“Na Fratelli Tutti, o Papa expressa uma sabedoria pessoal e política”. Entrevista com Pablo Servigne

São Francisco de Assis | Foto: Frei Augusto Luiz Gabriel

16 Outubro 2020

Há três anos, Pablo Servigne, engenheiro agrônomo e especialista em colapsologia, assinou com Gauthier Chapelle o livro L'Entraide. L’autre loi de la jungle (A ajuda mútua. A outra lei da selva, (Éd. Les Liens qui libèrent). Nesta entrevista, reage à encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco.


A entrevista é de Marie-Lucile Kubacki, publicada por La Vie, 06-10-2020. A tradução é de André Langer.

 

"Eu li a Fratelli Tutti como uma das últimas tentativas diplomáticas antes da eclosão de guerras civis e conflitos de massa", é o seu testemunho.

 

Eis a entrevista.

 

O que chama sua atenção na última encíclica do Papa Francisco?

Compartilho sua constatação de que a modernidade tornou-se cega e surda ao clamor da natureza, dos pobres e dos excluídos, em particular por causa das viseiras do curto prazo. O Papa Francisco cita vários sintomas disso: o abandono dos idosos, das raízes, de tudo o que possibilita nosso sentido de pertença e de segurança, essenciais para o vínculo social e a fraternidade. Com Gauthier Chapelle, estudamos em profundidade os mecanismos da ajuda mútua, da cooperação e do altruísmo no mundo vivo. A conclusão é que toda construção da ajuda mútua e da cooperação em um grupo é uma aposta de longo prazo. A cegueira do curto prazo só pode destruir isso. É estrutural. Um amigo me disse: “Nós nos tornamos sem domicílio, órfãos e zumbis...”. De fato, carecemos de raízes, de sentimentos de pertença, de vínculos com os mais velhos e com a natureza, que nos conecta ao tempo longo, e nós perambulamos como indivíduos perdidos, abatidos e sem rumo, destruindo nosso meio ambiente.

 

 

Francisco faz uma ampla análise do que impede a fraternidade, um tema sobre o qual você mesmo trabalhou...

É difícil citar todas as barreiras à fraternidade, mas estou impressionado com sua reflexão sobre a questão vital das redes sociais. Acabei de ver o documentário O Dilema das Redes (The Social Dilemma), que mostra como os GAFA e as redes sociais são instrumentos que matam a democracia porque criam bolhas onde todos são confortados em seus pensamentos e crenças. Este entre-si não apenas não promove o diálogo, como cria divisões e polarizações, como nos Estados Unidos, entre democratas e republicanos, bem como bolhas de “infox”, cheias de teorias da conspiração. Tudo isso constitui um crime contra a democracia. As lógicas alimentadas pelas redes sociais são verdadeiras drogas que pirateiam a sociabilidade – a comunidade e a fraternidade – natural dos humanos, em benefício das grandes empresas e de seus lucros privados.

 

 

Que paralelos você vê entre a reflexão do Papa e sua própria obra?

Gosto do fato de o Papa não descartar a razão. Para cultivar a fraternidade, diz ele, você precisa da razão, da fé e do amor. Com Gauthier Chapelle, estávamos particularmente interessados naquilo que a ciência tornou possível descobrir sobre a fraternidade, a ajuda mútua e o altruísmo. Chegamos à conclusão de que a abundância é um ambiente paradoxalmente favorável ao surgimento da competição e do individualismo. Por outro lado, um ambiente hostil – uma catástrofe – cria automaticamente ajuda mútua e solidariedade. Os seres humanos são naturalmente programados para o altruísmo e a ajuda mútua, mas isso não é suficiente: também existe a necessidade de contar com as instituições certas, para que o melhor de nós possa aparecer e perdurar.

 

 

Hoje, a ideologia neoliberal assumiu uma escala insana, gravando a competição e a agressão como lei da natureza e das sociedades no mármore das instituições. A competição convida à desconfiança, ao retraimento, à agressão e à manipulação. Isso destrói nossas sociedades e enfraquece nosso senso de segurança e de confiança. As pessoas têm uma sensação de injustiça, que é extremamente tóxica com a emergência da ajuda mútua no grupo. Desconfiança, injustiça e insegurança são a fórmula ideal para destruir uma sociedade.

 

 

Esse clima de crise é realmente propício à fraternidade? Poderíamos pensar, ao contrário, que prevalece a lógica do salve-se quem puder!

