No Natal sóbrio reencontramos o prazer de nos presentear um sorriso. Artigo de Corrado Augias

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27 Novembro 2020

"Toda a conversa que vem acontecendo nos últimos dias sobre se será ou não possível festejar com a suntuosa ceia natalina habitual é um pouco irreal. Principalmente porque ninguém sabe exatamente que situação teremos em um mês; e também porque se dá uma excessiva importância ao evento. Vai ter, não vai ter: o vírus decidirá, não nós", escreve Corrado Augias, jornalista, escritor italiano e ex-deputado do Parlamento Europeu, em artigo publicado por La Repubblica, 20-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O avarento e malvado Scrooge (protagonista do Conto de Natal de Dickens) obriga seu pobre empregado a "se aquecer com a chama da vela" no gélido inverno londrino de 1843. Pode-se pensar em um exagero literário – não é. Lembro pessoalmente do meu gesto infantil de passar as mãos sobre a chama da vela para aquecê-las. Quando depois li Dickens, confesso que dei um pulo – quem ainda faz (quem entende ainda) tal gesto que felizmente se tornou incompreensível? A progressiva e avassaladora transformação do Natal de uma festa de intimidade familiar em uma festa do consumismo é um dos fenômenos mais comentados, ano após ano. Em geral, isso é feito para lastimar o fenômeno, mesmo que haja uma sombra de conformismo nas críticas.

Em uma sociedade agora amplamente secularizada em que os apelos para uma ordem espiritual se tornaram marginais, era inevitável que o Natal do passado fosse revirado. Provocando, entre outras coisas, uma vantagem econômica considerável, se é verdade que as grandes empresas e as lojas garantem grande parte do seu faturamento durante as festas de final de ano.

Certamente o Natal a que nos acostumamos mais ou menos no último meio século não tem nada a ver com o Natal do passado, especialmente em um país como a Itália e por uma dupla razão. A primeira é que a Itália foi durante muito tempo um país de catolicismo tradicional; a segunda, é que também foi por muito tempo um país pobre. Aliás, mais do que pobre, um país acostumado, mesmo com certa digna burguesia, a moderar os consumos concentrando-os no indispensável. O casaco surrado do pai, virado do avesso, ia para o filho mais velho, os sapatos dos irmãos mais velhos arrumados pelo sapateiro eram repassados aos menores, o consumo de carne era limitado ao almoço de domingo. Ou, precisamente, à ceia de Natal onde se começava com um caldo de galinha e se terminava com uma tangerina e um pedaço de torrone.

Toda a conversa que vem acontecendo nos últimos dias sobre se será ou não possível festejar com a suntuosa ceia natalina habitual é um pouco irreal. Principalmente porque ninguém sabe exatamente que situação teremos em um mês; e também porque se dá uma excessiva importância ao evento. Vai ter, não vai ter: o vírus decidirá, não nós. No flagelo do Covid, em todo caso, faltou o problema a mais da fome. Fome que, é preciso lembrar, durante alguns anos fez-se sentir mesmo depois da guerra, apesar do Plano Marshall e da farinha branca trazida dos Estados Unidos após anos de pão feito quase com serragem. Ninguém sente saudade daqueles tempos, muito menos quem passou por eles, mas lembrá-los tem um pequeno valor pedagógico, um sininho para lembrar que as situações mudam, a sorte e o bem-estar podem estar agora aqui, agora ali e todo dia sem infortúnios deve ser saudado como uma bênção.

No conto de Dickens, o pérfido Scrooge, que finalmente se tornou bom, sai para passear: "Caminhou pelas ruas, olhou as pessoas andando apressadas de lá para cá, afagou a cabeça das crianças, conversou com mendigos, espiou para dentro das janelas das casas e de suas cozinhas, e tudo isso lhe trouxe muita alegria. Nunca tinha imaginado que uma simples caminhada pudesse lhe trazer tamanha felicidade". Eu conheço o risco de aplicar certos estados de espírito fora de contexto. Mas, em tempos de calamidade, pode ser útil ter em mente que uma simples caminhada, mantendo os olhos abertos, pode proporcionar mais alegria do que férias em Sharm el-Sheikh. Talvez haja algum moralismo na comparação, porém equilibrado pelo possível benefício de colocá-lo em prática.

 

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