O apagão do Amapá poderá nos levar à civilidade? Entrevista especial com Benedito de Queiroz Alcântara

"Nossos gestores, mais uma vez, estão ressaltando, acentuando e agindo no sentido de aumentar mais ainda, explicitamente, as desigualdades sociais e econômicas da nossa sociedade. As pessoas ficam “enojadas” com a forma como são tratadas, de serem relegadas a nada", diz membro da Repam Brasil

População às escuras no Amapá | Foto: Rudja Santos - Amazônia Real

Por: João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin | 13 Novembro 2020

Neste final de semana em que muitos brasileiros vão às urnas para escolher o novo quadro legislativo e executivo dos seus municípios, a situação social, política e econômica do Amapá serve de exemplo para refletirmos sobre quem elegemos e para quem concedemos tantos poderes para tudo continuar como está: sempre os mesmos e velhos políticos revestidos com o novo discurso do momento, e uma população que, em sua maioria, sobrevive e aprendeu a ser resiliente, esperando por uma resposta política para os problemas sociais e econômicos que enfrenta, mas que nunca chega.

 

Não sabemos se é de conhecimento público o que se passa no Amapá, apesar de amplamente noticiado na imprensa e nas redes de solidariedade, mas com pouco eco dentro do Congresso Nacional, a casa da democracia brasileira.

 

Enquanto Benedito de Queiroz Alcântara, membro da Rede Eclesial Pan-Amazônica - Repam Brasil – uma rede com mil organizações da Amazônia cujo objetivo é criar um modelo de desenvolvimento que privilegie os pobres e sirva o bem comum –, atravessa a cidade de Macapá, capital do Amapá, em busca de água para ajudar aqueles que necessitam, ele observa que "neste período há de se notar uma ausência completa dos nossos parlamentares: não vimos nenhuma articulação ou envolvimento tanto de deputados federais, quanto estaduais ou vereadores. Uma ausência completa". A ausência é evidente, assegura, porque "eles gostam de publicar qualquer coisinha que fazem, mas não vimos nenhuma notícia até agora de deputados ou políticos que abriram suas casas, distribuíram água... não vimos isso".

 

Ao contrário, ressalta, depois do racionamento de energia no estado "determinado pelo governo federal, por parte de Davi Alcolumbre – são todos do mesmo bloco, mais o prefeito da capital [Clécio Luis] –, os políticos apareceram para a população como se tivessem resolvido o problema dos motores. Cada um agora está querendo ser o pai da solução que não terminou, mas com as promessas de que tudo vai ser solucionado e resolvido".

 

O dilema da região é ainda maior, porque, segundo nos informa Alcântara, o Amapá produz energia para todo o Brasil a partir de quatro hidrelétricas. Além disso, sua capital, Macapá, é banhada pelo rio Amazonas, mas as pessoas seguem sem água porque os investimentos devidos na rede de infraestrutura não foram feitos e cerca de 700 mil pessoas foram atingidas.

 

Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp à IHU On-Line, ele expõe com clareza as mazelas do seu estado, que são um verdadeiro retrato do que todos nós presenciamos nas nossas próprias cidades. Diante do desespero por causa da pandemia, da falta de energia e de todos os problemas que daí sucedem, diz, instalou-se um caos na cidade. “Foi virando um círculo vicioso e, ao mesmo tempo, o ambiente de ganância e egoísmo fez com que os preços dos produtos à disposição disparassem, especialmente os garrafões de água, que custavam por volta de quatro reais, passaram a custar mais de sete”.

 

O relato de Alcântara não nos leva a intermináveis leituras na busca do entendimento, nas entrelinhas, para compreender a realidade. Ao contrário, mostra a realidade nua e crua e reforça o convite feito pelo papa Francisco e por tantos intelectuais que nele se inspiram, a dizer sim ao Evangelho e se dispor a uma militância que realmente quer transformar e não alienar. Mas isso só é possível, verdadeiramente, se decidirmos fazer aquilo que o economista francês Gaël Giraud nos propõe: nos lançarmos a um desafio, que é espiritual e político, de lutarmos pelos bens comuns, mas que requer uma conversão individual.

 

Em tempo: é importante informar que as eleições municipais no estado do Amapá foram adiadas por causa do apagão. Cada um pode interpretar tudo isso como quiser, mas dá para dizer que é uma providência, não no sentido político, mas teológico, como também nos desafia a pensar, nestes tempos de crise do pensamento, o jesuíta Gaël Giraud.

 

Benedito de Queiroz Alcântara (Foto: Arquivo pessoal)

Benedito de Queiroz Alcântara é professor de História da Rede Pública Estadual, é o referencial da Repam na Diocese de Macapá e também atua na coordenação do Eixo Justiça Socioambiental da Repam Brasil. Também coordena o Projeto Guardiões Ambientais Ribeirinhos, na formação de jovens ribeirinhos das comunidades ribeirinhas na foz do Amazonas entre o Pará e o Amapá. Na Diocese, participa da Comissão Justiça e Paz e da Equipe de Formação Fé e Cidadania. O Projeto Guardiões é realizado pela Repam e Instituto Educacional Amapá-Pará - Ieap, com apoio e parceria do Olma, das Universidades Federais do Amapá e Fluminense - Unifap-UFF.


Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Gostaria que o senhor relatasse detalhadamente como está a situação no Amapá, devido à falta de energia. Como as pessoas estão buscando resolver as necessidades mais básicas? E o senhor, como está se virando?

Benedito de Queiroz Alcântara – O Amapá possui 16 municípios e três deles escaparam do apagão porque possuem sistemas de energia isolados: o Oiapoque, no extremo Norte, e os municípios de Laranjal do Jari e Vitória do Jari, no extremo Sul do estado. Os outros 13 municípios sofreram diretamente com o apagão – mais de 700 mil pessoas sem energia.

Estamos agora num segundo momento, em que se completa uma semana do apagão. Os primeiros quatro dias foram de falta de energia, falta de água, falta de apoio imediato das autoridades competentes; não havia um plano B por parte da estrutura estatal e governamental. Da parte das pessoas, muito menos, principalmente das famílias mais carentes das nossas periferias, que são áreas alagadas e de baixada, no caso da capital. Não tenho dados mais consistentes da área interiorana do Amapá, mas imaginamos a situação de calamidade que as pessoas estão vivendo.

 

 

 

Neste segundo momento há o retorno da energia de forma gradual. Estamos em racionamento, por isso cada bairro recebe energia por algumas horas. Completando uma semana, a situação do Amapá, está assim: o povo, com sua capacidade de resistência, luta, resiliência, busca com suas próprias forças, junto com suas comunidades, as alternativas, porque se viu absolutamente sozinho para enfrentar essa situação. No primeiro dia de tempestade, foi uma noite inteira de chuva, raios e trovões. Na quarta-feira pela manhã vieram novas tempestades, mas como ninguém tinha formas de se comunicar, todos ficaram nas suas casas. A primeira reação coletiva das pessoas nos bairros foi a busca por água, porque iniciava o dia e ninguém mais tinha água nas torneiras. Aí vieram as primeiras notícias sobre o incêndio. As pessoas perceberam que se tratava de uma situação muito grave, mas ninguém tinha ideia de que os três geradores haviam sido queimados, inclusive o reserva, que estava sem manutenção há mais de um ano. Com a queda de energia veio o prejuízo em relação à alimentação, aparelhos elétricos, geladeiras, freezer.

A empresa espanhola que ganhou esta concessão não estava preparada para a situação e nunca foi fiscalizada, portanto, nunca se preocupou em pensar que uma situação dessas poderia ocorrer e em ter um plano B.

