McCarrick: Igreja, sexo e mentiras. Artigo de Frédéric Martel

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20 Novembro 2020

A investigação sobre o ex-cardeal que caiu em desgraça fez com que o dedo culpado fosse apontado contra o Papa João Paulo II e seus conselheiros mais próximos. Mas Frédéric Martel, autor de um best-seller sobre a cultura do encobrimento no Vaticano, argumenta que o escândalo foi fruto da hipocrisia em torno da sexualidade.

"O relatório descreve como Theodore McCarrick subiu na hierarquia para se tornar, primeiro, bispo auxiliar, depois bispo diocesano e, por fim, em 2000, arcebispo, com um barrete vermelho que chegou no ano seguinte – tudo isso apesar das preocupações levantadas repetidamente por algumas figuras importantes sobre a má conduta sexual de McCarrick", escreve Frédéric Martel, professor universitário, escritor, jornalista francês e autor de “No armário do Vaticano: poder, hipocrisia e homossexualidade” (Ed. Objetiva, 2019), em artigo publicado por The Tablet, 18-11-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O Papa João Paulo II está estendido sobre um tapete vermelho cerimonial, ainda segurando a sua cruz papal cerimonial, atingido por um meteorito. Como explicou o escultor Maurizio Cattelan, “La Nona Ora” (“A Nona Hora”), exibida pela primeira vez em 1999, representa o Santo Padre esmagado pelos pecados do mundo. É uma imagem que tem me assombrado nesta semana, enquanto uma série de eventos dramáticos levantou questões sobre o juízo do Papa João Paulo II e ameaçou azedar o legado do seu papado.

Há duas semanas, o canal de televisão polonês TVN24 transmitiu o documentário “Don Stanislao: the Other Face of Cardinal Dziwisz [Pe. Stanislao: a outra face do cardeal Dziwisz], um documentário de Marcin Gutowski. Ele despertou uma imensa emoção em todo o país. Karol Wojtyla havia nomeado Stanislaw Dziwisz como seu secretário particular em outubro de 1966, quando ele era arcebispo de Cracóvia; Dziwisz e Wojtyla viajaram juntos para os conclaves papais de agosto e outubro de 1978; e Dziwisz serviu como secretário particular de João Paulo II ao longo do seu pontificado de 27 anos. Ele foi criado cardeal em 2006.

No documentário de Gutowski, Dziwisz é denunciado por ter ajudado a encobrir vários casos de abuso sexual em todo o mundo. Ele alega que Dziwisz tinha pleno conhecimento dos terríveis crimes de abuso sexual infantil cometidos por Marcial Maciel, o fundador mexicano da Legião de Cristo, mas não agiu. Milhões de poloneses ficaram escandalizados com essas revelações, que também lançaram uma sombra sombria sobre o caráter e o julgamento do “seu” Papa, um santo nacional.

No dia seguinte à transmissão do documentário sobre Dziwisz, o arcebispo Luigi Ventura, ex-embaixador vaticano na França, foi julgado à revelia por cinco acusações de suposta agressão sexual. Ventura, que, assim como Dziwisz, negou repetidamente qualquer irregularidade, apresentou um atestado médico dizendo que era muito perigoso para ele viajar de Roma a Paris.

Um de seus acusadores testemunhou que havia sido expulso do seminário após denunciar à polícia que havia sido apalpado repetidamente por Ventura durante a celebração da missa em dezembro de 2018. O promotor pediu 10 meses de prisão para o ex-núncio. O tribunal dará seu veredito no próximo mês.

E, no mesmo dia, o Vaticano divulgou o agora famoso Relatório McCarrick, que leva o nome do ex-cardeal estadunidense que caiu em desgraça e foi laicizado em fevereiro do ano passado, depois de se descobrir que ele havia abusado sexualmente de menores, jovens e seminaristas durante vários anos.

Em detalhes excruciantes, o relatório descreve como Theodore McCarrick subiu na hierarquia para se tornar, primeiro, bispo auxiliar, depois bispo diocesano e, por fim, em 2000, arcebispo, com um barrete vermelho que chegou no ano seguinte – tudo isso apesar das preocupações levantadas repetidamente por algumas figuras importantes sobre a má conduta sexual de McCarrick.

O relatório deixa surpreendentemente claro que uma atitude de “laissez-faire” em relação aos rumores de maus comportamentos sexuais permeava a Cúria Romana nos anos do papado de João Paulo II.

Tendo sido uma das testemunhas oficiais no julgamento de Ventura em Paris, tendo sido um dos entrevistados no documentário da TVN24 e tendo descrito em detalhes chocantes o funcionamento interno do Vaticano nos casos McCarrick, Marcial Maciel e muitos outros semelhantes no meu livro “No armário do Vaticano: poder, hipocrisia e homossexualidade”, não pude deixar de sentir um furtivo sentimento de vingança – e ao mesmo tempo de profunda ansiedade.

