Vigiai! É também a palavra que a liturgia nos propõe neste primeiro domingo do advento."

A reflexão é de Ceci M. C. Baptista Mariani, leiga. Ela é doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP e mestra em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção - PUC-SP. É professora no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião e na Faculdade de Teologia da PUC-Campinas. Membro da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião - SOTER, conselheira do Regional São Paulo e coordenadora do Grupo de Trabalho “Espiritualidade e Mística”.

Leituras do Dia
1ª Leitura - Is 63,16b-17.19b;64,2b-7
Salmo - Is 79 2ac.3b.15-16.18-19(R.4)
2ª Leitura - ICor 1,3-9
Evangelho - Mc 13,33-37

O que digo a vós, digo a todos: Vigiai! (Mc 13, 37)

Vigiai! É a palavra com a qual o Evangelho de Marcos conclui o discurso escatológico de Jesus antes do início da narrativa que trata de sua paixão, morte e ressurreição. Sentado no Monte das Oliveiras, diante do Templo, ele conversa com os discípulos sobre os sinais que devem anunciar a vinda definitiva do messias, do Filho do Homem. Pede atenção, fala de perseguição futura, de falsos cristos e falsos profetas, e promete que depois da tribulação virá o Filho do Homem. Usando a imagem da figueira, cujo brotar das folhas anuncia a chegada do verão, declara que os sinais estão acontecendo e que o fim dos tempos, não no sentido cronológico, mas na sua definitividade, está próximo, está às portas, está para se cumprir. Às vésperas de sua paixão, Jesus, no evangelho de Marcos, chama a atenção dos discípulos para que estejam atentos à vinda de Deus em meio à tribulação.

Vigiai! É também a palavra que a liturgia nos propõe neste primeiro domingo do advento. As primeiras gerações cristãs, nos informa Pagola (2013, p.249), tinham grande expectativa que o Ressuscitado fosse voltar logo. No entanto, não demorou muito, começaram a perceber que o retorno do Senhor não aconteceria tão próximo. A perícope proposta à nossa meditação, interpreta esse teólogo, reflete a preocupação da comunidade que via na demora o perigo de que o ardor que a experiência da ressurreição proporcionara, fosse paulatinamente apagado. Esse temor teria transformado o chamado à vigilância em uma palavra-chave:

Os evangelhos a repetem constantemente: “vigiai”, “estais alertas”, “vivei despertos”. De acordo com Marcos, a ordem de Jesus não é só para os discípulos que o estão escutando. “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!” Não é apenas mais um chamado. A ordem é para seus seguidores de todos os tempos. (PAGOLA, 2013, p. 250)

Vigiar” é, afirma Moltmann (2002, p. 143), numa reflexão muito inspirada, conviver com orações não atendidas, é permanecer na oração, mesmo no silêncio de Deus”, resistindo à tentação de parar ou de se rebelar contra Ele quando se sente que a oração não tem ajudado em nada... “Vigiar é confiar no Espírito Santo que, estando conosco, intercede por nós, quando vivemos também, como Jesus, nossos momentos de Getsêmani, de abandono, de ausência de Deus. “Vigiar na expectativa ardente é a forma mais forte de oração, porque constitui uma grande resposta humana à ocultação de Deus” (MOLTMANN, 2002, p.144).

Com sentidos abertos e atentos, percebemos os perigos que ameaçam o mundo e que nos afligem. Vigiar em meio à tribulação e ao sentimento de ausência de Deus, torna nossa oração messiânica. “Vigiar transcende o orar e o silenciar, porque transforma nossa vida toda numa vida desperta e acordada, na expectativa ardente da vinda de Deus a este mundo” (MOLTMANN, 2002, p.144-145).

Vigiar é, então, conservar-se na esperança, mesmo em meio a tantas sombras que pairam sobre o mundo atual. Um mundo que abandonou os sonhos de integração surgidas do enfrentamento de duas grandes guerras mundiais, lembra o Papa Francisco em sua encíclica Fratelli Tutti (FT, 10), abandono que favoreceu o ressurgimento de conflitos anacrônicos e de nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos (FT, 11); que impôs uma falsa unidade manipulada pela globalização econômica que visa dividir para governar (FT, 12); que tem sufocado a consciência histórica provocando o esvaziamento de palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade, que carregavam valores, desfigurando-as e as transformando em instrumentos de dominação (FT 14). Um mundo que promove o imediatismo, inviabiliza projetos comuns e implementa a lógica do descarte nas relações humanas (FT, 15-21); mundo que desrespeita os direitos humanos (FT 22-24).

