“Como Igreja temos a missão de zelar, de lutar, para que os povos indígenas possam viver, e viver com dignidade”. Entrevista com Dom Erwin Kräutler

Queimadas na Amazônia | Foto: Victor Moriyama/Greenpeace

25 Setembro 2020

O discurso do presidente Bolsonaro na 75ª Assembleia Geral da ONU tem provocado múltiplas críticas. Um dos que tem se posicionado contra é dom Erwin Kräutler, que diz estar "imensamente revoltado e indignado", sobretudo com a acusação lançada contra os povos indígenas, responsabilizando-os pelas queimadas na Amazônia.

 

O bispo emérito do Xingu denuncia o anti indigenismo do presidente da República, afirmando estar "estarrecido de ouvir de um presidente da República esse tipo de acusação para os povos indígenas e os ribeirinhos". Na opinião de quem já foi presidente do Conselho Indigenista Missionário em diferentes mandatos, o interesse do atual governo é que "os povos indígenas devem perder, renunciar a sua identidade", perdendo assim os direitos que a Constituição Federal lhes reconhece.

 

Segundo dom Erwin, "não pode ser que eles (os indígenas) sejam considerados pessoas de segunda categoria", fazendo um chamado a que "todas as dioceses do Brasil devem assumir essa causa, a partir também do Sínodo", até o ponto de que "temos a obrigação, a missão de zelar, de lutar, para que os povos indígenas possam viver, e viver com dignidade", insiste o bispo. Isso deveria se concretizar em "que em todas as dioceses e prelazias tenham realmente um organismo que trata dos povos indígenas", que possa ajudar na "sensibilização, a conscientização, que eles são nossos irmãos e tem direito de viver".

 

A entrevista é de Luis Miguel Modino.

 

Eis a entrevista.

 

Jair Bolsonaro realizou um discurso nesta semana, durante a 75ª Assembleia Geral da ONU, que tem provocado muitas críticas nos últimos dias. O que o senhor pensa sobre as declarações do presidente do Brasil?

As declarações, praticamente todas, não passam de mentiras. Eu estou imensamente revoltado e indignado, quase chorei quando ouvi o discurso do Presidente da República culpando os indígenas e ribeirinhos pelo fogo que se alastra pelo Pantanal e a Amazônia. É diabólica essa acusação, não podemos mais calar-nos. É uma mentira deslavada, descarada, sem vergonha, mais uma vez os índios são vítimas, agora são responsabilizados pelas queimadas.

Simplesmente, acusar os povos indígenas e os ribeirinhos, como ele chamava caboclos, responsabilizá-los pelo fogo na Amazônia, isso é o maior absurdo que se pode imaginar. Depois de tantos focos que nós temos na Amazônia atualmente, e vai aumentar agora, no final do mês de setembro e outubro, é simplesmente inconcebível falar desse jeito. Enquanto no Pantanal, a própria polícia está procurando os responsáveis, porque esse fogo não caiu do céu. Então, simplesmente dizer que os índios e os ribeirinhos sejam culpados, isso é um absurdo, isso brada ao céu, pelo amor de Deus.

A segunda coisa, os grãos que o Brasil está produzindo, tudo isso é verdade, mas ninguém diz que esses grãos, que são exportados, servem para ração para gado e porcos na Europa, enquanto no Brasil falta alimento, tem gente que já está passando fome, isso é outro absurdo. Então, nesse sentido, eu simplesmente não aceito que da parte do presidente da República, diante do mundo, se passem tantas mentiras.

 

O senhor conhece a realidade dos povos indígenas desde há décadas. Poderíamos dizer que a situação atual é a mais preocupante da história dos povos indígenas no Brasil?

Comparar é meio difícil, porque são outras condições. O que eu digo, é que esse anti-indigenismo já começou na campanha do atual presidente. Ele já naquele tempo, quando ele estava em campanha, já disse que não ia demarcar um metro quadrado para os povos indígenas. Essa guerra anti-indígena continua cada vez mais forte. Quando ele vetou a água para os povos indígenas, quando ele não permitiu que tivessem acesso aos mais elementares serviços médicos, nós ficamos estarrecidos diante de tudo isso. Os povos originários são os primeiros habitantes desta terra, e tratá-los desse jeito é triste. Eu não tenho mais palavras para dizer, e eu estou, no fundo do coração, estou estarrecido de ouvir de um presidente da República esse tipo de acusação para os povos indígenas e os ribeirinhos. Também os quilombolas e essas minorias que são tratados desse jeito.

 

 

No seu ponto de vista, quais os interesses atrás dessa postura do presidente?

