Alguns horizontes práticos, poéticos e proféticos da Economia de Francisco e Clara

Coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”

20 Novembro 2020

Neste sábado em que se encerra o encontro virtual Economia de Francisco, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU publica dois artigos de participantes brasileiros, jovens e seniores, enviados para a coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”.

O primeiro texto, apresenta a proposta de criação das Casas de Francisco e Clara, surgida em conversas entre seniores do Economy of Francesco na Itália, em especial das Vilas Agricultura e Justiça e Energia e Pobreza. A convite feito por Maurizio Pitzolu, coordenador de Vila, ao padre Vilson Groh para que a periferia de Florianópolis pudesse e possa ser o germe da primeira Casa.

O segundo texto, em formato de poema e manifesto, os jovens da Vila Vida e Estilo de Vida expressam os compromissos para a continuidade do processo da Economia de Francisco.

Ao final, confira o vídeo do evento Economia de Francisco. A construção de uma economia que faz viver e não mata, promovido pelo IHU na quarta-feira, 18-11-2020.

 

Ide, reconstruí, Casas de Francisco e Clara

 

Experiência mística, laboral, territorial da Economia de Francisco e Clara surge na periferia e quer ocupar o Brasil.

A Economia de Francisco e Clara chega a seu momento de celebração global. Passados mais de um ano da carta do Papa Francisco a “realmar a economia” no mundo inteiro, jovens, pesquisadores/as e ativistas apresentam suas propostas em resposta a esse chamado. Para o Brasil, duas iniciativas surgem da Articulação Brasileira e Vilas temáticas para as quais as juventudes selecionadas para o encontro com o Papa foram destinadas. São a Aliança Mulher Mãe Terra, e as Casas de Francisco e Clara, projetos que se entrelaçam e se complementam. Enquanto a Aliança apresenta uma agenda global pelo acesso das mulheres à terra como condição sine qua non para a soberania alimentar no mundo, as Casas de Francisco e Clara nascem como lugares de vivência e imersão, através dos quais a prática da Economia de Francisco e Clara acontece na vida das comunidades.

A urgência histórica de superar essa economia que mata é um grande desafio, pois a ideologia neoliberal invadiu todos os setores das vidas das pessoas. É a monetização do pensamento, dos sentimentos e das ações, que envolve todos no tecido de uma economia da indiferença e da violência. A fim de superar este paradigma tecnocrático, indiferente, que segue descartando coisas e pessoas, a proposta da Economia de Francisco e Clara é construir um contra-pensamento e uma contra-conduta que apontem para o bem viver entre os povos a partir de uma economia a serviço da vida.

O convite, portanto, é reaprender a viver no mundo na tarefa de convergir, em múltiplos espaços juvenis e formativos, esta raiz metodológica do pontificado do Papa Francisco: a cultura do encontro. A Casa de Francisco e Clara é esse chamado a todas as pessoas, especialmente às juventudes, de experienciar ecologias e economias de maneira integral. As juventudes serão convidadas a perceber nas brechas da economia real, as fissuras do mercado, que segue descartando pessoas e, através do encontro com os empobrecidos resgatar elementos reais para reconstruir novas interações ecológicas e econômicas, a partir de outras lógicas, dialógicas e inclusivas, por outras economias, criativas, populares e solidárias.

A prática da territorialização é o tecido místico, a teia da vida na qual as juventudes são convidadas a encarnar-se. Com ternura e vigor chegar, amar e fazer com as pessoas, através de uma relação visceral com suas esperanças, com a meta de construir condutas e pensamentos que apontem a percepção de que as pessoas tornaram-se servas de sistemas econômicos desterritorializados e desalmados. Enraizar as bandeiras das juventudes nas lutas do povo e com o povo, sujar as mãos no trabalho comunitário, propor pactos, reunir diferentes, realmar as periferias com o que ela tem de mais poderoso: a capacidade coletiva de construir outras formas de sociabilidade, de se organizar e se (re)descobrir.

Neste mutirão de reconstruir Casas de Francisco e Clara, apontamos 10 eixos místicos que fundamentam este movimento surgente do seio das comunidades a espalhar-se por todo o Brasil:

Convidamos todas as juventudes e ativistas a se somarem a este projeto que nasce do chamado do Papa Francisco para fazermos com as Casas de Francisco e Clara uma revolucionária força sociopolítica a partir dos/as pequenos/as.

O primeiro lugar que essa iniciativa surge é no morro Monte Serrat, na periferia de Florianópolis, onde padre Vilson Groh vive e realiza junto ao povo há 40 anos trabalhos comunitários. Esta experiência piloto é um convite a todo o povo, para reconstruir em cada chão sagrado desta nação e do mundo um novo pacto ecológico e social: em comunidade, pela fraternidade e na unidade do amor.

 

Autores

Pe. Vilson Groh, vigário em Florianópolis, é sênior para o evento “A Economia de Francisco”

Gabriela Consolaro, de Florianópolis, é jovem selecionada para o evento “A Economia de Francisco”

Andrei Thomaz Oss-Emer, de Pelotas, é jovem selecionado para o evento “A Economia de Francisco”

Eduardo Brasileiro, de São Paulo, é jovem selecionado para o evento “A Economia de Francisco”

 

Poema e Carta Manifesto da Vila Vida Estilo de Vida do Brasil

Apresentados no dia 20 de Novembro de 2020 na maratona brasileira do Encontro Internacional da Economia de Francisco.

 

Poema: Solta o verbo

Quem somos? Pra onde vamos?

