Diante da grande crise global, a desigualdade nua e crua mostra sua face. Entrevista especial com André Aroeira

Muitas são as crises que dão forma ao cenário global caótico em suas dimensões ecológicas, sociais, econômicas e sanitárias, mas são os pobres quem pagam a maior conta

Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Por: Ricardo Machado | 15 Outubro 2020

O coronavírus trouxe a nu muitas das contradições sob as quais o mundo globalizado assenta seus pilares, dentre elas o fato de que os ricos desfilam a própria soberba sobre os corpos dos pobres adoecidos, quando não sobre seus cadáveres. “Sempre os mais afetados são as pessoas em vulnerabilidade maior, com moradias inapropriadas, que não conseguem se isolar e não têm renda para ficar dentro de casa”, pondera André Aroeira, em entrevista por telefone à IHU On-Line. “Trata-se de um vírus que mostrou bem esta desigualdade”, complementa.

 

Por outro lado, lições valiosas, que antes pareciam impossíveis, foram aprendidas. “As crises econômicas de vários países, bem como a queda do Produto Interno Bruto - PIB e a economia paralisada, mostraram que o debate ambiental dos últimos anos, que defendia reduções da exploração dos recursos, era razoável. Mostraram que está tudo interligado e que o esforço de redução que somos capazes de fazer é muito maior que imaginávamos”, avalia.

 

Quanto ao futuro, no entanto, Aroeira observa o Brasil com preocupação, especialmente em relação à possibilidade de recuperação do bioma Pantanal. “O futuro se torna muito preocupante porque, se esses cenários forem recorrentes, chega um momento em que não se consegue recuperar mais. Se grandes áreas queimadas não se recuperarem, seria um prejuízo incalculável para um bioma cujos estudos indicam o risco de desertificação”, analisa.

 

Nada disso, porém, é definitivo e há saídas, por mais difíceis que seja percebê-las. “Nós precisamos mudar a relação com o meio ambiente, trabalhar com muito mais cuidado e operar sob o princípio da precaução. Se a gente conseguir sair disso (da pandemia) com maior confiança na ciência e com a renda básica, que vai mudar totalmente as relações de trabalho, já será uma grande lição para o Brasil e com certeza tem muita coisa a ser aproveitada”, sugere.

 

André Aroeira (Foto: arquivo pessoal)

 

André Aroeira Pacheco é graduado em Ciências Biológicas, com ênfase em conservação da biodiversidade, e mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre, ambos pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Sua atuação é focada em economia ecológica, serviços ecossistêmicos, mecanismos de financiamento e gestão de unidades de conservação e políticas públicas para a conservação da biodiversidade.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Até que ponto a pandemia mundial jogou luzes sobre as três grandes crises que temos vivido – ecológica, social e econômica – e a partir de que ponto ela é, justamente, o resultado dessas crises?

André Aroeira – A pandemia mostra de maneira muito clara e contundente nossa relação completamente equivocada, predatória e despudorada com o meio ambiente. Não há protocolos de como se relacionar com o meio ambiente, então se desmata, invade, caça, modifica e queima com uma facilidade muito grande. Com o passar dos anos as coisas estão piorando e ficando ainda mais fora de controle. A pandemia já era esperada e anunciada; a surpresa foi ela não ter chegado antes no Brasil, embora, devido à globalização, era certo que ela chegaria, como chegou.

A crise social se revela com mais intensidade. Sempre os mais afetados são as pessoas em vulnerabilidade maior, com moradias inapropriadas, que não conseguem se isolar e não têm renda para ficar dentro de casa. Essa população tem comorbidades maiores, tendem a ser mais obesas, mais hipertensas, tem menos acesso à saúde, uma qualidade nutricional precária na infância e na vida adulta, o que torna todas essas pessoas mais vulneráveis à mortalidade. Trata-se de um vírus que mostrou bem esta desigualdade. É por isso que as populações pobres de periferias morrem muito mais, pagando o preço de andar de ônibus e transportes supercontaminados e levando o risco para dentro de casa, vulnerabilizando toda a família.

 

 

Do ponto de vista da economia, da renda e do trabalho, vimos questões muito claras de como os recursos são divididos, como eles podem ser monopolizados, como a fragmentação dos processos industriais e produtivos prejudicam uma logística global e como somos vulneráveis. Além disso trouxe à tona toda a nossa fragilidade em equipamentos hospitalares, testes, máscaras, EPIs em geral. Penso que teremos muitos aprendizados do ponto de vista econômico, ainda mais levando em conta todas as dificuldades que tivemos para controlar essa epidemia e, principalmente, no fracasso que muitos países, inclusive os ricos, tiveram.

