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19 Novembro 2020

“Inútil sonhar a partir das nuvens. O sonho somente pode ganhar asas e voar quando tem os pés firmemente fincados no solo. O mosaico das experiências sociais é múltiplo, plural, complexo e diversificado. Antes de reunir as ilhas solitárias do arquipélago e começar a construção, deve-se pensar numa séria e responsável abertura ao diálogo. Esta última tarefa, por si só, é já um salto de qualidade”, escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais e vice-presidente do SPM – São Paulo.

Eis o artigo.

 

A pandemia de Covid-19 e as recentes eleições fizeram emergir diversas iniciativas populares. Ações coletivas e solidárias se multiplicam por todo território nacional. Algumas figuras, antes desconhecidas, também têm emergido. Em determinadas regiões, inclusive, chegaram à disputa eleitoral. Poderíamos afirmar, talvez com alguma margem de erro, que o hemisfério dos que lutam pelas mudanças sociais ainda é amplo e variado. De um ponto de vista local ou regional, chega a ser robusto, plural e vigoroso. Mesmo nestes tempos de retorno da extrema-direita e do populismo nacionalista, as forças empenhadas na transformação social e política (evito de forma deliberada a terminologia de “forças de esquerda”), continuam vivas e ativas. E esta constatação segue sendo uma boa notícia. O lado positivo da crise que estamos atravessando.

Ao lado dessas luzes, porém, não faltam sombras. O lado negativo dessa emergência de novas lideranças e de atividades criativas é que, em sua maioria, elas surgem como verdadeiras ilhas isoladas entre si. Nascem e crescem de forma autossuficientes. Dificilmente se comunicam e não costumam erguer pontes. É escasso o intercâmbio e a troca de saberes entre umas e outras. Como se as estrelas não conversassem entre elas, e menos ainda com os planetas. Prevalece a tendência de se agarrar com unhas e dentes aos próprios “sucessos, descobertas e milagres”, por mais pequenos e incipientes que sejam. Numa palavra, o grande hemisfério dos compromissos e avanços sociais parece estar num processo centrífugo de fragmentação e esfacelamento. E esse processo, cabe sublinhar, não coincide com o início da pandemia, mas pode ter adquirido força redobrada em consequência desse flagelo universal.

A fragmentação existe não somente na política ou nas distintas instituições da sociedade civil, mas também no interior das igrejas, movimentos sociais, organizações não governamentais e nas iniciativas populares. Trata-se de uma pulverização que, de resto, segue muito de perto o esgarçamento global do próprio tecido social. Vale trazer à pauta, como pano de fundo, o tema de um individualismo cada vez mais exacerbado na sociedade pós-moderna. O olhar individual concentra-se sobre o próprio umbigo. Tanto no mundo real quanto no universo virtual, respira-se um egocentrismo que se verga quase que unicamente ao prazer e aos interesses pessoais, familiares ou corporativistas. Determinados analistas falam de “sociedade atomizada”, outros tentam identificar a formação de novas “tribos”, seja com referência aos grupos das redes sociais, seja levando em consideração o mundo contemporâneo e urbanizado.

Descortina-se uma via no horizonte. O contexto sócio-histórico fragmentado, de uma parte, e a urgente necessidade de mudanças estruturais, de outra, desenha hoje um desafio inevitável e inadiável. Impõe-se a pergunta: como juntar os cacos e reerguer o edifício de uma ação conjunta e sócio transformadora? E como fazê-lo envolvendo as propostas e atores distintos? Ou então, como traçar um plano de atividades que, excluindo os vícios, nós e entraves do voluntarismo e do personalismo, tenha em conta ao mesmo tempo um protagonismo eficaz e com raízes no chão? Em outras palavras, não basta juntar os cacos, não basta uma justaposição de peças ou de pedaços. É preciso saber o lugar de cada um no caleidoscópio daquilo que por algumas décadas se convencionou chamar de “projeto popular para o Brasil”.

Inútil sonhar a partir das nuvens. O sonho somente pode ganhar asas e voar quando tem os pés firmemente fincados no solo. O mosaico das experiências sociais é múltiplo, plural, complexo e diversificado. Antes de reunir as ilhas solitárias do arquipélago e começar a construção, deve-se pensar numa séria e responsável abertura ao diálogo. Esta última tarefa, por si só, é já um salto de qualidade. Mas o será ainda mais quando nos damos conta de que a fragmentação apontada vem acrescida de uma polarização que estica a corda ao extremo. Temos, portanto, um desafio em dupla dimensão e aparentemente paradoxal: por um lado, superar a distância entre as ilhas, de ouro, confrontar e aproximar visões contrárias.

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