Por que os economistas heterodoxos fracassaram

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23 Novembro 2020

Divididos, os economistas heterodoxos não conseguiram se impor no debate e no ensino econômicos. Devemos construir uma abordagem alternativa para a economia dominante ou buscar mudá-la a partir de dentro?

A reportagem é de Christian Chavagneux, publicada por Alternatives Économiques, 13-11-2020. A tradução é de André Langer.

A constatação é cruel, mas real: após mais de dez anos de mobilização, os economistas heterodoxos, aqueles que contestam a perspectiva econômica dominante e suas comprovadas fraquezas, fracassaram. Eles querem mais pluralismo nos métodos (matemática e modelos corretos, mas não apenas), nas ideias (apoiar-se em Marx, Keynes e no vasto corpo de ideias econômicas e ver seus trabalhos reconhecidos) e mobilizar outras disciplinas, da sociologia à história, etc., para explicar a economia. Mas os ortodoxos, aqueles que controlam os orçamentos de pesquisa, indicam os professores e dirigem as revistas de prestígio, não querem saber de nada disso.

No entanto, esses ortodoxos pareciam ter começado mal, cujas duas principais afirmações pouco antes da crise de 2008 eram que as recessões pertenciam ao passado e que não existiam bolhas financeiras! Uma mega crise financeira e uma pandemia mais tarde, os fatos não mudaram nada. Não mais que a tonelada de livros criticando seus métodos. Não mais que as mobilizações em muitos países de movimentos estudantis e de professores clamando por uma mudança na situação. Por que, então, nessas condições bastante favoráveis, os heterodoxos fracassaram em mudar as coisas?

Quantas divisões?

O economista britânico Geoffrey M. Hodgson, um heterodoxo, vai direto ao ponto. No ano passado, ele publicou um livro intitulado L’économie hétérodoxe a-t-elle un avenir? (A economia heterodoxa tem futuro?) e sua resposta tende claramente para o não (1). Pedir mais pluralismo é muito bom, explica, mas para se impor no debate intelectual é preciso ser capaz de opor à economia dominante uma alternativa consensual em assuntos-chave (política econômica, salários, globalização, etc.). No entanto, os heterodoxos, divididos em múltiplas igrejinhas, nunca tiveram sucesso. E as batalhas podem ser travadas dentro de cada igrejinha. Na França, por exemplo, os “pós-keynesianos”, aqueles que reivindicam diretamente as intuições de Keynes (papel-chave da incerteza, da moeda, atenção às relações de força sociais e aos conflitos de distribuição, etc.), dividem-se em não menos que cinco correntes! (2)

Para a pesquisadora da Universidade Paris-Dauphine, Anne-Laure Delatte, o problema consiste principalmente em que “os heterodoxos cometeram o erro de rejeitar os métodos reconhecidos pela profissão. Se você quer influenciar a economia dominante, precisa concordar em dialogar com seus representantes, caso contrário eles não vão ouvi-lo e você permanecerá institucionalmente marginal”.

Mesma história com o economista americano Dani Rodrik, para quem os economistas da corrente dominante “estão intelectualmente fechados se você lhes disser: ‘seus métodos não são válidos’. Mas são muito abertos se você lhes disser: ‘seus métodos são bons, mas vamos mudar um aspecto particular, que lhe permitirá trabalhar com representações mais próximas da realidade’. Nós temos nossos hábitos de pensamento, e para fazer evoluir as nossas ideias devemos propor-nos melhores ideias falando a nossa língua” (3).

Não há problema para falar com o campo oposto, “mas para dialogar, precisamos de pessoas de mente aberta!”, exclama André Orléan, diretor de pesquisa da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Quando Pierre Cahuc e André Zylberberg, defensores dos economistas dominantes, publicam um livro contra os heterodoxos, intitulam-no Le négationnisme économique et comment s’en débarrasser (O negacionismo econômico e como se livrar dele), um panfleto de rara violência que recomenda banir do debate público as visões econômicas consideradas desviantes. Estarrecedor.

A alternativa não está morta

Na França, a Associação Francesa de Economia Política (Afep) foi criada em 2009 para promover uma forma diferente de fazer economia. Rapidamente se lança em uma batalha institucional chave: criar uma nova seção do Conselho Nacional de Universidades (CNU) que, ao lado da seção dos economistas dominantes, poderia recrutar, com critérios científicos rigorosos mas diferentes, heterodoxos. Em dezembro de 2014, a então ministra da Educação Nacional, Najat Vallaud-Belkacem, decidiu criar este novo júri. Isso desperta os protestos dos economistas dominantes, liderados pelos economistas Jean Tirole e Philippe Aghion, que jogam com sua influência política. Resultado: o caso volta para a presidência e o Palácio Eliseu veta a iniciativa.

De lá para cá, nada mudou. “O contexto macroniano de surdez, ou mesmo de fechamento total em relação a qualquer ideia pluralista, bloqueia tudo, explica Florence Jany-Catrice, presidente da Afep. Sob a presidência de Macron, nunca conseguimos ser recebidos em um nível político decisivo”. “E aqueles que nos receberam nem mesmo compreenderam do que estávamos falando!”, acrescenta André Orléan. Soma-se a isso a falta crônica de orçamento das universidades: eliminar os heterodoxos permite deixar mais espaço para os outros. E tanto pior para a diversidade de abordagens em economia e a qualidade do debate democrático.