 

 

Cada um por si

Da parte dos órgãos governamentais não está havendo nenhum retorno. Cada um teve que buscar por si, segundo suas necessidades. Muitas pessoas são doentes e idosas e, em pleno período de pandemia, há um aumento dos casos de covid-19 na região, como se fosse uma segunda onda. As pessoas estão desesperadas, buscando água, alimento, combustível para poderem se deslocar – os combustíveis acabaram porque os postos não estavam funcionando e isso gerou uma aglomeração. Foi se instalando uma situação de guerra, caos, desespero, porque uma coisa foi puxando a outra: sem energia, o comércio foi fechado, os alimentos congelados foram estragando, e não tinha como utilizar dinheiro porque os caixas eletrônicos estavam sem funcionar e, onde funcionaram, o dinheiro logo acabou. O comércio que abriu só aceitava dinheiro em espécie, mas cadê o dinheiro?

Foi virando um círculo vicioso e, ao mesmo tempo, o ambiente de ganância e egoísmo fez com que os preços dos produtos à disposição disparassem, especialmente os garrafões de água, que custavam por volta de quatro reais, passaram a custar mais de sete. O mesmo aconteceu com as velas: todo mundo começou a correr atrás de velas porque as pessoas precisavam de luz para passar a noite.

Aqui no Amapá estamos saindo do verão. A primeira chuva de inverno foi no Dia de Finados e o tempo começou a mudar. No dia 3 veio a chuva fina e à noite, a tempestade. Este é o início do nosso inverno, o período de chuvas. As pessoas não tinham velas em casa porque estávamos num período de muito calor e mosquitos, enfim, as pessoas não estavam preparadas para passar as noites em claro, sem água, sem luz, sem comida e mal acomodadas – todo mundo teve que ir para as ruas e ficar na frente das suas casas.

Aí veio também a questão da segurança: algumas pessoas se aproveitaram da situação, invadindo casas e assaltando. Passaram dois, três dias seguidos e as pessoas entraram em desespero. A partir do quarto dia explodiram os protestos porque as autoridades competentes não davam retorno de um plano B, não tinha carro-pipa, distribuição de alimentos etc.

 

 

Reação política

Foi preciso ter uma demanda de pressão e denúncia de fora do Estado, via reportagens, e isso pegou mal porque o presidente do Congresso [Davi Alcolumbre] é daqui e ele teve que se posicionar e envolver o governo federal para chegar aqui com ministros, aviões e aí sim começaram a fazer algo.

Mas no início foi uma omissão, um querendo colocar a culpa no outro. Talvez não tivessem ideia do que estava ocorrendo. O próprio ministro que chegou aqui disse que tudo isso seria solucionado em 30 dias. Imagina esperar 30 dias para uma solução! A pressão foi grande, com pessoas pressionando pelas redes sociais fora do estado, porque aqui a comunicação estava precária, mas fomos sabendo do que estava acontecendo, de boca em boca, atravessando a cidade e os bairros, sabendo das situações de extrema necessidade das pessoas.

 

Redes de solidariedade

No primeiro momento eu também não sabia muito bem o que iria fazer, mas fui atrás de água e atravessei a cidade para ir até a casa da minha irmã, que tem um poço que não estava sendo usado, mas a água era boa. Comprei corda, baldes e material de limpeza para purificar a água e comecei a trabalhar de motorista, carregando água, distribuindo água nos baldes maiores para as pessoas que precisavam, porque ali ninguém mais tem poço.

Criamos redes de solidariedade e fomos atrás de combustível para usar o carro. Também fiquei na fila do posto, na madrugada, esperando horas e horas para conseguir colocar combustível no carro. Essa foi uma cena em toda a cidade, com milhares de carros e filas intermináveis em lugares que vendiam água e gelo. No segundo dia de apagão já não tinha mais gelo. Muitas famílias, a partir do quarto dia, já não aguentavam mais.

Os barcos que iam para as ilhas do Arquipélago do Marajó saíam lotados, porque nesses municípios têm água, luz e comunicação. Houve esse fluxo de pessoas para as ilhas entre Pará e Amapá, na foz do rio Amazonas. O preço das passagens aéreas disparou e o trecho Macapá-Belém chegou a quatro mil reais – uma viagem de 30 minutos. Então, houve essa superfaturação na alimentação e nos transportes. As redes de solidariedade foram aparecendo por parte das igrejas, de entidades, de ONGs, de grupos da sociedade civil, e as pessoas mais fragilizadas, das periferias, foram sendo atendidas, recebendo alimentos e depois a água, que era o mais necessário.

 

 

Vimos várias situações nestes dias: os geradores do comércio foram comprados em 24 horas, e claro, quem comprou um gerador de dois, três mil reais, contornou a situação, mesmo rodeado de pessoas que estavam na escuridão. Dói ver as pessoas ricas colocando geradores na rua, na frente das suas casas, e as pessoas que não tinham nada, que ficaram no apagão, indo dormir ouvindo o barulho desses motores. Isso mostra a extrema desigualdade que vivemos em todo o país, mas aqui isso é muito forte.

 

 

Também neste período há de se notar uma ausência completa dos nossos parlamentares: não vimos nenhuma articulação ou envolvimento tanto de deputados federais, quanto estaduais ou vereadores. Uma ausência completa. Eles gostam de publicar qualquer coisinha que fazem, mas não vimos nenhuma notícia até agora de deputados ou políticos que abriram suas casas, distribuíram água... não vimos isso. Depois do racionamento de energia determinado pelo governo federal, por parte de Davi Alcolumbre – os políticos são todos do mesmo bloco, mais o prefeito da capital –, os políticos apareceram para a população como se tivessem resolvido o problema dos motores. Cada um agora está querendo ser o pai da solução que não terminou, mas com as promessas de que tudo vai ser solucionado e resolvido.

 

Condições de trabalho

Outra situação que acompanhei foi a de vários empresários exigindo que seus empregados fossem trabalhar. Eu vi pessoas tendo que ir trabalhar em pleno apagão porque na loja tinha energia, então os patrões exigiram que os funcionários fossem trabalhar, sem perguntar nada, mesmo sabendo que eles moram em bairros distantes e estavam sem energia e água para tomar banho. Os empresários não tiveram nenhuma sensibilidade de perguntar se eles tinham acesso à água, se poderiam trabalhar ou não. Uma falta de sensibilidade tremenda, achando que no outro dia haveria pessoas nas lojas e no comércio, mas não tinha como as pessoas irem ao comércio. Elas estavam nas suas casas buscando o básico para a sua sobrevivência, água, alimentos, e se preparando para a noite, momento mais difícil para as famílias diante da escuridão total na cidade. As pessoas viviam com velas, à mercê do que poderia ocorrer.

Depois do quarto dia, quando as pessoas não aguentavam mais a falta de água, energia e alimentos nas regiões periféricas, elas fizeram protestos, fecharam vias e queimaram pneus. A primeira reação do governo foi enviar a polícia para atirar balas de borracha na população. Calou muito forte em todas as pessoas essa insensibilidade da parte do governo estadual de colocar o aparato de segurança – que deveria ser de segurança – como opressor, agindo contra a população que estava despreparada e revoltada com essas situações extremas.

 

IHU On-Line - Quais são as regiões mais atingidas e que mais têm sofrido com essa falta de energia?

