29º Domingo do tempo comum – Ano A – O ser humano é imagem de Deus

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Por: MpvM | 16 Outubro 2020

"Que implicações têm nos sabermos feitos à semelhança de Deus? Como realizar esta semelhança? Deus nos chama a ser sua luz no mundo, reflexo de sua imagem. O evangelho nos convida a nos inspirarmos em Jesus, que não se deixou seduzir por falsos elogios. Vivemos em um tempo de simulacros em que tudo parece, e na verdade não é. Um mundo com apelo profundamente narcísico, idólatra da própria figura, circunscrito em si mesmo, sem abertura para Deus e expansão dos seus potenciais que pode nos ludibriar e diminuir, nos confundir de quem somos e o que realmente é essencial."

A reflexão é de Soraia Dojas Melo Silva Carellos. Ela possui graduação em psicologia pela PUC Minas (1983) e mestrado em psicologia pela Universidade do Rio de Janeiro - UFRJ (2001). Atualmente é professora no curso de Psicologia da PUC Minas. É membro da Rede Celebra, coordenadora da Equipe de Liturgia na Paróquia Igreja de Santana Serra em Belo Horizonte, onde também participa de grupos de leitura orante da Palavra.

Leituras do Dia
1ª Leitura - Is 45,1.4-6
Salmo - Sl 95,1.2a.3.4-5.7-8.9-10a.c (R. 7ab)
2ª Leitura - 1Ts 1,1-5b
Evangelho - Mt 22,15-21

 

 

A liturgia deste domingo nos conduz à experiência de Deus como único Senhor da história e de cada um de nós. Não existe outro, Ele é o Senhor de toda a humanidade. Refletimos a sua luz no mundo, uma vez que somos sua imagem e semelhança.

No evangelho (Mt 22,15-21) Jesus está em Jerusalém e, como acompanhamos nos últimos domingos, a cada momento os conflitos se acirram entre Jesus e as lideranças religiosas e políticas daquela época. Neste episódio são os discípulos dos fariseus e os herodianos que armam uma cilada para Jesus. Os fariseus que rejeitavam o poder dos romanos, mas não se rebelavam, usufruindo das benesses. Para eles era possível conciliar fidelidade a Deus e normalizar sujeição ao sistema que os dominava. Já os herodianos apoiavam e reconheciam o poder imperial do César. Eles chegaram fazendo elogios a Jesus e trouxeram uma questão ardilosa: “É lícito ou não pagar imposto a César?” Pergunta provocadora, que colocaria dificuldades ao Mestre de Nazaré. Se Jesus respondesse sim ao pagamento do tributo trairia o povo e se respondesse não estaria incitando a subversão contra o César.

Jesus percebeu a falsidade dos elogios e a maldade contida na questão colocada. Explicitou a hipocrisia dos seus interlocutores e pediu que lhe mostrassem a moeda e dizendo de quem era a figura e inscrição nela contida, Jesus os coloca diante do equívoco da própria pergunta. A moeda era instrumento de poder político, o tributo tem lugar de dominação. Aí está a preocupação central deles, estão preocupados com o poder e com dinheiro. Reconheciam a soberania de César, mas não reconheciam a soberania de Deus.

A partir da resposta deles de que César figurava na moeda, Jesus os surpreende dizendo: “Dai pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Esta resposta de Jesus, em um primeiro momento, nos intriga, nos desinstala. Ele não negava a existência e a exigência da ordem política e econômica, mas apontou definitivamente para Deus. Onde está e qual é a imagem de Deus? Qual a relação entre o que está colocado a César e a Deus? Quem era o soberano verdadeiro?

Jesus, ao fazer esta distinção, nos possibilita perceber que o que é de César, a moeda, estava circunscrita a um espaço, a um império de um rei circunscrito. As dimensões ficam claras. Deus não tem circunscrição! Frente a todos os poderes, a sua soberania é universal.

Mas, e o que pertence a Deus? A Deus pertence toda a humanidade, toda a criação, inclusive o metal da moeda. A imagem de Deus está em cada ser humano. Fomos feitos à sua imagem e semelhança. Como nos diz um estudioso: “até mesmo os césares pertencem a Deus”. Aqui se desvela onde está centrada a preocupação de Jesus: no ser humano. O humano é de Deus, ele é quem tem valor para Deus. Santo Agostinho diz:

“Assim como César busca a sua imagem em sua moeda, assim Deus busca a sua em tua alma”, e noutra parte, “O que Deus te pede? Sua imagem.”