Não são as penúrias que são perigosas do ponto de vista dos desastres globais – e penúrias nós veremos no próximo século –, porque os seres humanos já passaram por séculos de penúria. O que é perigoso, porém, é entrar nas penúrias com uma cultura de egoísmo. Nos últimos dois ou três séculos, e principalmente nos últimos 50 anos, temos sido levados a comportamentos egoístas, que contradizem nossas tendências altruístas, e nos levam a imaginar que o outro é egoísta, por um efeito de profecia autorrealizável. Se imaginarmos que o vizinho é um péssimo egoísta que espera a crise para roubar nossos víveres, tenderemos a dar sinais de uma agressividade preventiva que só atiçará as brasas! Há, portanto, um esforço a ser feito no imaginário da história para derrotar essa chamada lei única da selva ritmada pela competição. Para fazer isso, precisamos desinibir as pessoas que têm apetite por ajuda mútua e altruísmo: essas não são ingênuas nem ursinhos de pelúcia. Está cientificamente comprovado que aqueles que sobrevivem às crises não são os mais fortes; são aqueles que mais se ajudam.

 

 

Mas desconfiar do vizinho não é um reflexo... humano?

Experiências econômicas mostram que o Homo economicus, o ser racional e egoísta, não existe. No primeiro contato, o ser humano é antes altruísta, “pró-social”, mas é cauteloso. A desconfiança é normal e muito saudável. Mas, uma vez que o primeiro contato pró-social se estabeleceu, reage-se em função da reação do outro. Se o outro reage de forma egoísta, nós também o fazemos e é guerra. Se ele reage de maneira altruísta, temos essa reciprocidade e é paz. Essa regra simples é o mecanismo mais estável no nível evolutivo para os indivíduos e também é válida para os países. O problema é que chegamos a escalas de desconfiança, injustiça e insegurança tão imensas, sistêmicas, que é difícil conter as grandes barbáries potenciais.

 

 

Por quê?

Os países são desiguais, alguns são mais fortes, mais poderosos, alguns têm direito de voto na ONU, alguns não participam do bem comum, etc., e esse clima de desigualdade e injustiça torpedeia a cooperação internacional. Em sua encíclica, o Papa Francisco oferece soluções para a cooperação internacional e ousa falar de reconciliação, perdão e dignidade. É importante depor as armas e iniciar um diálogo com as pessoas com quem estamos em conflito, para se conseguir “a construção de desacordos” (Patrick Viveret). Devemos, para retomar as palavras do sociólogo Marcel Mauss, “conseguir nos opor sem nos massacrar”. Eu li a Fratelli Tutti como uma das últimas tentativas diplomáticas antes da eclosão de guerras civis e conflitos de massa.

 

 

Essa insegurança global é uma consequência da globalização?

O Papa evoca o paradoxo da globalização: a abertura das fronteiras provocou, paradoxalmente, recuos identitários, regionalistas e nacionalistas. O problema é ter aberto as fronteiras sem proteger os povos, promovendo a competição de todos contra todos, com a consequência da destruição do tecido social. Sem justiça e segurança, que são necessidades básicas, as pessoas clamam pelo retorno do autoritarismo, como se vê hoje. Pão abençoado para os populismos. Esta encíclica é importante porque o Papa enfatiza o amor, a fé, os sentimentos individuais que levam a ajudar os outros, mas ele também insiste no fato de que isso é essencial, mas não suficiente. Daí sua insistência no aspecto político. Convida-nos a lutar contra as causas estruturais da pobreza e das desigualdades. Ao fazer isso, encontra-se preso também ele neste paradoxo, porque afirma a necessidade de um Estado ativo e presente para as pessoas frágeis, sob o risco de contar com organizações estatais autoritárias e de uma vigilância generalizada. Mas estamos todos presos neste paradoxo, e o Papa é tudo menos ingênuo: ele expressa sabedoria pessoal e política.

 

 

Politicamente, ele coloca os migrantes no topo das prioridades. O que você acha?

Isso me comove, porque somos todos migrantes em potencial. No último final de semana, a região do Mercantour [sul da França] foi atingida por uma tempestade. Estradas e casas foram destruídas e a eletricidade, a água potável e as telecomunicações foram cortadas. A ajuda mútua, no entanto, revelou-se novamente de maneira muito forte. Uma parte da população deste vale, que acolhia migrantes, tornou-se ela própria migrante! A figura do migrante, de quem podemos ter medo e a quem podemos rejeitar quando vivemos com um certo conforto, na verdade nos remete à nossa própria vulnerabilidade, porque os desastres são globais e podemos ser as próximas vítimas. As catástrofes se tornarão cada vez mais intensas e frequentes no século XXI.

 

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