Benedito de Queiroz Alcântara – As regiões mais atingidas na capital, com certeza, foram os bairros periféricos e aquelas em que as pessoas vivem nas áreas de ressaca, nas áreas alagadas, nas pontes. Depois no município vizinho, Santana, na região portuária. Ali as pessoas não tinham dinheiro para comer ou comprar qualquer coisa porque não tinham dinheiro em espécie, não tinham água, não possuem veículos para poderem se deslocar e não podiam ir trabalhar. Enfim, ficaram à mercê e foram criadas as redes de solidariedade via igrejas, com as doações que estão chegando de fora. Agora as pessoas começaram a receber bastante quantidade de água, alimentos.

Nos outros municípios que compõem o estado do Amapá, provavelmente a situação foi igual, porque são comunidades simples, pessoas da área rural completamente à mercê e sem poder fazer qualquer coisa, apenas tendo que aguardar um apoio da sua localidade. Temos notícias de comunidades que ainda estão no apagão, mesmo com o restabelecimento parcial. Em outras, a energia chega, mas não permite fazer quase nada, porque é escassa. A vida das pessoas já está totalmente descontrolada por causa da pandemia e ainda mais agora, por esta situação.

 

IHU On-Line - Como é passar a noite numa cidade como Macapá completamente no breu?

Benedito de Queiroz Alcântara – Passar uma noite no apagão em Macapá, uma cidade na linha do Equador, em que estamos saindo do período do verão – ainda está muito quente –, com as primeiras chuvas, tem sido muito complicado para a maioria das pessoas. Ao mesmo tempo, ainda temos bastante vento quando a maré está enchendo no rio Amazonas – temos a influência da subida e descida das águas duas vezes por dia. Quando estamos na maré alta vem bastante vento e isso traz um alívio para as pessoas, mas quando a maré está baixando, os ventos diminuem consideravelmente e passamos as noites nesta situação: todo mundo tem que ir para o pátio, para a rua e as pessoas vão se virando. Muitas famílias tiveram que se juntar em até dez pessoas em casa para ficarem na melhor casa da família, mas isso significou também todo mundo estar aglomerado em pleno período de pandemia, não cumprindo o isolamento básico, impedindo, por conta da escassez de água, cuidar da higiene. É um cenário terrível de propagação e de infecção. Então, passar uma noite em Macapá, completamente escura, eu que atravessava a cidade buscando água até a noite, quando chegava o fim do dia o que eu via era um ambiente triste e de angústia: as ruas e as quadras na escuridão total, com exceção daquelas famílias mais abastadas que tinham iluminação.

É importante dizer que até o dia de hoje [11-11-2020], sete dias depois do incêndio, não temos nenhuma nota por parte da empresa responsável por esta subestação, por parte da Isolux, assumindo sua responsabilidade ou dando uma explicação plausível de por que a situação chegou a este ponto de não ter um equipamento reserva para situações emergenciais. Ninguém sabe nem como funciona nem onde é a sede da empresa. Gostaríamos de saber para ir lá fazer uma manifestação, como as que estão ocorrendo nas diversas partes da cidade. Provavelmente não há uma sede local.

 

IHU On-Line - Gostaria que explicasse como funciona o sistema de distribuição de energia elétrica no Amapá (ou o que o senhor sabe sobre isso). É uma empresa privada? Como o estado regula e fiscaliza essa atividade?

Benedito de Queiroz Alcântara – O sistema energético no Amapá é muito interessante. O Amapá produz energia para todo o Brasil, através de quatro hidrelétricas, e a transmissão de energia não parou. A situação que ocorreu nesta subestação no Amapá não afetou a distribuição de energia no resto do Brasil. Seria muito interessante se tivesse parado também no restante do país, porque o impacto seria maior em termos de reações do governo federal para resolver de imediato a situação por que passamos e estamos passando.

Áreas dos reservatórios dos empreendimentos hidrelétricos no rio Araguari

 

A Isolux, empresa que ganhou a concessão da linha de transmissão do Linhão de Tucuruí, é responsável por fazer o rebaixamento da voltagem para a nossa rede estadual. Estamos na região em que ocorreu o incêndio e a ironia é que quem veio fazer a assistência técnica da subestação foram os técnicos da estatal Eletronorte, que era quem antes cuidava de tudo isso. Os técnicos estão aqui e desde a hora em que chegaram não pararam em nenhum momento, trabalhando para recompor esse sistema dos geradores que foram queimados.

 

IHU On-Line - Muitos falam que a empresa privada que faz gestão da distribuição de energia não consegue resolver o problema. Que informações o senhor tem sobre esse assunto? E o que isso evidencia sobre a relação entre o público e o privado nas áreas de infraestrutura?

Benedito de Queiroz Alcântara – Essa situação mostrou que a empresa privada, multinacional, que já apresentou problemas em outros lugares do mundo, como o Quênia, na África, nunca foi fiscalizada. Aqui ainda temos a Companhia de Energia do Amapá – que é estatal –, que faz apenas a distribuição na rede, mas a responsável por transformar a energia do Linhão de Tucuruí e rebaixá-la para a nossa região é a empresa internacional Isolux. Essa fiscalização, que deveria ser da parte da Agência Nacional de Energia - Aneel, não foi feita.

As notícias que recebemos até agora informam que o transformador que deveria ser o reserva para situações de emergência, não entra em manutenção desde 2019 e, portanto, a situação não foi fiscalizada. Tudo isso será apurado para sabermos as causas e os culpados que levaram a esta situação de descaso, de omissão, porque isso é um crime cometido por entes públicos, e deve ser apurado com toda a pressão da imprensa, dos órgãos responsáveis e, principalmente, da sociedade amapaense. O que ocorre aqui pode acontecer em outras regiões, com esse processo de privatização de bens públicos para empresas que não têm nenhum compromisso com a população local.

 

 

Relação público-privado

Os gestores e governantes falam da parceria público-privada que, na prática, para nós cidadãos amapaenses, consumidores da energia, significa que os custos só subiram, por causa do aumento da conta de energia. Além disso, o serviço é de péssima qualidade, porque vivemos esses anos todos, mês a mês, dia a dia, tendo falta de energia constante nas casas. Essa é uma reclamação frequente em relação à concessionária distribuidora de energia responsável por este rebaixamento da energia na região. A relação entre o público e o privado nessas áreas de infraestrutura acaba favorecendo apenas algumas pessoas, alguns grupos e interesses privados, empresariais e que, na prática, não favorece a vida das pessoas nem a qualidade de vida delas. Essa é a situação da população da Amazônia, mas a lógica é a mesma para toda a região. Essa área de infraestrutura está sendo cada vez mais sucateada, esvaziada na área estatal e sendo entregue de bandeja por negociações escusas, pois não são claras para a população e acabam levando a essas situações inesperadas. O maior prejudicado é a população geral.

 

IHU On-Line - E a comunidade, tem realizado ações solidárias de ajuda mútua? Se sim, poderia nos descrever algumas dessas ações?

Benedito de Queiroz Alcântara – No meio desse cenário de caos, guerra e desespero do primeiro dia, no segundo dia fomos percebendo, pouco a pouco, a capacidade do nosso povo de ser resiliente, de resistir, de ser generoso e ter capacidade de olhar para um vizinho, uma vizinha, oferecer água e partilhar alimentos. Isso ocorreu, graças a Deus, ao longo desses dias terríveis e agora já temos um processo mais articulado de atuação e de busca de alimentos e água para as pessoas.