As crises econômicas de vários países, bem como a queda do Produto Interno Bruto - PIB e a economia paralisada, mostraram que o debate ambiental dos últimos anos, que defendia reduções da exploração dos recursos, era razoável. Mostraram que está tudo interligado e que o esforço de redução que somos capazes de fazer é muito maior que imaginávamos. Quando a crise aperta mesmo, percebemos que conseguimos fazer esforços muito grandes, conseguimos fechar países, reduzir drasticamente a atividade industrial e fazer mudanças que antes pareciam impossíveis.

Aí está um aprendizado sobre as mudanças climáticas, pois é uma crise que virá com muita força e tende a ser muito pior que o coronavírus, prometendo agravar as desigualdades sociais de maneira muito mais intensa e afetar economias de maneira mais complexa, impactando a infraestrutura, o trabalho, a energia e todas as demais dimensões. Estamos diante da possibilidade de pensarmos nestas três crises e de como tratá-las de maneira conjunta, observando as sinergias que elas têm, também, como um grande aprendizado.

 

IHU On-Line – Quais têm sido as consequências, do ponto de vista social e econômico, da gestão ambiental no Brasil sob a batuta do trio Salles, Mourão e Bolsonaro?

André Aroeira – A pior coisa desta gestão ambiental é que as consequências delas serão maiores no médio e longo prazo, apesar das sanções econômicas imediatas que já estamos sofrendo de diversos países. O pior, no entanto, é a perda estratégica do potencial de uso de nossas florestas, de nossa biodiversidade para o futuro. A questão é: será que o Brasil vai ser sempre um exportador de commodities – minério bruto, soja in natura? As nossas florestas, a biodiversidade, é o que temos de único, isso é a nossa possibilidade de futuro. Isso é o que há de mais avançado em termos de debate internacional sobre inovação. Quando olhamos para o presente e vemos uma gestão ambiental predadora, corremos o risco de passar do ponto de não retorno, ao menos na parte oriental, e isso compromete muito o que as gerações futuras vão viver.

Se tivermos agravamento da questão climática, seca, mais incêndios, savanização, menos água – estamos passando semanas de muito calor, que são um prelúdio do que pode ocorrer –, quem vai sofrer com tudo isso são as gerações que estão por vir. Isso tem as consequências sociais que conhecemos, mas não são tão óbvias no curto prazo, é o agravamento de desigualdades e a piora das condições de vida das pessoas que estão na parte de baixo da pirâmide social. Por mais complicado que seja hoje, quem ainda não nasceu, quem está crescendo é quem vai sofrer as consequências desse governo; ainda que dure quatro anos ou menos, já temos um prejuízo enorme para o futuro.

 

 

IHU On-Line – Recentemente, em discurso gravado para a assembleia da ONU, Bolsonaro mentiu sobre uma série de dados e colocou a culpa das queimadas no Pantanal nos povos indígenas. Como essas declarações têm repercutido no debate ecológico em nível global?

André Aroeira – Os dois discursos – na Assembleia Geral e na Cúpula para a biodiversidade – na ONU foram vergonhosos. Em ambos os casos Bolsonaro nega os desastres ambientais e se fia em dados passados, defendendo que o Brasil é o país que mais preserva, que tem um código florestal rígido, mas estas são conquistas antigas que estão sendo perdidas.

Entre 2003 e 2009 o Brasil fez o maior esforço de conservação do mundo, criava áreas protegidas, demarcava terras indígenas, havia planos de estradas, a criação do ICMBio, um plano de preservação da Amazônia saindo do papel etc. Esses foram os resultados defendidos por Bolsonaro, mas foram implementados pelo governo PT sob a gestão de Marina Silva à frente do Ministério do Meio Ambiente.

Depois, quando muda para o governo Dilma, há um afrouxamento destas políticas de preservação, mas nem perto do que vemos atualmente. O fato é que o governo não tem o que mostrar e, inclusive, lá fora não tem muito o que salvar do discurso do Brasil. Ninguém leva a sério o que Bolsonaro fala, até por isso esse discurso da ONU foi voltado mais para seu público interno, sua base, e tratou de questões domésticas que não interessam a outros países. Foi uma fala com forte viés ideológico, forçando a polarização, aquilo que já conhecemos, porque o próprio Bolsonaro já percebeu que o mundo não o leva a sério e não vai cair no discurso dele.