Com o estilo de vida que levamos.

Pra que serve o poder? O ter?

Se não pudermos Bem-viver?

 

Bem viver natureza e humanidade

E que a VIDA seja centro, prioridade

Onde uns não tenham tanto e outros quase nada

Especialmente, a Mãe Terra seja respeitada.

 

Pindorama, Brasil colonizado,

Sejamos, nós, hoje, um contraponto a esse projeto forjado.

O mundo precisa de mudanças radicais,

Dando alma a economia, reduzindo as desigualdades sociais.

 

Quando despersonalizamos os rios, o céu, florestas, montanhas e animais,

Adotamos a história de 1520 anos atrás,

Nos orientando pelo poder colonial,

Que se reinventa, de maneira brutal.

 

Chega de subalternizarmos pessoas e negligenciarmos nossos recursos naturais,

Mudemos de vida com atitudes decoloniais

O bem viver, dos povos originários, nos ensina a construir modos de vida,

Sem acumulação de capital. Um contraponto à essa economia corrompida.

 

Utopia para uns e umas…

Luta para outros e outras

Que acreditam que sonhar é motivação

E amar, revolução!

 

Precisamos re-verberar o Amor

Amor de muitas cores, das diversas naturezas e dom

Especialmente as que o declaram em alto e bom tom

 

Quando foi que deixamos de ouvi-lo?

O que cerrou nossos olhos para não mais conseguir vê-lo?

A brisa nas janelas trás o seu perfume,

Mas nem sempre conseguimos percebê-lo.

 

Onde foi que nos perdemos?

Por que o aprisionamos?

Sua voz em toda língua pode se expressar

E ainda assim nem sempre compreendemos o seu pulsar

 

Ainda que falássemos todos os dialetos

Sem Amor nada seria concreto

O Verbo destituiu-se da sua Glória, entre nós veio habitar

Para nos ensinar a amar

Ele se faz presente, no oriente e no ocidente

Infelizmente quem o limita é gente

 

Destrava nossos sentidos, Ilumina a nossa voz,

Para fazer brotá-lo em nós

Sonhamos com nossa transformação,

Com nosso despertar num mundo mais irmão.

 

Temos sede de aprender seguir seus passos

Poder te ouvir no canto dos riachos

Desde o Sol raiar até se esconder no mar.

Queremos saber soltá-lo de dentro de nós, o libertar

Para fazer o Amor, enfim, re-verberar!

 

Vamos gritar, contar e reinventar nossa história,

Por um Brasil realmado, com significativas memórias.

Sem mais descobrimentos, sem mais invasão,

Por uma nova economia, vamos unir nossas mãos.

 

Carta-Manifesto

A vida, semente que germina pela paciência e colaboração coletiva da natureza, é regada pela seiva do estilo de vida, que para tantos e tantas é determinado ao nascer, estigmatizado por simplesmente ser o que se é.

Nós, da Vila Vida e Estilo de Vida do Brasil, queremos que o pulsar que faz a planta rasgar a terra, esteja na direção da vida em abundância. Que a possibilidade da existência seja aproveitada com equidade, de maneira profunda, real e livre. Não simplesmente oferecida, mas assegurada e protegida.

Acreditamos que não se deve pensar qualquer “estilo de vida” sem que a vida seja possível para todos. Sem que as periferias estejam no centro do debate, que as mulheres, a população negra, indígena, LGBTQI+, sejam valorizadas. Sem que os olhares do mundo se voltem para o Sul Global, de onde já foram extraídas tantas riquezas, culturas e vidas.

Não há como começar a falar de vida, sem que falemos da necessidade de ser resguardada e devolvida a vida dos povos.

Nesse pacto, toda vida deve ser cuidada. O estilo das vidas deve se voltar ao restabelecimento da harmonia da Nossa Casa Comum, pois sabemos que o fogo na Amazônia e no Pantanal queima também em nós. Por isso, das pequenas às grandes práticas, é hora de prezar pela proteção da Mãe Terra. Romper com o atual sistema econômico de produção, incentivar pequenos agricultores locais, aproximar o campo da cidade, além de extinguir desigualdades estruturais e sociais, precisam ser incorporadas ao nosso cotidiano.

Nessa caminhada de retomada da soberania dos povos, cada corpo e mente deve estar em sintonia com os ideais da Economia de Francisco e Clara. Devemos repensar nossos hábitos de consumo, de individualismo e egoísmo, nossos hábitos alimentares, conexões espirituais, nossos relacionamentos com o próximo, com a sociedade e com nós mesmos, que carrega as nossas lutas e convicções.

Nós, da Vila Vida e Estilo de Vida do Brasil, estamos do Norte ao Sul do país realizando diálogos e ações de combate às injustiças e desigualdades fomentadas por uma Economia que mata, exclui, degrada e gera pobreza.

Lutamos e seguiremos lutando para que a Economia de Francisco e Clara não seja apenas lembrada, mas acolhida e praticada por todas e todos nós. É necessário coragem.

Paz e Bem!

 

Autores

Camilla Callado, Elis Alberta Ribeiro dos Santos (Irmã da Divina Providência), Elizabeth dos Santos Machado, Gabriela Consolaro Nabozny, Glenda Sábio (Irmã Franciscana), Guilherme Barrera, Josimar Priori, Klaus Raupp, Letícia Couto (Leka), Letícia Framesche e Nicolli Ribeiro.

 

Economia de Francisco. A construção de uma economia que faz viver e não mata

  

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