As comunidades, as pessoas mais simples também foram as mais capazes de ser solidárias com a própria vizinhança. Ficaram mais solícitas e perceberam que o problema não era somente seu. É evidente que ocorreram situações terríveis de brigas em filas, de gente querendo comprar todo o gelo e toda a água para si e pensando que só ela estava passando por esta necessidade. Tivemos situações de gente nervosa, desesperada, achando que o problema era só seu, sem capacidade de perceber que é de todo mundo.

Algumas pessoas do comércio foram generosas, tinham acesso à energia, à internet e disponibilizaram espaço para as pessoas carregarem seus telefones, usarem a internet, foram fornecendo água para os outros, usando bombas de água para captar água do poço, outros comprando caixas d’água, colocando na calçada e chamando todo mundo que quisesse para ir buscar – aqui na minha rua aconteceu isso.

Nas igrejas, nas paróquias, as pessoas foram se articulando automaticamente na área social através da Caritas Diocesana junto com a Caritas do Norte II. As pessoas já estavam atuando no período da pandemia, recolhendo alimentos, medicação e, agora, foi uma continuidade dessa articulação muito bonita, que envolve paróquias, padres, pastorais, lideranças, todo mundo buscando água de poços e distribuindo para as pessoas, com padres abrindo as igrejas para arrecadar alimentos e produtos para distribuir para as pessoas mais carentes. Tivemos essas ações muito bonitas mesmo, de levar alimento e água para os que estavam e estão precisando. Muitos nem podiam se deslocar de casa e receberam essa presença solidária e generosa de diversas comunidades, paróquias e organismos no âmbito da sociedade civil, como clubes, ONGs e artistas que fizeram arrecadações e distribuíram para as pessoas.

 

IHU On-Line - Estamos, ainda, vivendo uma pandemia. De alguma forma, essa falta de energia tem impactado a contaminação pela covid-19?

Benedito de Queiroz Alcântara – Essa aglomeração com certeza vai trazer impactos nos números da contaminação da covid-19. Já vínhamos, na semana anterior ao apagão, com um número crescente de contaminação. Estavam falando de uma segunda onda de contaminação e tanto o governo do estado quanto o da capital tiveram que adotar medidas de regras mais rígidas, como foi feito durante o alto índice de contaminação em abril, maio e junho.

Agora, tiveram que fechar o comércio novamente porque os leitos já estavam todos ocupados. Aí veio o apagão e com certeza na semana seguinte já vamos registrar novos casos de covid-19 por causa da aglomeração de pessoas nas ruas. Não tinha como segurar as pessoas nas filas intermináveis de compra de água, alimento e combustível. Foi algo totalmente impactante e que, nos próximos dez ou quinze dias, vai levar o Amapá a ter que pedir socorro novamente para todo o Brasil por causa da pandemia.

 

IHU On-Line - Desde que a energia foi restabelecida parcialmente, seguindo um rodízio, pessoas têm dito que as regiões mais nobres têm sido privilegiadas. Como o senhor analisa essa situação?

Benedito de Queiroz Alcântara – Essa etapa da energia que voltou e que está seguindo um racionamento, é uma situação controversa. Primeiro, a Companhia de Eletricidade do Amapá publicou uma tabela desse racionamento, mas não disse exatamente quando ele iria começar e as pessoas ficam esperando qual será a hora em que faltará energia. Depois, publicaram a tabela e as pessoas querem se guiar pela tabela, mas há reclamação de que o período determinado para ter acesso à energia não está sendo cumprido. O período determinado era de seis horas de acesso à energia e seis horas sem energia. Alguns colegas relatam que, nos bairros onde residem, ficam até nove horas sem energia. Em outros lugares, ficam mais de doze horas sem energia, na capital. Na área rural, segundo as notícias que nos chegam, algumas comunidades ficam um dia e uma noite toda sem energia e em outras ela nem retornou. Assim fica praticamente impossível fazer qualquer coisa.

Segundo a tabela, condomínios das classes médias e médias altas têm energia 24 horas, e eles estão rodeados de comunidades populares, casas simples. É uma afronta ver um condomínio todo iluminado, o dia todo com energia e, ao redor, as pessoas dependendo da energia ou passando a noite no escuro.

Nossos gestores, mais uma vez, estão ressaltando, acentuando e agindo no sentido de aumentar mais ainda, explicitamente, as desigualdades sociais e econômicas da nossa sociedade. É uma pena. Cria esse ambiente de “nojo” – usamos aqui esta palavra –, de as pessoas ficarem “enojadas” com a forma como são tratadas na nossa sociedade, de serem relegadas a nada. Já vivem uma situação extrema de sobrevivência e nessas situações há uma insensibilidade por parte da nossa elite local, mas também, principalmente, dos governantes, pessoas eleitas que deveriam estar a serviço dos interesses coletivos e não conseguem perceber, nessas situações, como dirimir, diminuir e não acentuar mais ainda, na prática, essa desigualdade. Agridem a dignidade das pessoas.

 

 

Privilégios

Sobre a situação das pessoas mais privilegiadas, isso só vem confirmar o quanto a nossa elite local, gestora, eleita pelo povo, tem um índice altíssimo de insensibilidade, de total desprezo pela população, de total desprezo e afastamento da vida real da população. Eles vivem em outro mundo, em outro país, em outro planeta.

Essa é a realidade dos condomínios de classe média alta. As pessoas das classes mais baixas chamam suas moradias de “conjunto habitacional”. Da classe média para cima, chama-se “condomínio”, expressando exatamente que é um outro mundo, totalmente diferente da vida real da maioria da população. Isso veio, mais do que nunca, mostrar de forma cruel, mas totalmente visível, este total desprezo, insensibilidade, estranhamento de quem tem acesso a tudo e, no meio da desgraça, continua tendo acesso a tudo, rodeado das pessoas que já não têm nada, ou o mínimo possível no dia a dia e que, nessas situações extremas, acabam perdendo absolutamente tudo, inclusive a dignidade. Dá esse asco, “nojo” de percebermos essas situações que ocorrem quando o quadro real e social em todo o país está nessa situação.

 

IHU On-Line - Um raio causou todo esse dano, gerando todos esses problemas ainda sem solução. O que esse episódio revela sobre a infraestrutura e o investimento nessa área no Amapá?

Benedito de Queiroz Alcântara – O raio trouxe o apagão, mas nós já vivíamos num apagão. Talvez o pedagógico de tudo isso, uma lição, para todos nós, é olhar toda a nossa trajetória e perceber o quanto a população que mais precisa da assistência e das políticas públicas como direito de cidadania já vinha, nas suas vidas, vivendo o apagão cotidiano da falta de luz e de água, da falta de transporte público digno, principalmente no tempo de pandemia. Deputados, juízes e outras autoridades que foram acometidos pela covid-19 pegaram o avião e foram ser tratados em São Paulo. Um ou outro ficou aqui e depois deu testemunho reconhecendo a importância de valorizar os profissionais e a política pública na área da saúde.

 

 

Nesse período de pandemia, enquanto a chamada elite local e as autoridades que foram acometidas pela covid pegaram o avião e foram embora tranquilamente, a população ficou morrendo na fila ou morreram depois. Enfim, o raio veio causar esse dano e mostrar o quanto ainda temos de mazelas sociais e de ausência do Estado em termos de políticas públicas, de efetivar as políticas públicas. Revela a fragilidade da nossa infraestrutura, toda ausência de investimento da nossa área, porque são os paradoxos: o Amapá produz energia para todo o Brasil, mas ficou no apagão, sem solução. Macapá, a capital do Amapá, é a única capital banhada pelo rio Amazonas. O maior rio do mundo e de maior volume de água do mundo passa aqui na frente das nossas casas, mas nós ainda não temos água acessível para toda a população. A água captada na frente da cidade do rio Amazonas não chega à torneira das casas já tratada, adequada, regular. Aqui mesmo onde moro, no centro da cidade, não passa uma semana – poderia até arriscar dizer que não passa um dia, em algum momento das 24 horas – sem que tenhamos um período em que a água some, vai embora das torneiras, e somos vizinhos da companhia de água.