Bolsonaro fala de uma postura do Brasil que não é a realidade e está jogando a bola para os outros países, mentindo de forma aberta. Todo mundo sabe que ele está mentindo, mas trata como um desafio do tipo “a bola está aí com vocês, vamos ver o que vocês vão fazer”. Ele está apostando totalmente na negação dos retrocessos, e a fase de se preocupar como o presidente será recebido pela comunidade internacional já passou.

 

 

IHU On-Line – O que significam os recentes ataques do general Heleno ao movimento indígena? Que riscos estão implicados nestas ameaças?

André Aroeira – As declarações do general Heleno têm sempre o mesmo tom, uma coisa conspiratória, totalmente ideologizada, falando que a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - Apib estava ligada a partidos de extrema esquerda, ao Psol e a Leonardo Di Caprio, e que isso seria um crime de lesa-pátria. Vindo dele, nada disso é novidade, mas também nada disso corresponde à realidade.

O movimento indígena não é nem juridicamente estabelecido, mas uma coalização de movimentos indígenas com várias lideranças que estão trabalhando com as ferramentas que têm. Esses movimentos fazem as denúncias porque não há diálogo e existe um completo desrespeito pelos direitos constitucionalmente previstos aos povos indígenas. Nada mais natural que discursos como estes fossem ocorrer, mas estamos vendo um agravamento gradual dos conflitos. Afinal, os povos indígenas sempre tiveram conflitos com todos os governos, sem exceção, porque nunca houve um governo que se pudesse dizer que era realmente amigo dos povos indígenas, que trabalhou ativamente pelos seus direitos.

Tivemos alguns momentos bons, espaçados no tempo, dentro de algum governo, mas nenhum deles foi uma lua de mel. No governo Dilma vimos uma série de disputas dos indígenas contra projetos estatais, principalmente em função de Belo Monte e outras hidrelétricas. O cacique Raoni era inimigo do governo, mas também houve embates nos governos Temer, Lula, FHC, enfim não é uma exclusividade deste governo.

Heleno exagera e fala de crime de lesa-pátria, mas lesa-pátria mesmo é o desrespeito ao que está dado na Constituição, ou seja, a demarcação de terras indígenas, o cuidado dos povos isolados. O que ocorre, entretanto, é o contrário, afinal entregaram a gestão da Funai para missionários e a militarizaram, além de fechar suas bases.

Essas declarações do general Heleno são mais do mesmo e o maior perigo é realmente o que já vem sendo feito com a manutenção dessa política anti-indígena que é muito danosa, refletida nos inúmeros casos de mortalidade nas comunidades por covid-19 e muitos casos também de violência contra esses povos. Isso é a pior coisa que vem desse governo, e não será mais uma declaração vulgar de um general rico em declarações vulgares que vai fazer muita diferença. O pior já está acontecendo.

 

 

IHU On-Line – Do ponto de vista ambiental, quais as consequências do incêndio que devastou 20% do bioma Pantanal? Se é possível, como e em quanto tempo deve se dar a recuperação do bioma?

André Aroeira – A cada mês vemos o Pantanal bater recordes históricos em volume de queimadas, agora com 20% do bioma queimado, regiões inteiras arrasadas, muitos animais sofrendo com as queimadas e um impacto muito grande nos próximos anos. Os animais que sobrevivem estão muito debilitados e, além disso, com área de vida diminuída, oferta de água e alimentos reduzidos, a competição entre eles e a superpopulação em áreas que não foram destruídas tendem a aumentar.

Será um processo lento de recuperação preocupante, não só para a fauna, mas para a flora também, porque os estudos indicam que demorará ao menos 40 anos para que ela volte ao estado normal. Tudo isso porque esses eventos podem se tornar mais recorrentes e com uma seca anunciada que está agravando a situação dos incêndios, tornando-os mais fortes e devastadores.

Se nos próximos três anos ocorrer mais um incêndio grande, não teremos como recuperar, porque não temos políticas para isso. Há uma tendência de seca devido às mudanças climáticas globais e locais, como a redução dos rios voadores que vinham da Amazônia, que levam umidade para o Pantanal, áreas de recarga comprometidas pelo agronegócio – com ocupação para soja –, as cabeceiras dos rios sendo ocupadas com centrais hidrelétricas – são centenas de projetos.