A primeira leitura (Is 45,1.4-6) na sua relação com o evangelho nos ajuda a aprofundar um pouco mais a compreensão dos ensinamentos de Jesus.

O imperador Ciro, da Pérsia, depois de conquistar a Babilônia, liberta o povo de Israel permitindo que voltassem para sua terra. Diz o texto, Deus o tomou pela mão, escolhendo um rei estrangeiro para realizar a justiça. Ciro, chamado ungido de Deus, que quer dizer messias, abriu caminho para o povo de Deus.

Jesus, o verdadeiro Messias, ao dizer “dar a Deus o que é de Deus” abriu caminho para o ser humano voltar-se para Deus, possibilitando que o homem retornasse a ser quem ele é de fato, a imagem do criador. Na sua morte Jesus atraiu para si tudo o que desfigura o ser humano e na sua ressurreição ele restituiu a imagem de Deus a cada pessoa, homem e mulher. Assim, Jesus aponta para o que é essencial, para o que realmente importa.

Que implicações têm nos sabermos feitos à semelhança de Deus? Como realizar esta semelhança? Deus nos chama a ser sua luz no mundo, reflexo de sua imagem. O evangelho nos convida a nos inspirarmos em Jesus, que não se deixou seduzir por falsos elogios. Vivemos em um tempo de simulacros em que tudo parece, e na verdade não é. Um mundo com apelo profundamente narcísico, idólatra da própria figura, circunscrito em si mesmo, sem abertura para Deus e expansão dos seus potenciais que pode nos ludibriar e diminuir, nos confundir de quem somos e o que realmente é essencial.

Além disto, observamos o inaceitável se normalizar. Os valores estão invertidos. Parece natural que em tempos de pandemia nos preocupemos prioritariamente com a economia, o lucro em detrimento da vida. O poder econômico é o que move o mundo, e não o dinheiro justamente distribuído para que a dignidade humana e da criação se afirme. Parece que é assim que os césares de hoje querem. Está faltando, nessa história humana tão patriarcal, espaço para o feminino de Deus que cuida da vida.

O que é ser cristão neste contexto? Jesus convida-nos a ser presença de Deus no mundo. Ele não foge aos seus interrogadores. Ao contrário dos fariseus, Ele mostra não ser possível harmonizar a semelhança de Deus normalizando injustiças. Nossas responsabilidades civis têm que estar subordinadas à nossa realidade de filhos de Deus. Como o salmista, que possamos entoar cânticos de louvor ao Senhor do Universo, reconhecendo Nele toda a verdade e o sentido da vida. Que a existência seja um louvor, agradável e verdadeiro como Deus quer.

Paulo, na segunda leitura (1Ts 1,1-5b), agradece a Deus a fé, o amor e a esperança da comunidade dos tessalonicenses. Essa ação de graças nos ajuda mais um pouco a pensar que é preciso para realizarmos a imagem de Deus em nós: aderir a Jesus, transformar as relações entre as pessoas e não perder a esperança. Neste momento, que todo o mundo passa por desafios semelhantes, é preciso reafirmar estas realidades comuns e buscar avivar a esperança e a solidariedade. Nós, mulheres e seguidoras de Jesus deste tempo, precisamos não perder de vista a importância de nos colocarmos e de lembrarmos às mulheres próximas e distantes o seu valor, dando voz a muitas que são silenciadas. De não nos furtarmos aos nossos lugares no mundo, inclusive na Igreja, promovendo relações de parceria e cancelando relações de sujeições. Precisamos nos abraçar e fazer expandir o feminino que está faltando na figura deste mundo.

Quero encerrar lembrando a oração pós comunhão: “Dai-nos ó Deus, colher os frutos da nossa participação na Eucaristia para que, auxiliados pelos bens terrenos, possamos conhecer os valores eternos”. Que os bens terrenos possam ser instrumento e ocasião de viver e experimentar os verdadeiros valores, pois só assim o ser humano se realizará. Que possamos “dar a Deus o que é de Deus”.

Paz e bem a todos e todas.

 

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