 

Temos uma rede de esgoto, realmente, mas a água não chega todos os dias, 24 horas, na minha casa, na casa da minha irmã, na vizinhança. Imagine na periferia, nos bairros mais distantes e em bairros que nem possuem rede de água. É um paradoxo. E é impressionante, porque faltou água para as pessoas, faltou água para beber, faltou água para ser distribuída porque não foi feito o investimento de infraestrutura na nossa capital, a única capital do país banhada pelo rio Amazonas, o de maior volume de água do mundo. Esses são os paradoxos que ficaram deveras explícitos com o apagão.

 

 

IHU On-Line - O estado do Amapá é reconhecido por levar grandes nomes da política nacional para Câmara e Senado. Ainda assim, leva dias para resolver um problema tão básico, como o abastecimento de energia. Como analisa essa contradição?

Benedito de Queiroz Alcântara – Com tudo isso que está ocorrendo, percebemos as grandes contradições. Veja as ironias: o Amapá, recentemente, teve um ex-presidente da República que se mudou para cá, mesmo não sendo daqui, e mesmo assim foi eleito. Praticamente entregaram de mão beijada o mandato de senador, que foi renovado por mais duas vezes, totalizando 24 anos de mandato. Ele chegou a ser presidente do Congresso, fiador do governo na época e, na verdade, só nos trouxe o status de falar que tínhamos um ex-presidente do Congresso, um ex-presidente da República, que ficou aqui 24 anos.

Mas se formos aos números, a maior parte dos recursos que ele indicou e que ele conseguiu como parlamentar foi levada para o seu estado de origem, não para o Amapá. Não garantiu, na sua atuação parlamentar, os recursos necessários para fazer o Amapá sair do patamar de sobrevivência e ter verdadeiros recursos para infraestrutura. Ele carregou todos os recursos para o seu estado, onde sua família domina e sua filha foi governadora. Ele pouco vinha aqui: duas ou três vezes por ano, em datas festivas ou marcantes. Tanto é que foi embora e não está nem aí. Até esta semana, não recebemos nenhuma nota de solidariedade de um ex-presidente da República, que foi senador por três mandatos de oito anos. Portanto, 24 anos sendo pago pela população amapaense, eleito para nos representar, e até agora não saiu nenhuma nota de solidariedade dele, porque, na verdade, ele não tinha nada a ver com a gente.

 

 

A repetição

Hoje, igualmente, temos um novo senador, que sucedeu aquele outro senador, e que chegou também à Presidência do Congresso. Este atual é amapaense nato, vem de uma trajetória de mandatos na Câmara e tem um projeto para colocar seu irmão como prefeito da capital. Ele é o grande avalizador da agenda de privatizações do governo federal, da aprovação de toda a legislação que subtraiu os direitos trabalhistas e, portanto, está votando contra os direitos legítimos da população, dos trabalhadores e dos amapaenses. Representa, na verdade, os interesses do grupo ao qual ele pertence. A família mais rica do Amapá é a família do atual presidente do Congresso Nacional. É bom que o mundo e o Brasil saibam disso. As famílias mais tradicionais são as mais ricas – para não dizer a mais rica e mais poderosa do estado do Amapá. Elas possuem fazendas, inúmeras propriedades, o maior rebanho de búfalos, a maior rede de combustíveis e grande parte da parcela das riquezas do Amapá.

De outro lado, também temos um senador que é de oposição ao governo federal e que talvez seja o contrapeso nisso tudo; é um nome conhecido nacionalmente. O Amapá acaba sendo conhecido muito por trazer pessoas que propõem um projeto que vai de encontro aos interesses da população local, mas também são eleitas pessoas que estão comprometidas diretamente com a população. Mas isso não foi suficiente para resolver um problema tão básico como o abastecimento de energia que temos na esfera local, estadual e federal.

 

Eleições municipais

Nas eleições municipais, o candidato para suceder o atual prefeito, que é apoiado pelo presidente do Congresso Nacional, é, nada mais nada menos, irmão do presidente do Congresso Nacional, que é suplente dele no Senado. Então, tem toda uma jogada política aí, na qual está junto o atual governador do estado [Waldez Góes/PDT], que já está no seu quarto mandato de governador. É bom lembrar que esse governador já saiu daqui algemado direto para o presídio da Papuda, em Brasília, por causa de escândalos escabrosos na sua gestão do segundo mandato. Mas voltou e foi eleito e reeleito. Portanto, está no seu quarto mandato, e faz parte do mesmo bloco, com o atual presidente do Congresso e com o atual prefeito, que abandonou seu partido de esquerda e fechou acordo para apoiar o irmão do senador. Esse bloco expressa muito bem como é o Brasil: de um lado, uma elite que detém as várias riquezas, os mais privilegiados, os que vivem em cima das desgraças ou das exclusões da vida socioeconômica da população; de outro, os que estão sempre nesses postos de governantes, que acabam sendo eleitos e reeleitos continuamente.

É bom saber que nessa lógica, nessa geopolítica do poder local, a nossa bancada tem praticamente apenas um senador de oposição, e na nossa bancada federal na Câmara temos praticamente dois deputados opositores. A maioria da bancada federal é fechada com esses interesses do atual presidente do Senado [Davi Alcolumbre], que leva também toda a bancada estadual, situando uma pequena oposição, e ainda o governo do estado e, mais recentemente, com o atual prefeito que veio de uma trajetória de partidos de esquerda, mas que acabou fechando com esse apoio do atual presidente do Senado.

Claro que tem a oposição, mas que está enfraquecida e que tenta reagir e enfrentar o que nós chamamos de ‘o Bloco da Harmonia’. É o que o atual governador sempre fez nas quatro gestões, trazendo tanto poder Judiciário, imprensa, Legislativo para junto dele, pois esses nunca reclamaram porque ele mantém sempre os recursos, o aumento que eles pedem, sem fazer nada que possa mexer com seus privilégios. Por isso dizemos que é o governo da Harmonia e que consegue, infelizmente, com todas as suas ações assistenciais, com seu aparato estatal, convencer a maioria da população ainda a apoiá-los.

 

IHU On-Line – Como é viver no Amapá?

Benedito de Queiroz Alcântara – Viver é um perigo, já dizia Guimarães Rosa. E viver no Amapá é um desafio. Dizemos, numa linguagem regional: não é para os fracos não, aqui é para os fortes. Viver na Amazônia, e nisso no Amapá, é viver num território em disputa permanente.

O Amapá traz toda uma marca no mundo ambiental de ser o estado mais preservado do Brasil porque possui mais de 70% de seu território com áreas legalmente preservadas, destinadas a reservas municipais, estaduais e federais, terras indígenas. Ou seja, as diversas modalidades das unidades de conservação compõem esses 70% da área de nosso território. A área total do estado é de 142 mil quilômetros quadrados e nesses 70% de preservação há ao menos 90% de áreas nativas, intactas. O impacto do desmatamento existe em todo o bioma Amazônico, mas aqui, na proporção de nossa área e em relação aos demais estados da Amazônia, é o mais preservado.

