Maria Victoria Benevides: 2° turno é teste concreto para frente de esquerda

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19 Novembro 2020

“Muita gente nem acreditava que Boulos ia para o 2° turno. Estava com 16% e chegou com 20%. Pode haver um salto assim também, agora”, diz historiadora.

A entrevista é de Eduardo Maretti, publicada por Rede Brasil Atual, 17-11-2020.

O candidato do Psol à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, demonstrou mais segurança do que Bruno Covas (PSDB) no primeiro debate do segundo turno nas eleições de São Paulo. “Boulos conhece bastante bem os principais problemas da cidade. Moradia, transporte, saneamento básico, emprego, tudo o que afeta os que já são mais vulneráveis”, diz a cientista política e historiadora Maria Victoria Benevides.

O candidato do campo progressista na capital paulista já recebeu apoio de PT e PCdoB e dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff nas redes sociais, entre outras lideranças. Ciro Gomes, do PDT, que apoiou Marcio França (PSB), também manifestou apoio a Boulos.

Voz muito respeitada no meio acadêmico paulista, de longa trajetória na Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Comissão Arns, Maria Victoria afirma ter perspectivas positivas em relação à definição do próximo prefeito paulistano.

“Estou otimista em relação ao segundo turno”, diz, em entrevista à RBA. “Se Boulos furar o teto desse eleitorado que votou no Covas, e também no Russomanno, eleitorado evangélico da periferia, nesse ponto fico otimista. Os últimos dados que a gente sabia no primeiro turno é que ele tinha de 13% a 16%, com os 3% a mais ou a menos. Ele acabou com 20. Isso pode acontecer de novo.”

De um ponto de vista mais amplo, relativo à esquerda nesse momento histórico, a professora acredita que o desafio é grande. “Vai ser um teste muito concreto para se avaliar de quê estamos falando quando insistimos numa frente única de esquerda. Uma coisa é a frente ampla, que ultrapassa as fronteiras da esquerda. Outra coisa é uma frente de esquerda. Quem estará acompanhando o PT na sua adesão à candidatura do Boulos contra Covas?”, questiona.

Eis a entrevista.

Como a senhora avalia as eleições em São Paulo?

Não votei nas prévias do PT. Se não tivesse pandemia, eu teria votado no (Alexandre) Padilha, desde o começo, quando a eleição interna no PT para definição do candidato escolheu o (Jilmar) Tatto – principalmente devido à desistência do Haddad. Votaria em Padilha, inclusive, porque ele extrapola mais o PT do que o Tatto, que está ligado a uma região de São Paulo, a periferia da Zona Sul, e faz parte de um clã familiar e político.

Com todas as qualidades que eu conheço dele – inclusive o Fernando Haddad me disse que Tatto foi um ótimo secretário de transportes –, desde o começo eu não me entusiasmei com sua candidatura. Entendia que muitos petistas de carteira assinada iam votar no Boulos quando a candidatura dele ficou certa. É sempre bom lembrar que Boulos se comprometeu a só sair candidato se Haddad não se candidatasse. Não se pode, de maneira alguma, dizer que Boulos prejudicou a esquerda. Nada disso. Tatto estava perfeitamente ciente do crescimento de Boulos.

Ele preferiu ficar até o fim. Aliás, até por um motivo que considero bastante razoável, que era não prejudicar os vereadores. E aí eu acho interessante que o PT tenha conseguido eleger oito vereadores em São Paulo. Não apenas isso, mas no país todo, elegeu muitas mulheres, negros e até indígenas. Isso é da maior importância para o partido.

E o segundo turno em São Paulo?

Vai ser um teste muito concreto para se avaliar de que estamos falando quando insistimos numa frente única de esquerda. Uma coisa é a frente ampla, que ultrapassa as fronteiras da esquerda. Outra coisa é uma frente de esquerda. Quem estará acompanhando o PT na sua adesão à candidatura do Boulos contra Covas?

A esquerda, num primeiro momento, dá resposta razoável à candidatura do Boulos?

Tenho visto nas redes sociais gente que votou no Tatto, o defendeu até o fim, e posta que “agora é Boulos” etc. Só não haverá uma união de todos os petistas à candidatura de Boulos se houver muita mágoa e ressentimento, o que é sempre péssimo na política.

Mas uma coisa é a gente se referir aos petistas, e outra coisa é quem vota no PT, que não é necessariamente petista. Que eleitorado será esse? Será o do PDT? E o grupo do Ciro? E o PSB, o França? O grupo mais ligado ao França talvez não queira fazer parte dessa frente de esquerda, embora se digam Partido Socialista Brasileiro. A gente tem sempre que distinguir o voto partidário e o voto não partidário, mas que escolheu determinado candidato. Estou otimista em relação ao segundo turno.

Por que otimista?

No primeiro debate, o Covas não foi bem. O Boulos foi muito melhor do que ele, mas já está havendo em relação à Manuela, em Porto Alegre, um terrorismo político nas redes sociais, falando do comunismo anticristão etc. E sobre o Boulos, dizem que vai invadir prédios, casas etc.

Mas muita gente nem acreditava que ele ia para o segundo turno. Estava com 16% e chegou com 20%. Pode haver um salto assim também, agora. Há muita desconfiança em relação ao vice do Covas. Até por uma coisa muito desagradável: pelo fato de Covas ter uma doença, o vice é importante, e o vice está muito enrolado aí, com uns assuntos (vereador Ricardo Nunes do MDB, suspeito de violência doméstica em 2011).

Se Boulos furar o teto desse eleitorado que votou no Covas, e também no Russomanno, eleitorado evangélico da periferia, nesse ponto fico otimista. Os últimos dados que a gente tinha no primeiro turno é que ele tinha de 13% a 16%, com os 3% a mais ou a menos. Ele acabou com 20. Isso pode acontecer de novo.

Houve algumas críticas à postura de Boulos no debate da CNN, de que assumiu uma postura “Boulos paz e amor”, o que seria ruim para ele…

No primeiro debate ele demonstrou mais segurança do que Covas, inclusive em relação aos problemas da cidade. Boulos conhece bastante bem os principais problemas. Moradia, transporte, saneamento básico, emprego, tudo o que afeta os que já são mais vulneráveis. Eu não vejo o Boulos indo na linha “paz e amor”. Se for por essa linha, não vai dar certo. Nem a Erundina vai na linha “paz e amor”. Ela se afirma socialista, diz que quer realmente mudar, que não vai ser tudo de uma vez só, mas tem que se encaminhar para mudanças.

Que eleitorado Boulos precisa conquistar?

Acho que vai precisar explicar melhor sua ligação com o movimento dos sem-teto. O eleitorado mais conservador não vai votar nele, mas o eleitorado tucano, civilizado, mais intelectualizado… De qualquer maneira, se ele não melhorar seu alcance, sua voz nas periferias, não vai conseguir.

No dia da eleição eu vi na televisão o grupo de pessoas que estava acompanhando Boulos no local de votação. Todo mundo de máscara, mas deu para ver que tinha muita juventude universitária, que não é o público para quem ele defende políticas públicas. O tempo que ele tiver até o dia 29, esse eleitorado que votou nele, ele já ganhou. Vai ter que lutar voto a voto na periferia. Zona Leste, basicamente.

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