O Papa Francisco ainda enumera como sombras, a individualista busca de bem-estar e felicidade oferecida por um estilo de vida consumista acessível a poucos, estilo de vida que fatalmente provoca violência e destruição na medida em que promove a desigualdade; e acrescenta também a crise ecológica que estamos enfrentando neste tempo de pandemia. Crise provocada, certamente, pela maneira com que temos encarado a realidade, colocando-nos como senhores absolutos da própria vida e de tudo o que existe (FT, 34). E por fim, a sombra que temos enfrentado com o progresso na área da comunicação com a implementação das redes sociais e as ambiguidades que as acompanham, por exemplo, a disseminação de “movimentos digitais de ódio” (FT, 43).

Vigiar é viver de maneira lúcida, afirma Pagola (2010), enxergar criticamente as sombras, como recomenda Francisco, mas sem deixar-se arrastar pela insensatez, sem deixar-se contaminar pela desesperança que tem nos levado, por medo e insegurança, a nos refugiarmos na busca de satisfazer o próprio “pequeno bem-estar” (PAGOLA, 2010, p. 251). É preciso olhar para a realidade também com olhos positivos e benévolos, sem deixar “que se apague em nós o gosto do que é bom”. A poeta Adélia Prado nos ajuda com um belo poema intitulado O Homem Humano, no qual fala sobre a esperança de ter no horizonte a participação na mesa preparada por Deus que é Pai e também por poder contar com a sua presença, luz e calor que “por detrás do sol” gera os sonhos e ilumina com lâmpada fulgurantes, a mais fechada noite. Eis o poema:

Se não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta
o que seria de mim eu não sei.
Sem o Teu Nome
a claridade do mundo não me hospeda,
é crua luz crestante sobre ais.
Eu necessito por detrás do sol
do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos,
na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas.
Porque acima e abaixo e ao redor do que existe permaneces,
eu repouso meu rosto nesta areia
contemplando as formigas, envelhecendo em paz
como envelhece o que é de amoroso dono.
O mar é tão pequenino diante do que eu choraria
se não fosses meu Pai.
Ó Deus, ainda assim não é sem temor que Te amo,
nem sem medo.
(Adélia Prado, 2015, posição 2832).

Na esperança, com muito temor diante de tal grandeza, e também, com muito amor diante de sua imensa bondade, queremos, neste domingo, como o profeta Isaías, elevar nossa voz para dizer que, apesar de nossos descaminhos, da dureza do coração, queremos contar com a vinda do Senhor que opera “maravilhas inesperadas”, e nos dispormos, como barro, ao “trabalho de suas mãos” para nascer, crescer e, como reza Adélia Prado, “envelhecer em paz como envelhece o que é de amoroso dono”.

“Não deixemos que nos roubem a esperança!” (EG, 86), recomenda o Papa Francisco. Mesmo em meio à desertificação espiritual que experimentamos num mundo coberto por tantas sombras, a nossa fé nos ensina que, é justamente em meio a tantas sombras que podemos descobrir o essencial da vida e a alegria de crer. Usando uma bela imagem, ele nos convoca a ser pessoas-cântaros para, em meio ao deserto, darmos de beber aos outros, mesmo que às vezes o cântaro se transforme numa pesada cruz, pois, não se pode esquecer que “foi precisamente na cruz que o Senhor, trespassado, Se nos entregou com fonte de água viva” (FT, 86).

Enfim, para concluir, voltando à Adélia, podemos reafirmar, nesta celebração que abre o advento, com alegria e com esperança que:

Vale a pena esperar, contra toda a esperança,
o cumprimento da promessa que Deus fez a nossos pais no deserto.
Até lá, o sol com chuva, o arco-íris, o esforço de amor,
o maná em pequeninas rodelas, tornam boa a vida.
A vida rui? A vida rola mas não cai. A vida é boa.
(Adélia Prado, 2015, posição 1645)


Referências:

MOLTMANN, J. A fonte da vida: O Espírito Santo e a teologia da vida. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

FRANCISCO. Fratelli tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. 2020. Disponível aqui. Acesso em 2 nov. 2020.

FRANCISCO. Evangelii Gaudium: a alegria do evangelho. Disponível aqui. Acesso em: 02 nov. 2020.

PAGOLA, J. A. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

PRADO, A. Poesia Reunida. Rio de Janeiro: Record, 2015. [Kindle Edition].

 

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