E toda essa área vem sendo, ainda mais nesses últimos anos, invadida e destruída. São essas contradições: você está num estado de uma biodiversidade fantástica no bioma Amazônico que possui imensos desafios, possui ambientes favoráveis para ter o pleno desenvolvimento que de fato seja a favor de uma vida de qualidade para as pessoas, possui ainda uma população relativamente pequena para sua área e para a Amazônia, não chegando a 800 mil pessoas. Com tudo isso, seria um estado que tem tudo para viver a questão ambiental, de uma rota de turismo ambiental, mas não ocorre.

 

Desafio

Por isso, um dos grandes desafios nossos é desenvolver essa perspectiva investindo em toda uma outra infraestrutura, superando a ideia de província mineral que só favoreceu o início dos projetos de exploração mineral na Amazônia. Poderíamos ser o estado guardião desse bioma, que até hoje nos chega via povos ancestrais.

Aliás, o Amapá é o único estado em que os povos indígenas têm suas terras demarcadas, legalizadas e isso favoreceria todo um modelo de vida, desenvolvimento que levasse em conta esses serviços ambientais, mas que tivesse uma infraestrutura que favorecesse a vida de turistas, num fluxo não predatório. Assim, criaríamos um círculo virtuoso baseado na questão ambiental. E, a partir disso, viriam todas as políticas públicas a serviço de uma educação de qualidade, uma saúde de qualidade, meio de comunicação, transporte, esporte e lazer para as pessoas, num bem-viver de fato.

 

 

O povo, uma riqueza

O grande fato positivo no estado, com esses seus recursos naturais, paisagísticos e ambientais, é a sua população, pois é um povo resiliente e capaz de conviver com a floresta, com esse ambiente diverso, riquíssimo de fauna, flora, de rios e águas. Essa é a grande riqueza, o amapaense ribeirinho, o caboclo, das suas populações tradicionais, de nossos parentes indígenas.

Do Oiapoque ao Laranjal do Jari, temos pessoas que trazem essa marca de serem muito acolhedoras, capazes de levar quem chega de fora para dormir na sua casa, sem nem conhecer de fato a pessoa ou saber de onde veio. Ainda somos capazes desse gesto generoso que quase não se vê mais. Costumamos dizer que somos generosos ‘demais da conta’, para além do que a prudência recomenda.

 

 

IHU On-Line - O senhor é professor de História, gostaria que recuperasse um pouco dessa história, analisando se esses problemas do passado foram superados.

Benedito de Queiroz Alcântara - O Amapá faz parte da Amazônia e também é um território em disputa. Sempre foi um território de disputa desde quando aqui chegou o branco europeu colonizador, porque aqui estamos na entrada da Amazônia. O rio Amazonas, na foz, se desdobra em dois grandes braços: o do lado esquerdo e o do direito. A margem esquerda do Amazonas é o Amapá, onde está Macapá. A margem direita é onde está Belém, no Pará. E no meio a grande Ilha do Marajó, o arquipélago do Marajó.

 

 

 

Cobiça

Assim, o Amapá é uma dessas entradas desde os tempos coloniais e sempre foi cobiçado, mesmo quando o Tratado de Tordesilhas já separava grande parte de seu território, que pertenceria à Espanha, e um pequeno naco desse território pertenceria a Portugal.

Na prática, Portugal veio e foi adentrando o território como fez em toda Amazônia através dos rios, mas na costa – pois estamos num litoral que pega tanto a foz do Amazonas como o Oceano Atlântico – também chegaram os ingleses, os holandeses, franceses, tanto é que temos em nossa fronteira a Guiana Francesa. Por isso, o Amapá se configura sempre como território de disputa. Inclusive, o Amapá foi uma das últimas questões da unificação de todo o território brasileiro, que foi resolvido em 1900, decidido pelo chanceler e diplomata Barão do Rio Branco, quando foi dada a causa a favor do Brasil na Suíça – por isso temos o ‘laudo suíço’, em 1 de dezembro de 1900, quando o Brasil teve ganho de causa definitivo.

A França sempre contestava e defendia que mais da metade do Amapá pertencia a eles, pois dizia que o rio Araguari, que corta o Amapá, seria o rio Oiapoque. E assim, com esse ganho de causa brasileiro, se chegou à conclusão de que o Oiapoque é justamente onde é hoje, um rio descoberto, ou visto pela primeira vez por Pinzón [explorador espanhol Vicente Yáñez Pinzón], que o batizou, mas que depois foi contestado durante anos pela França. Por trás dessa disputa estavam todos os recursos naturais, o ouro, pois se tinha conhecimento de minas que, até hoje, ainda produzem ouro.

 

 

 

Colonização portuguesa

Na colonização portuguesa, toda essa área pertenceu a uma grande província, a Província do Grão-Pará, até 1943, quando passou a território federal do Amapá. Claro que isso tem a ver com a recente descoberta das minas de manganês, as maiores descobertas até então, o que fez o Amapá ser o maior exportador de manganês durante 50 anos, e fez o Brasil ser um dos maiores exportadores durante praticamente meio século. Esse manganês foi o que serviu para os Estados Unidos na Segunda Guerra. E a criação do território do Amapá foi, nessa lógica, se tornando ente federativo para poder criar toda a infraestrutura local das minas, estrada de ferro, área portuária, onde é o Porto de Santana, até 1988, quando da nova Constituição passou a existir o estado do Amapá.

Mapa da antiga província do Grão-Pará  (Foto: Wikipédia)

 

 

Disputa por território

É uma história que está ligada à disputa por território. Dos anos de 1990 para cá, existe a disputa do território e de toda essa riqueza ambiental, principalmente por suas florestas, por suas províncias minerais. E, recentemente, chegou o agronegócio através da plantação de soja, pois hoje o Amapá já exporta soja. Na última exportação, foram 60 mil toneladas e ainda se tem um cenário crescente, que gera exploração e todos os conflitos socioambientais que temos aqui na nossa região. São conflitos de terra, violência no campo, êxodo rural à medida que o agronegócio avança, e também as explorações minerais acabam gerando tudo isso.

Esse cenário revela um pouco da história do Amapá que vem desde o período colonial e que em diversas situações foi se transformando em grandes problemas, que se revertem hoje em grandes problemas ambientais. Soma-se a isso a instalação das usinas hidrelétricas para gerar energia para o sistema nacional, que gera impacto na vida das pessoas, das comunidades que viviam nas margens desses rios. Hoje existe uma situação de mortandade de peixes, de poluição e morte de rios.

 

 

 

No rio Araguari, onde hoje há três hidrelétricas instaladas, de onde vem a maior parte da energia que sai para o sistema nacional, a foz praticamente já morreu e sofreu todo o impacto por causa da instalação dessas usinas.

 

Exploração

Isto marca a história do Amapá: um território de luta, sempre saqueado e tão exuberante, rico e belo em sua biodiversidade, mas mais uma vez saqueado e explorado, sendo todo um pivô de interesses. Infelizmente, todas as nossas bancadas de eleitos, tanto senadores como deputados federais, colocam seu mandato exatamente para fazer com que o Amapá seja cada vez mais explorado com esses megaprojetos que se instalam na Amazônia e que só trazem processos de pauperização, de miséria, gerando um fenômeno que ocorre em toda Amazônia: uma alta urbanização, que na verdade é uma vida de periferia.