Em cada caso, as nomeações descuidadas e os fracassos letárgicos de agir que permitiram que os perpetradores de abuso e agressões continuassem tranquilamente provocando estragos podem – infelizmente – ser rastreadas até um punhado de figuras do círculo mais próximo de João Paulo II. O nome de Stanislaw Dziwisz é citado 45 vezes no Relatório McCarrick. O cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado de 1991 a 2006, consagrou Luigi Ventura bispo em 1995 e o nomeou núncio no Chile em 1999; e, na minha opinião, Sodano desempenhou um papel fundamental na nomeação de McCarrick para Washington.

Outras pessoas próximas a João Paulo II incluem o cardeal colombiano Alfonso López Trujillo, presidente do Pontifício Conselho para a Família que fulminava contra os males da homossexualidade, embora dormisse com prostitutos e depois os espancasse.

No meu livro, eu descrevo Trujillo como “um daqueles homens que buscam poder a fim de fazer sexo e buscam sexo a fim de ter poder”. Quanto ao arcebispo Carlo Maria Viganò, o ex-núncio nos Estados Unidos que se enfurece veementemente contra o Papa Francisco como protetor de McCarrick, e muitas coisas piores, a investigação completa pela qual ele clamava revela que ele é uma figura-chave no encobrimento de McCarrick. “C’est l’arroseur arrosé” – que pode ser traduzido grosso modo como “o tiro saiu pela culatra”.

É claro que foram Dziwisz e Sodano, os braços direitos de João Paulo II, que contorciam o braço do papa. Seus nomes tendem a surgir sempre que as vítimas e os sobreviventes de abusos – sejam do Chile, do México, da Irlanda, da França, da Áustria ou dos Estados Unidos – abrem ações judiciais ou escrevem cartas abertas de protesto. Por muito tempo, esse par político foi alvo de fofocas, foi atacado pela imprensa, criticado pelas vítimas de abuso sexual e retratado por vários escritores como os arquivilões da chicanice e da trapaça vaticanas ao longo dos anos 1980 e 1990.

Hoje, ouvem-se vozes que pedem nada menos do que a “descanonização” de João Paulo II. No México, no Chile mas também nos Estados Unidos e na França, muitos estão começando a acreditar que João Paulo II foi um “mau papa”, cúmplice de dezenas de casos de abuso sexual de menores.

Eu não estou convencido disso. Não há nenhuma evidência, neste ponto, de que João Paulo II não acreditou sinceramente nos protestos de inocência de McCarrick e Maciel. Eu sempre pensei que a saúde de João Paulo II estava piorando já nos anos 1990, que ele não tinha mais energia – ou talvez interesse – para a gestão dos assuntos do dia a dia, e que o controle do Vaticano havia efetivamente passado para Sodano e Dziwisz.

É por isso que eu acho muito importante, enquanto esses dois cardeais ainda estão vivos, que o comportamento deles seja devidamente investigado. Isso permitiria que eles explicassem seus silêncios e negações, e defendessem sua suposta cumplicidade em dezenas de casos em que abusadores conhecidos foram protegidos ou promovidos.

Não se trata de presumir a culpa deles. “Quem sou eu para julgar?”, como diz o ditado da moda. Será apenas uma investigação completa e transparente sobre o papel dos seus conselheiros mais próximos que salvará o legado do papa polonês como “João Paulo, o Grande”.

A responsabilidade pelo fiasco McCarrick – e pelos escandalosos erros de julgamento relacionados – não cabe unicamente a um círculo de consultores. McCarrick, Sodano, Dziwisz, aqueles bispos dos EUA que são castigados no Relatório McCarrick por não darem uma resposta honesta às perguntas de Roma sobre a aptidão de McCarrick para promoção: não se trata de algumas maçãs podres, ou do fato de que este ou aquele prelado não disse a verdade, ou escondeu o que sabia.

As razões são mais profundas e sistêmicas. Entre outras, estão a fluidez em relação à verdade em prol da proteção da instituição; o clericalismo e a sua cultura do sigilo; e, é claro, a corrupção política e financeira rotineira tão deprimentemente galopante no Vaticano, assim como em todas as outras instituições.

Mas uma falha sistêmica alimenta e amplifica todas as outras. É a desonestidade em relação à homossexualidade que levou à cultura do encobrimento, que se estendeu de forma tão catastrófica à esfera do abuso de menores. A grande maioria das pessoas que tomam essas decisões eram (são) homens gays desonestos, que jogam de acordo com as regras do jogo por meio do qual eles protegem a desonestidade uns dos outros e apenas “sabem” aquilo de que precisam saber para tomar decisões de forma que não coloque seus próprios segredos e mentiras em risco.

O problema não são, como nos dizem os comentaristas católicos conservadores, os “padres homossexuais”. O problema é a desonestidade, a impossibilidade de homens gays que atuam como padres católicos de serem honestos sobre quem eles são – e a exigência institucional de mentir para sobreviver.

Essa é a chave que desvenda o quebra-cabeça por trás de todos esses casos. A menos que a Igreja seja corajosa o suficiente para assumi-la, o bravo e santo João Paulo II não será o último papa a ser injustamente esmagado pelos pecados do mundo.

 

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