Os interesses são que os povos indígenas devem perder, renunciar a sua identidade. Penso que no fundo é isso, porque ele diz, pertenço ao povo indígena tal, e então ele tem direito. Segundo a Constituição, no artigo 232, no capítulo sobre os índios na Constituição Federal, eles têm direito a suas terras ancestrais. Na hora em que eles abdicam, renunciam a sua identidade, então são, desculpe a expressão, "brasileiros comuns", e não têm direito a terras específicas para eles. Há um estatuto especial para eles, a sua cultura, a sua língua. Então eles praticamente não pertencem mais a um povo diferenciado, uma cultura diferenciada. Então todas as áreas indígenas são abertas para a exploração, e o que o Bolsonaro quer é abrir toda a Amazônia para a exploração.

O índio é obstáculo, empecilho, e tem que renunciar a sua identidade. A pior forma de pobreza que existe é não poder ser o que é. Se os índios têm que abdicar de sua identidade, é a forma de maior pobreza, é uma agressão à essência, ao coração de um povo. Isso nós não podemos admitir, temos que lutar exatamente para que o povo indígena tenha o direito de ser esse povo, com esse nome, com essa cultura, com essa terra ancestral, que habitaram há centenas de anos.

 

Nesta semana, Dom Cláudio Hummes, numa coletiva de imprensa organizada pela COICA, pedia uma postura mais firme da comunidade internacional na defesa da Amazônia e dos seus povos. O senhor pensa que essa postura da comunidade internacional é importante? Como deveria ser encaminhada essa postura mais firme?

Os povos indígenas são povos irmãos de todos os povos da Terra, são povos brasileiros, mas como tais são irmãos de todos os povos. E a responsabilidade é do mundo inteiro, para que os aborígenes, autóctones, possam viver e viver com dignidade, e tenham o apoio do Estado, o apoio de todos os governos. Não pode ser que eles sejam considerados pessoas de segunda categoria, como já foi antigamente. Mas a partir da Constituição de 88, ela foi uma virada copernicana e deu aos povos indígenas o direito inerente a sua própria identidade.

 

 

Sobretudo com o Sínodo para a Amazônia, se insistiu muito em que a Igreja deve ser uma aliada dos povos indígenas. Diante da situação que os povos indígenas estão vivenciando no Brasil, quais os passos que a Igreja deveria dar, sobretudo através do CIMI, da REPAM, das diferentes pastorais sociais, nessa aliança com os povos indígenas?

Essa aliança não deve ser simplesmente de organismos que são pastorais, como o CIMI ou a REPAM. Todas as dioceses do Brasil devem assumir essa causa, a partir também do Sínodo, que foi bem claro nesse sentido. Inclusive o Papa, quando convocou o Sínodo em 15 de outubro de 2017, ele queria o enfoque específico aos povos indígenas. E o que ele falou em Puerto Maldonado foi bem claro. O Papa está do lado dos povos indígenas, os povos indígenas foram bem representados no Sínodo, e então nós, como Igreja católica, apostólica, romana, temos a obrigação, a missão de zelar, de lutar, para que os povos indígenas possam viver, e viver com dignidade.

Porque o Evangelho que nós anunciamos é o Evangelho da vida, aos mortos não podemos anunciar o Evangelho. Então, a primeira coisa é a luta, nossa luta, nossa defesa da vida dos povos indígenas pelo Brasil afora, e pelo mundo afora. Tem aborígenes também em outros cantos do mundo, e tem muitos mais indígenas ainda em outros países vizinhos nossos, limítrofes do Brasil, e a nossa luta está também nessa perspectiva do Sínodo. Assumimos com garra e com muita ênfase a defesa dos povos indígenas para que possam viver, contra todas as investidas, contra toda essa onda anti-indigenista que se espalha e que é dirigida, orientada pelo próprio governo brasileiro.

 

 

Diante das propostas do Sínodo, como deveriam ser encaminhadas, nos próximos meses, nos próximos anos, em tudo aquilo que faz referência aos povos indígenas?

A minha sugestão é que em todas as dioceses e prelazias tenha realmente um organismo que trata dos povos indígenas. Que não seja um apêndice, mas seja parte da própria ação pastoral e evangelizadora, no sentido amplo, o serviço que nós prestamos aos povos indígenas. Não apenas o anúncio, o anúncio é importante, mas nós termos o testemunho e nos centrarmos e enfrentarmos todos aqueles que são contra os povos indígenas. Mas tem o diálogo e tem o serviço, a evangelização para mim, já desde a CNBB, tem estas quatro dimensões: o anúncio, o testemunho, o diálogo e o serviço.

E nós temos que nos orientar exatamente por aquilo que a própria CNBB, uma vez nas diretrizes, elencou. Eu creio que em todas as dioceses e paróquias onde existem povos indígenas, e onde não existem também, precisamos a sensibilização, a conscientização, que eles são nossos irmãos e têm direito de viver. Não posso dizer 'não tem índio na minha diocese', isso não significa que eu possa lavar as mãos e dizer que não tem nada a ver comigo. Pelo contrario, é um assunto da Igreja no Brasil, na América Latina.

 

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