“O pior da crise causada por esta pandemia será o drama de não aproveitá-la”, afirma Mario Grech, novo cardeal e secretário-geral do Sínodo dos Bispos

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23 Novembro 2020

“A sinodalidade é um antídoto contra os pequenos grupos e nações egoístas fechados em si, e nos ajuda a apreciar a beleza de ser uma comunidade capaz de integrar criativamente as diferenças”, disse dom Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos no Encontro sobre “Uma Igreja sinodal: uma forma de ser Igreja e uma profecia para o terceiro milênio”, evento organizado neste 17 de novembro, no marco do ciclo de Conferências sobre “A Igreja segundo Francisco”, uma iniciativa da Pontifícia Universidade Católica da Argentina.

A reportagem é de Renato Martínez, publicada por Vatican News, 19-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Em sua apresentação, o secretário-geral do Sínodo dos Bispos apontou que a reflexão sobre a sinodalidade em tempos de pandemia é um sinal positivo para a Igreja e a sociedade. Ao se referir à pandemia de covid-19, que há meses atinge a humanidade de um extremo ao outro do planeta, dom Grech disse que, “não há dúvidas que nos encontramos diante de uma crise, inclusive muitos defendem que se trata da maior crise mundial desde o pós-guerra”. Analisando o significado da palavra krisis, o prelado afirmou que, não necessariamente tem um significado funesto, o substantivo krisis recorda a ideia de separar, discernir, julgar. “Neste sentido, o termo possui um matiz positivo, no sentido de que a crise pode se transformar em uma ocasião de reflexão, de avaliação, discernimento, transformando-se no pressuposto necessário para melhorar, renascer, um novo início”, continuou.

 

A pandemia como kairós

Porém, se quisermos utilizar uma linguagem mais próxima à Sagrada Escritura, indicou dom Grech, poderíamos afirmar que, “cada krisis leva consigo um kairós, isso é, uma oportunidade, um tempo preciosos misteriosamente atravessado por Deus, um período propício que interrompe o ciclo sempre idêntico dos dias e dos anos (kronos) e que nos pede a assumir uma atitude distinta, isso é, de viver uma conversão”. Neste horizonte, citando as palavras com as quais o papa Francisco concluiu sua homilia de Pentecostes deste ano: “o pior da crise causada por esta pandemia será o drama de não aproveitá-la”, afirmo Grech que, “a convicção que o tempo da cruz seja também um tempo de graça, que inclusive na noite mais escura, Deus não faz falta sua estrela, e portanto toca aos homens saber extrair do mal o bem possível”.

 

A pandemia como “um tempo de maré baixa”

Neste sentido, o secretário-geral do Sínodo dos Bispos apresentou aos participantes da conferência a visão da teóloga italiana, Stella Morra, que comparou o tempo que estamos vivendo com “um tempo de maré baixa”. Que, de um lado, “deixa emergir a extraordinária beleza do fundo”, porém ao mesmo tempo “traz escombros”. Por exemplo, a oração mais intensa em tantas famílias, a aproximação à espiritualidade, a busca de novas formas de expressar a fé, a fantasia pastoral de muitos ministros, etc. porém também se vê a fragilidade das relações conjugais e familiares, a fraqueza de nossos caminhos de catequese, a desorientação interior de muitos que sempre se consideravam crentes, sem excluir alguns pastores.

 

A pandemia revelou uma Igreja “clericalista”

À luz desta visão, dom Mario Grech disse que, de um lado, “se os aspectos positivos devem nos convencer de que não podemos voltar a modalidades pastorais que existiam antes da pandemia, de outro lado, os aspectos negativos – entre alguns cristãos, consagrados e leigos – revelam um enfoque profundamente clericalista”. Por isso, destacou o prelado que, damo-nos conta de que, apesar dos repetidos chamados do papa Francisco para promover uma “Igreja em saída” capaz de se responsabilizar pelos homens e mulheres deste tempo como um “hospital de campanha”, a nossa segue sendo frequentemente uma “Igreja de sacristia”, distante das ruas ou com a intenção de projeta a sacristia à rua.