O cenário futuro se torna muito preocupante porque, se esses cenários forem recorrentes, chega um momento em que não se consegue recuperar mais. Se grandes áreas queimadas não se recuperarem, seria um prejuízo incalculável para um bioma cujos estudos indicam o risco de desertificação. Como no Pantanal não há espécies endêmicas – que só ocorrem lá –, não devemos ver uma grande extinção, mas se trata de extinção de populações valiosas e as espécies ameaçadas podem ser muito reduzidas. Além disso, o deterioramento do bioma no longo prazo pode ser fatal para grande parte da população dessas espécies.

Para recuperar essa área é necessário a implantação de políticas eficazes de combate a incêndios, fiscalização forte daqueles que são criminosos, grande esforço de educação ambiental para manejo de fogo, inclusive nas propriedades privadas. Isso porque há muitos incêndios que, mesmo não sendo criminosos, ocorrem por ignorância ou má gestão dos focos. Precisamos de investimentos muito grandes em brigadas de incêndio e estar preparados para não sermos pegos de surpresa como fomos agora, porque esse governo não está preparado para estas questões ambientais.

 

IHU On-Line – O vice-presidente Mourão defendeu recentemente a criação de uma agência que concentre o monitoramento via satélite da Amazônia. Qual o interesse e a necessidade de uma nova agência que, em certo sentido, sobrepõe o trabalho realizado pelo Inpe?

André Aroeira – A criação de uma agência para sobrepor uma infraestrutura como a do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe não tem nenhuma justificativa técnica. Ela só se justifica porque o governo não gosta das pesquisas que o Inpe divulga. O que pode acontecer é a criação de uma agência militarizada, com o comando do Ministério da Defesa, em que não teremos a mesma publicidade dos dados que o Inpe já faz, nem a expertise do Inpe, que desenvolveu os softwares, os algoritmos e criou todos os sistemas de monitoramento e alertas.

O máximo a que essa nova agência poderia chegar é ao que o Inpe já faz e não há nenhuma razão para isso. Além disso, há a interação do Inpe com outras agências, pois há um fluxo com o Ibama, o Ministério do Meio Ambiente etc. A criação de uma nova agência não tem razão alguma senão dificultar o acesso à informação e prejudicar o combate ao desmatamento e às queimadas.

 

 

IHU On-Line – Como o fato de a Noruega disponibilizar publicamente imagens de satélites em alta resolução da Amazônia atrapalha os planos de Mourão? Do ponto de vista da geopolítica internacional, quais podem ser as consequências para o Brasil?

André Aroeira – Para os planos do Mourão isso não fará muita diferença porque essas imagens que a Noruega está disponibilizando estavam previstas no contrato da Polícia Federal e tinha sido uma conversa de Ricardo Salles para combater o desmatamento. A questão é que não precisamos de imagens com essa resolução para o trabalho do dia que o Deter faz no planejamento das ações de fiscalização. Para isso bastam as imagens que já temos e que mostram áreas de devastação bem maiores – porque tem resolução menor –, mas que servem para guiar os esforços em campo. Mesmo com estas imagens não vemos o governo federal agir para coibir ou fiscalizar essas áreas desmatadas.

Um servidor do Inpe fez uma figura de linguagem interessante para pensar o que isso significa: é como se comprássemos um Ferrari para andar na transamazônica, não faz sentido nenhum. Houve então uma discussão mais técnica, se a PF usaria as imagens da Noruega, disponibilizadas mensalmente, e a corporação alega que precisa delas com mais celeridade, o que é discutível porque para a necessidade da entidade – mineração, pista de pouso etc. – não é necessária uma resposta tão imediata como as ações de fiscalização, ele poderia trabalhar com essas imagens mensalmente sem prejuízo.

Não há risco à geopolítica internacional porque essas imagens são de acesso internacional, há outros satélites que fazem esse monitoramento, ainda que em escalas menores. São imagens que estão disponíveis para quem quiser comprar. No Brasil há iniciativas como o Mapbiomas, cujas imagens já serviram para sobrepor os alertas de desmatamento do Inpe e para fazer laudos de infrações, então a multa já sai montada do sistema sem o uso de imagens de baixa resolução.