 

Com isso, acaba se dando o inchaço das cidades amazônicas. Em Macapá, mais de 70% da população vive na capital, que tem uma vida urbana. Mas essas pessoas vieram do mundo rural e de outras pequenas cidades para viverem nos bolsões de pobreza e sem a devida infraestrutura e qualquer planejamento urbano. O que se dá é uma realidade de sobrevivência, problemas que vêm se arrastando desde o passado, mas que nessas últimas décadas foram agravados por essa lógica de um desenvolvimento que não tem nada a ver com a nossa vida local, de nossas tradições, da nossa cultura regional, das riquezas locais. É uma outra Amazônia, um outro mundo, uma outra não-vida que está cada vez mais sendo erguida diante da gente.

 

IHU On-Line - Além de estar em sala de aula, o senhor atua em diversas instituições de proteção ambiental. Como é a relação das pessoas do Amapá com o meio ambiente? A necessidade de se pensar em desenvolvimento econômico e social aliado à preservação ambiental está presente na realidade da população?

Benedito de Queiroz Alcântara - Sou professor de História e Filosofia na rede pública. Também fui professor de faculdade de graduação e pós-graduação e tenho uma atuação na Igreja, pela Diocese de Macapá, na Comissão Justiça e Paz. E pela Repam, sou um dos articuladores locais e ainda atuo na Escola Fé e Cidadania da Diocese e, também pela Repam, já estamos no segundo ano com um projeto de formação de guardiões ambientais ribeirinhos – é uma formação de jovens ribeirinhos que vivem nas ilhas entre o Pará e o Amapá. São milhares de ilhas que pertencem ao Marajó. Toda essa região tem uma relação direta com o Amapá porque Belém, a capital, a sede do município, fica distante dessas comunidades.

 

Região das Ilhas do Marajó, entre os estados do Pará e Amapá | Mapa: J. O. A. Amarante

Enquanto Diocese, temos a Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, que tem mais de 106 comunidades ribeirinhas nas ilhas. Com esse projeto pensado e construído junto com a Repam e o Instituto Educacional Amapá-Pará, uma escola comunitária que existe nas ilhas é um projeto desafiador especialmente para as moças que estão à frente. São jovens que chamamos de irmãs, já formadas em Pedagogia, Letras e que resolveram criar essa escola porque o município e o estado do Pará se ausentaram.

Na educação fundamental, o jovem chega até o oitavo, nono ano e depois não tem o Ensino Médio. Esse projeto assumiu essa etapa do ensino e criou esse Instituto. É uma história muito bonita e a Repam veio dar esse apoio desde o ano passado.

Grupo do projeto Guardiões Ambientais em Rio Furo Dos Chagas, Afuá, Pará. Conheça mais sobre o projeto e o Instituto na sua página no Facebook  (Foto: Instituto educacional Amapá – Pará)

 

Através desse projeto do Guardiões Ambientais, do qual estou à frente, temos esse nosso grande desafio, que é fazer com que possamos ampliar a consciência de defesa da Casa Comum, aprofundar mais uma prática de preservação, proteção e defesa dessa natureza tão exuberante que eles já têm. Nessas ilhas se vive da atividade de exploração do Açaí, do peixe, do camarão, das frutas regionais. Assim, a formação vem para ajudar a relacionar a vida e as práticas que vêm passando de geração em geração, pois se a floresta continuar em pé e continuar tão linda e exuberante, é graças a essas pessoas que escolheram viver nesse mundo. São avós e ancestrais que deixam esse legado para que todos tenham esse instrumental formativo e pedagógico para darem sentido a uma prática que eles já possuem e para que possam avançar e aprofundar isso cada vez mais. E, como guardiões, se sentirem e se “empoderarem” mais e mais para serem guardiões da floresta e guardiões ambientais de comunidades ribeirinhas.

 

 

Comunidade e universidade

E esse projeto conta com muitos apoios, como a Diocese, a Pastoral da Comunicação, a equipe de Fé e Cidadania, a equipe de Justiça e Paz da Paróquia Nossa Senhora de Navegantes, do Sindicato Rural do município de Afuá, onde a maior parte das comunidades se localiza, e da Universidade Federal do Amapá, que traz seus pesquisadores, professores generosos, que trabalham sem cobrar nada, mas se colocam à disposição para a formação nos diversos módulos do curso. Eles ficam lá uns dois dias para cada módulo do curso, trazendo o conhecimento da academia, do mundo das pesquisas, das reflexões, e isso é uma riqueza muito boa, pois há uma troca de saberes porque acreditamos na ecologia dos saberes, que, inclusive, é um dos pilares do curso. Eles aprendem com os jovens ribeirinhos e os jovens aprendem com eles.

 

 

Rede de financiamento

A Universidade Federal do Amapá ainda faz toda a certificação do curso, permitindo que esses jovens tenham uma certificação por uma universidade federal. Também temos o apoio da Universidade Federal Fluminense, através de educadoras, professoras doutoras que também estão sempre juntas, olhando e dando essa formação. Como apoio financeiro, além da Repam, temos o observatório Dom Luciano Mendes de Almeida, que também aportou recursos financeiros para ajudar. Nossa maior despesa é com a alimentação desses jovens quando estão lá na formação e com o transporte para pegar os pesquisadores e professores que chamamos de “facilitadores”, da cidade ou de fora. O Olma também disponibiliza pessoas com os seus diversos organismos espalhados pelo Brasil para juntos ajudarem na formação. É todo um trabalho de parceria, de luta e apoio, de muita disponibilidade e de muita generosidade, um trabalho ao qual me dedico e com o qual me identifico muito. É projeto que nos mobiliza ainda mais a cuidar da Casa Comum, a estarmos “ligados” nessas questões da ecologia integral e na ecologia dos saberes.

Com todo esse trabalho, percebemos que a área ribeirinha do Pará e Amapá tem uma relação muito forte com o meio ambiente. É marcante e faz parte mesmo de nossa vida, do nosso modo de viver. E é claro, nesse confronto permanente, trata-se de um desafio para não se deixar seduzir pelas propostas que a vida do mundo urbano oferece, um mundo de shopping center, do descartável. Também é desafio a necessidade de pensar um projeto que não chamamos mais de “desenvolvimento”, mas, sim, de envolvimento econômico social, que leve em conta e que não separe a questão social da questão ambiental presente na realidade da população.

 

 

IHU On-Line - O que a experiência da pandemia tem legado ao senhor e ao povo do Amapá?

Benedito de Queiroz Alcântara - Este ano de 2020 fez a gente passar, e ainda estamos passando, pela experiência da pandemia. Depois, teremos que parar e colocar tudo isso no papel, tudo que a gente vivenciou, que vem vivenciando, de situações que mexem com nossa existência. Temos que ver como isso [a crise pandêmica] afetou e ainda está afetando a vida de cada um de nós como pessoa, como cidadão, como gente e como ser de um planeta, e como compreender todo esse impacto da pandemia.

O grande legado para nós, e também para mim, pelo que passei, pois minha família foi atingida pela pandemia, foi agir bem no meio do furacão. Não se espera isso, pois nunca sabemos o que vai acontecer, mas tive que me envolver com as pessoas que tiveram a doença e fiquei ali com elas, na convivência, dando comida, vendo a medicação, saindo todo dia para fazer compras no auge do contágio aqui na capital. Até hoje não fui acometido pela covid-19, as pessoas até ficam surpresas. Na Repam e na Igreja, as pessoas até me chamam de pajé, porque eu mexo com as ervas, tenho esse legado que recebi de minha mãe. Eu cultivo, consumo, faço minhas bebidas de plantas, xaropes e manipulações, azeites e óleos; esse é o meu dia a dia. Gosto muito de mexer com isso, foi uma herança que recebi sem pedir e, nesse período da pandemia, aprofundei isso, e ficou como uma grande lição, um legado, o fato de me dedicar muito mais e perceber o quanto foi valioso ter recebido essa herança dos meus parentes e antepassados e, mais diretamente, de minha mãe, e poder acreditar nisso e colocar a serviço das pessoas.