 

A sinodalidade como recurso para ir mais além da pandemia

Um segundo tema que desenvolver o secretário-geral do Sínodo dos Bispos durante a Conferência, centrou-se na “Sinodalidade como recurso para ir mais além da pandemia”. Neste sentido, dom Grech disse que a pandemia longe de desviar a atenção da agenda de reformas eclesiais, está relançando com força o tema da sinodalidade como “estilo” da Igreja. Esta expressão, do cristianismo como estilo, precisou o Prelado, foi lançada pelo teólogo francês Christoph Théobald, quem pretende afirmar, referindo-se simultaneamente ao Evangelho e ao Concílio Vaticano II, que “o cristianismo não se ocupa somente de alguns aspectos da vida humana, mas toca a existência em sua totalidade. O estilo cristão é uma forma de habitar o mundo, um modo específico que se inspira no exemplo de Jesus e imitado por seus discípulos ao longo da história da Igreja”.

 

O estilo cristão é um estilo sinodal

É por isso que o papa Francisco, desde o início de seu pontificado, ressaltou dom Grech, está nos ajudando a redescobrir que o estilo cristão é, necessariamente, um estilo sinodal. “A sinodalidade é tão antiga como a própria Igreja, visto que o Novo Testamento e a era dos padres já nos mostram o rosto de uma Igreja pluriministerial, atenta a valorizar os dons e carismas distribuídos a cada um pelo Espírito Santo, e disposta a resolver as questões mais complexas com a participação de todos, como no paradigmático Sínodo de Jerusalém, descrito nos Atos dos Apóstolos”. Assim que nos encontramos em um “retorno às fontes”, sobretudo se compararmos com os modelos de Igreja predominantes nos últimos séculos, claramente caracterizados pelo predomínio de uma disposição piramidal.

O “problema comum” poderá ser superado “caminhando juntos”

Neste contexto, a pandemia se revela como um momento excepcional para a Igreja, em que o “problema comum” só pode ser enfrentado e superado com um “caminhar juntos”. É por isso que a sinodalidade revela-se hoje como um dom precioso. “Como sabemos, Sínodo – afirmou dom Grech – significa caminhar juntos, a ideia de caminho e a ideia de estar juntos se fundem. Ou seja, apoiar-se mutuamente, experimentando ser um só Povo de Deus”. “A sinodalidade exprime a condição de sujeito que corresponde a toda a Igreja e a todos na Igreja – como explicou a Comissão Teológica Internacional num documento há dois anos – os crentes são sinodoi, companheiros de caminho, chamados a ser sujeitos ativos como participantes do único sacerdócio de Cristo e destinatários dos vários carismas concedidos pelo Espírito Santo em vista do bem comum”.

O estilo sinodal como proposta para a sociedade civil

A sinodalidade, no atual contexto de pandemia, apesar de ser um termo do léxico eclesial, pode se tornar uma proposta real para a sociedade civil. “Uma Igreja Sinodal é como uma bandeira erguida entre as nações em um mundo que muitas vezes entrega o destino de populações inteiras nas mãos gananciosas de pequenos grupos de poder. Como Igreja que ‘caminha junto’ com os homens, participa das dificuldades da história, cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço da autoridade ajude a construir a sociedade civil na justiça e na fraternidade, promovendo um mundo mais belo e mais digno do homem para as gerações que virão depois de nós”.

 

Sinodalidade um estilo que fortalece a fraternidade

Nesse sentido, afirmou o prelado, a sinodalidade, adotada como princípio operativo pelo mundo leigo, pode ser um estilo que fortalece as relações interpessoais e a fraternidade humana, combinando com os princípios de participação, solidariedade, subsidiariedade, a que se referem os documentos constitucionais de muitas democracias contemporâneas. A sinodalidade é um antídoto contra os pequenos grupos e nações egoístas fechados em si, e nos ajuda a apreciar a beleza de ser uma comunidade capaz de integrar criativamente as diferenças.