No entanto, Florence Jany-Catrice mantém certo otimismo. A Afep tem 850 membros: “Foi formado um coletivo que não vai desaparecer. A perspectiva heterodoxa desperta vocações entre os jovens estudantes”. De maneira mais geral, as ideias heterodoxas se espalham informalmente. Depois da crise financeira e da pandemia, entendemos que o capitalismo é intrinsecamente instável, que as finanças precisam ser reguladas, que as questões ambientais ou as desigualdades devem estar no centro das reflexões dos economistas, o que estava longe de ser ganho há apenas alguns anos.

Uma vez dentro, deslocar os muros

Tudo isto é verdade, admite Anne-Laure Delatte, mas “há acadêmicos de muito prestígio que seguem os métodos reconhecidos e se colocam questões que desafiam o ponto de vista dominante: o custo do comércio internacional (Dani Rodrik), as desigualdades (Thomas Piketty), a evasão fiscal (Gabriel Zucman), etc.”. E eles são reconhecidos. Em todos os assuntos de política econômica, “se você quer influenciar a política, deve ter sido reconhecido pelos métodos estabelecidos”. E acrescenta: “Se você quer fazer um estudo empírico original, você precisa de dados! Porém, para obtê-los ou simplesmente saber que existem, é preciso estar ‘infiltrado’, estar nas redes certas, etc.”.

Em suma, a melhor estratégia não seria concordar em passar pelas “forcas caudinas” da economia dominante e, uma vez lá dentro, deslocar os muros? Em todo caso, para Jean-François Ponsot, professor heterodoxo de economia da Universidade de Grenoble, “os avanços não são feitos por revoluções que se originam da heterodoxia; eles vêm de economistas mainstream abertos. São eles que realmente fazem as coisas avançarem. É preciso dialogar com eles, isso os incentiva a se fazerem perguntas”. Além do mais, quando Thomas Piketty publica artigos de pesquisa, adere aos métodos da corrente dominante, como fazem Paul Krugman, Joseph Stiglitz ou Dani Rodrik. Eles construíram reflexões sólidas que justificam a regulação do mercado, o combate às desigualdades, um pouco menos de globalização ou a regulação ambiental. O que alimenta o debate democrático.

“Não podemos esperar até que tenhamos publicado dois milhões de livros ou recebido o Prêmio do Banco da Suécia em Economia para mudar as coisas, ou vamos esperar muito tempo!”, retruca Florence Jany-Catrice. “A crítica interna à disciplina é totalmente insuficiente para analisar o capitalismo contemporâneo: é preciso apreender o aspecto institucional da moeda para entender seu papel. Podemos, de fato devemos, pensar de outra forma as mudanças climáticas, assim como a depreciação do capital natural a partir de uma perspectiva puramente monetária da natureza, etc. Precisamos de métodos diferentes; os dos economistas dominantes ainda são muito limitados”. Limitações que Anne-Laure Delatte reconhece prontamente: “Com os métodos empíricos atuais e a abundância de dados, a hiperespecialização é recompensada. Há então o risco de perdermos em visão de conjunto e, portanto, em relevância, e de não nos abrirmos aos outros”.

Sair da economia

É por isso que são cada vez mais numerosos os heterodoxos que estão tomando outro caminho: sair da economia. A socioeconomia, na encruzilhada da sociologia e da economia, construiu suas redes, seus periódicos, seus modos de reconhecimento. Nos países anglo-saxões, a economia política internacional, que se interessa pelas questões de poder na globalização e se posiciona na encruzilhada da ciência econômica, da ciência política e da história, tem seus mestres, seus alunos de doutorado, seus colóquios, etc. Essa estratégia de exit (saída) permite que os pesquisadores avancem com suas ideias em um ambiente propício. Mas abandonando a economia.

Por enquanto, esse é o único caminho possível, “não temos mais nada em comum com o mainstream, pois nos tornamos duas comunidades científicas distintas”, afirma a presidenta da Afep. “Se as decisões de recrutamento de professores fossem descentralizadas nas universidades, muitas delas fariam escolhas mais diversificadas”, indica André Orléan. Mas a decisão de permitir que um mestre de conferências se torne professor cabe ao CNU, sendo que alguns dos seus membros são indicados pelo governo. A decisão política, portanto, desempenha um papel fundamental. “É evidente que ela não nos é favorável hoje”, lamenta Florence Jany-Catrice. O ensino de economia na França é feito de tal maneira como se houvesse apenas uma escola de jornalismo e seus professores viessem apenas do Le Figaro! “Então, temos que atualizar o nosso balanço de recrutamentos para mostrar que os heterodoxos estão sendo eliminados institucionalmente. Criar uma nova seção do CNU continua sendo nosso objetivo, pois é a única solução. Haverá eleições em 2022. Esperamos a nossa hora...”.

Notas

1. Is there a Future for Heterodox Economics?, Edward Elgar, 2019.

2. L’économie post-keynésienne. Histoire, théories et politiques (Economia pós-keynesiana. História, teorias e políticas), de Eric Berr, Virginie Monvoisin e Jean-François Ponsot (dir.), Seuil, 2018.

3. Ver nossa entrevista de 22 de novembro de 2019 clicando aqui.

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