Eu pessoalmente acredito que se consegui chegar até agora sem ter sido contaminado, devo isso a esses hábitos alimentares e à utilização da nossa medicina da floresta. Esse é o grande legado que passo para meus alunos.

Sou professor de estudos amazônicos amapaenses, que faz parte da área de História, e semanalmente preparo as minhas aulas – neste ano mais do que nunca, através das aulas virtuais – e minha grande temática é sempre em cima da riqueza da medicina da floresta e da medicina dos povos da Amazônia.

Também ficou como grande legado ver que as pessoas aqui buscaram e redescobriram essa importância da riqueza dos produtos da floresta e de buscarem continuar em suas casas. E aqui, mesmo estando mais em casa, cuidando das pessoas da minha casa, acometidas pela covid, tirei um tempo para fazer minha horta e plantações de ervas medicinais em meu quintal. Por isso passo esse relato para as pessoas e fico feliz que redescobriram isso, porque é sempre mais fácil você ir a uma farmácia e comprar um remédio. Mas só que em tempo de pandemia, muitos remédios sumiram, assim como algumas plantas medicinais também sumiram pela grande procura. Por tudo isso, as pessoas viram como é importante cuidar e cultivar aquilo tudo que nós temos na floresta, que já conhecemos e que já nos ajudam em nossas enfermidades e doenças.

 

 

IHU On-Line - Como o senhor sonha ser o estado do Amapá no futuro?

Benedito de Queiroz Alcântara - Sonho o estado do Amapá no futuro como tendo opção e caminho de ser um território que acolha as pessoas na sua pluralidade. Um estado que possui toda uma biodiversidade fantástica e que, a partir dessa biodiversidade, é capaz de gerar vida, pois é uma potência, porque podemos viver em abundância, temos essa capacidade.

A pandemia nos trouxe isso, fez entender que vivemos numa região que tem muita abundância. Temos todos os produtos da floresta para que possamos viver bem no dia a dia e viver de forma saudável, num bem-viver. Meu sonho para o estado em que nasci e do qual saí para estudar fora - vivi mais de dez ano fora e depois voltei para me dedicar ao magistério e nessa inserção na Igreja e nos movimentos sociais -, é que esse Amapá possa gerar um jeito de viver a partir daquilo que a floresta nos oferece, a partir do que o bioma Amazônico oferece, pois a partir da sua biodiversidade é possível que ninguém passe fome, que ninguém mendigue ou sobreviva, mas possa viver com dignidade, com qualidade de vida, com uma lógica de vida que não é essa da loucura, da correria do descartável. Mas que possa ter um bem-viver como é o ritmo da floresta, das águas, daquilo que vem até nós preservado pelos nossos antepassados.

Penso, ainda, num Amapá que consiga construir sua infraestrutura básica e de acesso para qualquer pessoa, e que se superem esses dilemas de as pessoas ainda terem que lutar para ter água na sua casa, transporte digno, energia elétrica de forma digna. Penso num lugar em que as pessoas possam sair e voltar do trabalho em segurança. Que possam ir com suas famílias para a beira de um rio, de um lago, de um igarapé para passar o fim de semana com tranquilidade e possam voltar com segurança. Temos tudo isso à disposição, mas depende de toda uma vontade política, da sociedade de acreditar em si e se interessar por esse estilo de vida mais tranquilo, mais harmônico, bem ao estilo do bem-viver.

 

 

IHU On-Line - E que caminhos percorrer para realizar esse sonho?

Benedito de Queiroz Alcântara – Primeiro, acreditar que os sonhos coletivos podem ser realizados, pois somente quando nos juntamos e acreditamos nesses pequenos gestos, pequenos projetos, temos condições de acreditar naquele lugar tão pouco conhecido, com pessoas tão desconhecidas, pequenas, mas que conseguem realizar tessituras de vida que geram redes solidárias, de generosidade, de inclusão. São esses os caminhos possíveis. Passa por aí: acreditar que as pessoas possam doar o seu melhor, serem generosas, solidárias, por empatia, compaixão, pois isso tudo trazemos dentro de nós, das heranças de nossos parentes e antepassados, embora tudo isso foi se perdendo, pois veio o outro estilo de vida, urbano, utilitário, descartável.

Então, os caminhos a serem percorridos é acreditarmos que não precisa imitar o que existe lá fora, achando que é o melhor modelo para se viver. Podemos, a partir do que temos, de nossa realidade, dos nossos rostos amazônicos, acreditar e construir uma sociedade mais igualitária, mais fraterna e generosa, sem querer entrar em disputa de ter o PIB, uma pauta de exportações, superávit. Isso tudo perece se as pessoas aqui não são felizes, não têm o que comer, não têm como levar suas crianças para brincar na praça em segurança até a hora que quiserem, nem passear na frente do rio Amazonas, tomar banho nesse rio com segurança e tranquilidade, sem medo de pegar doenças, ser assaltado ou morrer afogado.

É o estilo de vida tucuju, como chamamos. É o nome dos povos indígenas que aqui habitavam quando da chegada do branco colonizador europeu. Não é fácil viver esse estilo tucuju, porque há um embate com uma elite local que é altamente egoísta, insensível, orgulhosa, que apenas reflete e se espelha numa outra elite que vem de fora, uma elite nacional, uma elite estrangeira, e infelizmente perde a noção e quer viver e vive às custas do trabalho e do suor da maioria da população amapaense. Infelizmente, a gente vai ter que superar muitos obstáculos e tentar quebrar todos esses muros de exclusão para que possamos ter um Amapá generoso, solidário, acolhedor. Aliás, que acolhe e sempre acolheu qualquer pessoa que se faz irmão ou irmã, que possa ser capaz de tomar um açaí, comer camarão, em paz e partilhando tudo isso com quem está ao seu lado.

 

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Benedito de Queiroz Alcântara – Como educador, acredito profundamente que a educação, sozinha, de fato não vai mudar a sociedade, não vai mudar o mundo, não vai mudar o Amapá. Mas sem a educação, não vamos mudar nada. É em nosso trabalho cotidiano, frente a frente, e não somente virtualmente como estamos fazendo hoje, pela circunstância da pandemia, que vamos conseguir fazer algo. É na sala de aula, naquele trabalho anônimo que conseguimos fazer com que crianças, adolescentes e jovens possam ser formados, percorrem de fato uma caminhada de descoberta, de construção de um saber coletivo, criativo, crítico. E acreditar que podemos, sim, mudar vidas, mas principalmente vidas coletivas. É preciso superar essa ideia de que se pode vencer sozinho, nessa cultura da meritocracia, como se esse fosse o único objetivo, e que para se virar na vida, tem que dar o teu jeito.

Precisamos acreditar que não é por aí e que com esse processo de educação libertadora, circular, cresceremos juntos, aprenderemos juntos. Com tudo que estamos passando, percebemos o quanto ainda precisamos avançar. Portanto, veja como é importante esse papel da nossa educação, o quão importante são os educadores e educadoras para a vida humana, a existência humana e para a vida em sociedade. Temos esse papel conscientizador, transformador, libertador no ato de educar. Educar é, profundamente, um ato revolucionário. É um ato de amar, de paixão, um ato utópico de que é possível transformar a vida, o mundo e a existência humana.

 

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