 

O bem comum é o bem integral da pessoa

Da mesma forma, a sinodalidade pode nos ajudar a repensar o mesmo conceito de “bem comum”, desejado pela doutrina social da Igreja. Em tempos de pandemia, a batalha contra o vírus só pode ser vencida em conjunto, graças a uma aliança entre diferentes atores. Esse conceito, de bem comum, muitas vezes foi mal interpretado em um sentido utilitário e materialista, ou seja, consiste na distribuição de bens e interesses por uma pluralidade de indivíduos. No entanto, também tem outro significado, não se limitando à dimensão econômica; um sentido segundo o qual o bem comum surge antes da concordância sobre quais valores e objetivos são dignos da pessoa humana, contribuindo para o seu “bem viver” e, portanto, é garantido a todos os membros da comunidade. O bem comum, visto nesta perspectiva, não tem a ver apenas com os “bens”, mas sobretudo com o “bem” integral da pessoa, ou seja, com o que permite aos membros de uma sociedade atingirem a plenitude

Uma comunidade global navegando no mesmo barco

Como afirma o Papa na sua última Encíclica, Fratelli Tutti, a sinodalidade “rima” com a fraternidade, ou seja, representa o pressuposto doutrinal e a tradução jurídica de um conceito – o de fraternidade – pertencente originalmente à esfera da reflexão moral. Na Encíclica, o Pontífice afirma claramente que, face à explosão da pandemia de covid-19, “ficou evidenciada a incapacidade de agir em conjunto. Apesar de hiperconectado, houve uma fragmentação que dificultou a solução dos problemas que afetam a todos”. Esta constatação, continua o Papa, “despertou durante algum tempo a consciência de ser uma comunidade mundial que navega no mesmo barco, onde o mal de um faz mal a todos. Percebemos que ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar juntos”.

 

Rumo ao próximo Sínodo

No final de sua apresentação, dom Mario Grech dedicou um espaço para falar sobre a próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, convocada pelo papa Francisco no dia 7 de março sobre o tema: “Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão”, trabalhos que foram adiados devido à pandemia. Por outro lado, a situação planetária atual pode oferecer ideias importantes para abordar de maneira correta um tema tão vasto e complexo, evitando um “recuo” da própria Igreja e de seus problemas, mas antes favorecendo uma ampla reflexão sobre a relação entre a Igreja e a sociedade contemporânea.

 

Um Sínodo sobre sinodalidade é abertura ao mundo

A agenda do Sínodo será definida nos próximos meses. Naturalmente, a fase preparatória será orientada pelos pedidos que chegarão desde as Igrejas particulares, as Conferências Episcopais e desde os Sínodos das Igrejas Católicas Orientais, sem que nada se estabeleça com rigidez de antemão.

De todas as maneiras, uma indicação segura encontramos na eleição que o Santo Padre realizou para este Sínodo: a referência à comunhão que permite enraizar a sinodalidade no mistério da Trindade, comunhão eterna das Três Pessoas Divinas, fazendo-nos compreender que a eclesiologia sinodal é um desenvolvimento coerente da eclesiologia da communio desenvolvida pelo magistério pós-conciliar; o convite à participação postula o compromisso de superar o clericalismo, redescobrindo a “individualidade eclesial” de todos os batizados, incluindo as mulheres, apesar da diversidade de ministérios e de dons recebidos; o chamado à missão confirma a convicção de que um Sínodo sobre sinodalidade não será um exercício de “introversão”, mas sim que deve favorecer o desenvolvimento de uma Igreja cada vez mais extrovertida, isso é, aberta ao mundo, ao que Cristo a envia para levar a Evangelii gaudium, a alegria do Evangelho.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja de escuta

Para alcançar estes objetivos, afirmou dom Grech, será necessário empreender de imediato uma escuta atenta de todas as vozes eclesiais, como aconteceu nos últimos Sínodos, incluindo o Sínodo Especial para a Amazônia, precedido por uma mobilização sem precedentes do Povo de Deus no vasto território amazônico.

A condição forçada de distanciamento social imposto pelo vírus obriga-nos a conceber novas formas de encontro e troca, exortando-nos a usar aquele dom especial do Espírito Santo que é a “fantasia” e a aproveitar as tecnologias digitais, que hoje, como nunca, podem nos ajudar a “encurtar distâncias”. Uma Igreja Sinodal é uma Igreja de escuta, com a consciência de que escutar “é mais do que ouvir”. É uma escuta recíproca em que cada um tem algo a aprender. Pessoas fiéis, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: um ouvindo os outros; e todos ouvindo o Espírito Santo, ‘Espírito da verdade’ (Jo 14,17), para saber o que ele ‘diz às Igrejas’ (Ap 2,7).

 

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