Novos céus e nova terra. O sentido de nossa vida temporal

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29 Outubro 2020

"A escatologia cristã está radicada no mistério pascal de Cristo que vive na Igreja através dos sacramentos. A Escatologia se alimenta e se atualiza na força do Espírito Santo, possui um caráter eclesiológico, abraça o aspecto cósmico universal, com a esperança de uma Nova Criação, a de Novos Céus e Nova Terra, unindo os fiéis a Cristo num só povo, através da comunhão dos santos e santas", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e professor na Faculdade Vicentina (FAVI), em Curitiba, Paraná, sobre o livro "Novos céus e nova terra. O sentido de nossa vida temporal" de Lina Boff.

Eis o artigo. 

Novos céus e nova terra.
O sentido de nossa vida temporal
Livro de Lina Boff. (Capa: Divulgação)

Dra. Lina Boff no livro Novos céus e nova terra: o sentido de nossa vida temporal toma como pano de fundo o Concílio Vaticano II (1962-1965), mais especificamente a compreensão escatológica presente no capítulo sétimo da Constituição Dogmática Lumen Gentium (LG). Nas quatro partes que compõe a obra, a autora, comentando e interpretando seus parágrafos pretende tratar da “índole escatológica da nossa vocação, na Igreja; da vivência desta vocação desenvolvida e celebrada no grande sacramento da Eucaristia; da Nova Criação trazida por Jesus Cristo; e da experiência de comunhão que a Igreja peregrina faz com toda a humanidade histórica e trans-histórica, salva em Jesus Cristo, na sua caminhada de esperança como novo Povo de Israel” (p. 13).

Na primeira parte destacam-se os parágrafos da LG que fundamentam a “índole escatológica da nossa vocação” (p. 15-52). Com esta expressão que “envolve a vida cristã na sua totalidade e na sua integridade” (p. 49), entende-se a “propensão natural da pessoa que é chamada pelo Senhor Jesus, a viver e testemunhar a fé cristã em comunidade, porque busca a vida plena de si mesma, e da inteira criação” (p. 17). Somos pessoas chamadas à vida plena/ a viver nossa vocação escatológica (p. 20-22), havendo, por isso, a necessidade de entendermos esse sentido da nossa vocação a partir da protologia à escatologia (p. 23-24). Protologia é o discurso referente à criação inicial e percorre todo o caminho da História da salvação até sua última realidade – “a predestinação escatológica faz compreender, corretamente, a criação, integrando-a no projeto divino” (p. 24), tendo-se em conta que todos os grandes temas da antiga criação, lidos à luz do Cristo ressuscitado, desembocam em Jesus, a Nova Criação, a escatologia plenificada (cf. p. 24-44). Dessa forma, podemos falar em novos céus e nova terra: “a realização plena do princípio-esperança trazido pela ressurreição de Jesus, que faz novas todas as coisas. N´Ele o projeto divino do Pai é consumado, isto é, a matéria humana e a matéria cósmica entram na vida de Deus como comunidade relacionada pelos laços do amor” (p. 45), pois Deus convida seu povo a viver uma nova aliança (p. 46-47), um novo modo de se organizar (p. 47-48), uma comunidade de fé renovada (p. 48) e, finalmente, Deus mesmo se oferece para morar conosco até o final dos tempos.

Na segunda parte destacam-se os parágrafos da LG que falam do grande sinal da Eucaristia como memorial (p. 53-96). O memorial do Senhor é o centro da vida: “o nosso enraizamento com Cristo pelo batismo, torna-se particularmente, evidente no sacramento da Eucaristia como memorial de Jesus Cristo nesta terra, em torno do qual gravita a nossa vida” (p. 57). A Eucaristia é toda escatológica: “como ato, definitivamente escatológico, que irrompe da vida toda de Jesus, vida doada para reconciliar a humanidade com o Pai, absorve o conceito de dimensão escatológica do sacramento para fazer deste, o Memorial do novo povo de Deus que somos todos nós” (p. 64). A intenção de Jesus ao fazer a última Ceia era “deixar um sinal que ultrapassasse a própria realidade deste mundo que nos cerca, para que essa realidade se transformasse n´Ele mesmo, o Jesus vivo e real, com seu corpo e com seu sangue, ressuscitando, transformando em corpo glorioso e dado como alimento de vida eterna para todos e para todas” (p. 68), assim a partir da ressurreição os discípulos interpretam a intenção de Jesus (p. 70-72), reinterpretam os relatos bíblicos mais antigos (p. 73-74), ligando a ressurreição ao memorial doméstico (p. 72-73), e, criando o sentido originário da Eucaristia (p. 81-83). Por isso nossa vida é um sacramental do Pai que aponta para o grande sacramento, o próprio Cristo que faz de sua Igreja o sacramento do Pai (p. 90-91). Com a ressurreição de Cristo, a prometida restauração já está presente no meio de nós, e é levada adiante pela força do Espírito Santo, que atua na Igreja e em toda a criação. Esta é a fonte da nossa esperança que tem seu fundamento na presença ontológica da graça quer o Ressuscitado nos trouxe e na qual se enraíza a nossa fé. A Eucaristia constitui o núcleo de nossa fé, onde se densifica a História da Salvação e onde Deus se faz maximamente presente (c f. p. 91-94).