Há formas muito mais inteligentes de usar ferramentas do que as alternativas propostas pelo governo, que não parecem ser proposições para atingir os interesses de fiscalização. Tudo o que é feito parece que tem um objetivo de distrair, tirar do Inpe o controle das informações, tentar não dar a publicidade esperada. O interesse da Noruega vem a calhar porque derruba boa parte dos argumentos que estavam criando uma distração infundada para tirar o foco dos resultados que o Inpe vem mostrando.

 

 

IHU On-Line – Em termos mais amplos, como compreende a relação entre a degradação da biosfera e a degradação social gerada pela pandemia?

André Aroeira – Está cada vez mais claro que os problemas ecológicos que temos no planeta vão se desdobrar em questões sociais e econômicas. Isso é resultado de uma organização que privilegia os ricos que monopolizam os recursos, emitem carbono, têm mais bens materiais, produzem mais lixo, fazem mais viagens etc. Essas pessoas demandam recursos de maneira desigual e as pessoas pobres são as que sentem na pele tais consequências, mas são, também, quem trabalha na retirada dos resíduos, na produção desses bens e realmente se esfolam na linha de frente para que essas demandas sejam atendidas.

Quando temos queda de qualidade de vida em função de questões ambientais ou mesmo da pandemia, que tem fundo ambiental, vemos que quem sofre as piores consequências são os pobres – aqueles que têm menos acesso a recursos e menos condições de vida do ponto de vista material. Os pobres, apesar de fazerem parte da economia, são os que menos têm acesso aos seus bens. A desigualdade social está muito atrelada às questões ambientais, porque são eles que vivem de subsistência, na floresta, da caça, da pesca, da coleta.

É sintomático que estejamos querendo sair de uma crise, mas cuja principal política que poderá ficar de maneira perene é uma política social de transferência de renda – das mais ousadas que o Brasil já teve –, que é a discussão da renda básica universal ou renda cidadã, que tem como princípio passar recursos para as pessoas que mais precisam para diminuir a vulnerabilidade delas frente a estas mudanças. A crise mostra que são mudanças sociais, econômicas, mas também ecológicas. Isso mostra bem como tais dimensões estão interligadas e como as pessoas mais vulneráveis são realmente as que primeiro sofrem com a degradação da biosfera e a perda de qualidade de vida.

 

 

IHU On-Line – Por outro lado, como as crises são capazes de abrir nossa mente e olhos para os equívocos civilizacionais de que somos, ao mesmo tempo, relatores e réus?

André Aroeira – Em relação à economia, fizemos um grande experimento em escala global do quanto conseguimos modificá-la. É preciso trabalhar junto, em solidariedade e cooperação para resolver uma grande crise e isso será um aprendizado muito importante para tratarmos do agravamento das mudanças climáticas no futuro. Isso se torna ainda mais relevante quando consideramos que tais mudanças devem durar décadas ou até mesmo séculos. Houve também a aceleração de algumas políticas sociais que acabariam acontecendo, mas cujas discussões ainda estavam bem incipientes, como é o caso da renda básica.

A ciência previu que poderíamos ter uma pandemia e poderia, inclusive, ter sido pior, com um vírus com mortalidade maior, que gerasse uma situação de pânico e complicasse ainda mais o atendimento hospitalar. Nós precisamos mudar a relação com o meio ambiente, trabalhar com muito mais cuidado e operar sob o princípio da precaução.

Isso tudo terá consequências, principalmente nos países desenvolvidos. No Brasil temos uma dificuldade de ver qualquer perspectiva boa agora, mas para o mundo fica uma lição muito grande de como melhorar as relações com o meio ambiente e aprimorar a rede de proteção social. Sabemos que tem que melhorar a logística, foi muito difícil combater a pandemia com a China fechada, a Índia parada, com países roubando recursos e tendo a produção de insumos vitais, como remédios e EPIs, sendo terceirizados para outras nações.

Enfim, temos muitos aprendizados a tirar da crise e tenho fé que eles serão bem aproveitados pela maioria. Pensando no caso do Brasil, se o mundo tomar essas iniciativas, talvez o país pegue carona nessas tendências. Se a gente conseguir sair disso com maior confiança na ciência e com a renda básica, que vai mudar totalmente as relações de trabalho, já será uma grande lição para o Brasil e com certeza tem muita coisa a ser aproveitada. 

 

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