ONG denuncia a indiferença internacional ante a dramática realidade em que vivem 1,3 bilhão de pessoas afetadas pela pobreza

Foto: Pixy

17 Outubro 2020

Em razão do Dia Mundial da Alimentação e o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza – 16 e 17 de outubro, respectivamente – a organização não-governamental Manos Unidas denuncia a indiferença internacional ante a dramática realidade que vivem 1,3 bilhão de pessoas afetadas pela pobreza multidimensional. Mesmo assim, a ONG recorda que às 690 milhões de pessoas que sofrem com a fome no mundo somar-se-iam entre 83 e 132 milhões de pessoas em razão da crise gerada pelo coronavírus, segundo estimativas do último informe publicado pela FAO.

A reportagem é publicada por Manos Unidas, 16-10-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Para a ONG de desenvolvimento, gerida pela Igreja Católica na Espanha, os avanços seguem lentos e insuficientes para alcançar as metas estabelecidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para a erradicação da fome e da pobreza. Pelo teor dos dados oferecidos pelas Nações Unidas, o cenário é alarmante: a fome no mundo não deixou de aumentar desde 2014, e se estima que, no ano passado, cerca de 2 bilhões de pessoas não puderam acessar regularmente a alimentos nutritivos e suficientes, 21,3% (144 milhões) de crianças menores de cinco anos sofreram atraso de crescimento e 6,9% com síndrome consumptiva ou magreza patológica.

 

As causas da fome: diversas e inter-relacionadas

“Há décadas sabemos que o sofrimento de tantas pessoas não se deve à escassez de recursos nem a causas naturais, mas sim às estruturas injustas e relações que estão baseadas na desigualdade”, afirma Fidel Podga, coordenador do departamento de pesquisa da Manos Unidas. Para ele, os fatores de fundo são muito diversos e interconectados: “a desigualdade no acesso aos bens, o consumismo dos mais ricos, as trocas comerciais injustas, as consequências da crise climática, a concentração de terras para fins extrativistas e agroindustriais, a especulação com o preço dos alimentos, um sistema alimentar que não está desenhado para satisfazer as necessidades da população, as guerras e conflitos e, em definitivo, a exploração de algumas pessoas por outras e de uns países por outros”.


Mulheres em Badibahal, Índia. Foto: Ana Luna | Manos Unidas

A estas causas acrescenta-se, segundo Podga, a “indiferença cômoda, fria e globalizada” a qual se refere o papa Francisco em Fratelli Tutti, a encíclica publicada em 03 de outubro. “Esta indiferença caracteriza o mundo contemporâneo e nos leva a nos ensimesmarmos e atuar, tirando forças de onde possamos, porque não queremos dar nenhum passo atrás na luta contra a fome”.

 

A pandemia atinge com gravidade as populações mais vulneráveis

A partir da Área de Projetos da Manos Unidas e baseando-se em estimativas das Nações Unidas, Encarni Escobar assegura que “a crise sanitária, econômica e social desatada pelo coronavírus ameaça afundar uma década de avanços contra a pobreza. A perda de rendas, os frágeis sistemas de proteção social e o aumento dos preços estão afetando majoritariamente as pessoas mais vulneráveis e estão empurrando a fome a populações que antes estavam a salvo, como os 29 milhões de latino-americanos que, segundo alerta a Cepal, cairão abaixo do limiar da pobreza devido à pandemia”.


Pequenos agricultores, em Cutervo, Peru. Foto: ESCAES | Manos Unidas

Exemplos destes impactos se encontram em qualquer país da África, Ásia e América, nos quais a Manos Unidas trabalha. “No Peru, o confinamento e o fechamento dos mercados causou muitos danos às famílias camponesas, porque os preços dos produtos agrícolas baixaram e, com isso, também a renda de subsistência dessas famílias”, afirma María del Carmen Parrado, coordenadora da ESCAES, associada da Manos Unidas no país.