Na terceira parte Deus cria coisas novas (p. 97-138), Lina Boff destaca que o Vaticano II apropriou-se da visão escatológica de Paulo para afirmar que a restauração prometida que esperamos, já começou com Cristo (1 Cor 10,11): “no mistério pascal de Cristo, já começou a renovação e todas as coisas, e é chegado o fim dos tempos, que terá pelo cumprimento só quando a humanidade inteira , chamada a formar o único Corpo místico de Cristo, será plenamente configurado a Ele” (p. 98). A renovação do mundo foi decretada (p. 99-101), mas toda a criação ainda geme e sofre (p. 101-105). Assim quando pensamos e refletimos sobre a dimensão temporal da nossa vida, entra-se de cheio na questão do Reino de Deus (cf. p. 105-107). “O reino está presente no meio de nós e ao mesmo tempo ele é sinal que aponta para uma realidade que ultrapassa a nossa condição de pessoas humanas e limitadas, pelo tempo que nos envolve e pelo espaço que nos circunda” (p. 105), “vivendo em estado de quem vislumbra os sinais que apontam para este Reino de felicidade” (p. 107). A tendência para sermos felizes (p. 107-111), nos faz desejar estar com Cristo (p. 111-113), buscando criar uma vida sempre mais realizada (p. 114-127), e desafiando-nos a formular uma nova teologia cristocêntrica da criação (p. 127-134).

Na quarta parte A fé na Igreja peregrina e na Igreja celeste (p. 139-192), apresenta-se a teologia da comunhão dos santos e as relações existentes entre a Igreja peregrina e a Igreja celeste. Entende-se por comunhão dos santos o “espaço ou âmbito de intercomunicação, de relação e de intercessão, que o Espírito cria, entre os que peregrinam nesta terra com o Deus Trino e com aqueles que intercedem por nós junto ao Pai, na glória da eternidade” (p. 151). Assim sendo as primeiras páginas deste capítulo buscam esclarecer algumas concepções desta verdade de nossa fé, destacando como nasceu e como se desenvolveu a comunhão dos santos (p. 140-144), qual interpretação recebeu no Vaticano II (p. 144-151). Esta é “uma teologia que surgiu com os mártires dos primeiros séculos do cristianismo, quando a Igreja começou a viver toda uma mística do martírio, que evidencia o testemunho de fé e a confissão da mesma, doando a própria vida como Cristo e por Cristo” (p. 188). Diante disso o “conceito de comunhão está no centro do autoconhecimento da Igreja, enquanto mistério da união pessoal de cada ser humano com a Trindade divina e com todos os homens e mulheres. É uma comunhão que a Igreja vive em mistério, que se expressa na caridade, pois começa com a fé, nesta terra, e tende para a plenitude escatológica da Igreja celeste após essa vida” (p. 152). A comunhão dos santos e santas numa só Igreja atinge seu ponto alto no Memorial do Senhor, quando celebra o sacramento da Eucaristia (p. 152-153), levando-se em consideração que a Igreja invisível está na Igreja visível (p. 153-155): “entre um cristão que vive na graça de Deus na terra, e um santo no céu, há apenas uma diferença acidental e não substancial. A substância lá e aqui é a mesma, que é a comunhão plena com Deus, a graça realizada” (p. 153), por isso , a Igreja peregrina venera e faz memória dos apóstolos e mártires, da Virgem Maria e os santos e santas dos seguidores e seguidoras de Jesus na terra, e dos defuntos. Esta teologia remonta à mais antiga tradição cristã, deixando claro, porém, de que Cristo é o término último e o mediador único de toda esta relação nossa como os santos e santas que veneramos na terra (p. 169-180). Por fim, a autora destaca que o Povo de Israel constrói sua história na esperança (p. 180-185), havendo assim a necessidade de resgatar esta esperança na escatologia (p. 185-186): “resgatar a esperança escatológica é o mesmo que afirmar nossa chegada à fonte única de toda a espiritualidade cristã: o Senhor Jesus passa pela morte para alcançar a plenitude da glória que lhe foi prometida pelo Pai, na força do Espírito que tudo vivifica e torna santo, como Deus Trino e Uno é Santo, Santo, Santo!” (p. 185).

Lina Boff conclui suas reflexões ressaltando que a escatologia cristã está radicada no mistério pascal de Cristo que vive na Igreja através dos sacramentos. A Escatologia se alimenta e se atualiza na força do Espírito Santo, possui um caráter eclesiológico, abraça o aspecto cósmico universal, com a esperança de uma Nova Criação, a de Novos Céus e Nova Terra, unindo os fiéis a Cristo num só povo, através da comunhão dos santos e santas. A escatologia constitui-se um evento realizado pela Trindade e aponta para a manifestação do Mistério Trinitário (cf. p. 188-190).

***

Dr. Cesar Kuzma prefaciou esta obra (p. 7-11), salientando que o livro “relaciona as grandes questões levantadas pelo Concílio Vaticano II com as aspirações sociais, na busca por um entendimento bíblico, no intuito de trazer sintonia para uma caminhada de um povo, que tem uma história e que no percurso dela vai se alimentando de uma esperança que sempre nos impulsiona e nos chama para um fim bom, para novos céus e para uma nova terra” (p. 8). De fato, Lina Boff sintetizou muito bem as orientações escatológicas do Vaticano II “enfatizando a dimensão pastoral conciliar, no sentido que a Escatologia não é, somente, uma questão de valor teológico, mas concerne todo o povo de Deus e a vida da humanidade. Trata-se de uma temática penetrada de evangelização e de enculturação do cristianismo que nascem da fé no Cristo ressuscitado” (p. 190).

Nesse sentido, o leitor tem a oportunidade de conhecer e aprofundar as linhas fundamentais da escatologia cristã a partir do novo rosto recebido dos ensinamentos do Concílio Vaticano II – privilegiando por Lina Boff na escatologia do sétimo capítulo da LG. Livro sintético e de visão ampla.

Em vista do aperfeiçoamento da obra - numa futura edição será preciso revisar o texto: nova ortografia, acentuações, espaçamentos etc. No geral recomenda-se à leitura de todos os que desejam aprofundar o sentido da nossa vida temporal.

 

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