Em Mzimba, Malauí, comunidades camponesas atingidas pela fome, secas e desastres naturais esforçam-se para garantir alimentação em um contexto agravado pelo coronavírus. “O ‘normal’ nesta zona é fazer uma refeição ao dia à base de um mingau de farinha de milho”, diz Beatriz Hernáez, responsável de projetos da Manos Unidas no Malauí. “A agricultura é muito estacional e depende de um clima cada vez mais difícil e de um pequeno comércio por escambo no qual o valor de câmbio é um saco de milho. Por esta razão, um juiz suspendeu o confinamento decretado pelo governo que impedia as famílias de fazer intercâmbios locais. A situação do país frente à pandemia é preocupante: uma das mais altas densidades de população na África, um sistema sanitário muito fraco e uma população de migrantes retornando da África do Sul”.

Algo similar ocorre em Badibahal, Índia, onde o fechamento dos circuitos comerciais provocou praticamente a perda de toda a colheita de primavera, com exceção do pouco que os agricultores puderam vender “porta-a-porta”. Como relata a irmã Shanti Priyal, do Centro de Desenvolvimento Social Bethany, associada local das Manos Unidas, “os pequenos camponeses estão tendo acesso apenas às ajudas do governo, perderam o dinheiro investido em seus cultivos e não estão podendo devolver os empréstimos contraídos com os proprietários de terras”.

 

Três desafios para lutar contra a fome em tempos de coronavírus

“A magnitude desta crise põe-nos à prova e nos obriga a assumir desafios que não são novos, mas inevitáveis, já que hoje é mais necessário do que nunca acompanhar a população excluída e consolidar sua resiliência e seus meios de vida com o apoio de nossos projetos”, afirma Encarni Escobar.

O primeiro desafio é garantir o acesso a alimentos seguros, nutritivos e suficientes. Para tanto, a Manos Unidas apoia iniciativas agroecológicas de pequenos produtores, busca garantir fontes de água adequadas e fortalecer os sistemas de processamento e comercialização. “Nestes meses de pandemia, a agricultura familiar sustentável salvou muitas comunidades da fome. Através da formação, das infraestruturas hídricas e do apoio técnico e financeiro, apostamos nos mercados locais, na associação dos produtores e no acesso à terra e aos meios de produção, para que as famílias obtenham rendimentos mais estáveis e não sejam obrigadas  a migrar para as cidades”, acrescenta Escobar.


Malauí. Foto: Beatriz Hernáez | Manos Unidas

“O segundo desafio é garantir que as organizações locais sejam cada vez mais fortes e estáveis para que possam reivindicar e defender seus direitos”, diz Encarni Escobar. “Se não conseguirmos isso, seria pão para hoje e fome para amanhã. Por isso, promovemos processos de capacitação e apoio na defesa de seus direitos, o que hoje é cada vez mais importante, pois os direitos são cada vez menos garantidos com a desculpa da pandemia: há mais abuso de poder, violência e impunidade”, concluiu.

Fidele Podga fala de um terceiro desafio, “talvez o mais importante e o mais complexo: transformar nossos estilos de vida e consumo para que sejam uma verdadeira vacina contra a fome e a pobreza”. Podga incentiva cada pessoa a se fazer várias perguntas: “O que eu como? Quanto eu como? Quanto jogo fora? Onde compro? Quem o produz? Onde o produz? Ele produz? Para que ele produz? Onde eu invisto minhas economias?”.

Para o coordenador do departamento de pesquisas da Manos Unidas, “não se trata de responder a estas perguntas com espírito acusador ou culpabilizante, mas com profunda responsabilidade, para que nos ajude a situar-nos entre os dois tipos de pessoas identificados pelo Papa na sua última encíclica: ‘quem cuida da dor e quem sofre’, pois, como dirá poucas linhas depois, nesses momentos de crise a opção passa a ser premente: ‘todo aquele que não é ladrão ou todo aquele que não passa ao largo, ou está ferido ou põe algum ferido nos ombros’”.

 

Festival de Curtas-Metragens

Desde 15 de outubro a Manos Unidos promove o XII Festival de Curtas-Metragens que, nesta ocasião, tem o objetivo de defender o direito à saúde. O Festival de Curtas-Metragens da Manos Unidas é uma atividade de educação para o desenvolvimento que tem como objetivo promover, fundamentalmente entre os jovens, a consciência social e o compromisso. Os participantes apresentarão para concurso um vídeo de um minuto de duração que visibilize a desigualdade no acesso aos recursos sanitários que sofrem as pessoas mais empobrecidas.

Informações sobre o festival estão neste link.

 

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