“A Amazônia nos propõe uma comunhão cósmica”

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Por: Jonas Jorge da Silva | 15 Setembro 2020

A grande dádiva da vida religiosa é a de ser um sinal e profecia do Reino de Deus entre nós. Nesse sentido, adentrar na realidade amazônica a partir dos relatos testemunhais e engajados de duas pessoas consagradas é animador, pois favorece processos de encorajamento para as necessárias e urgentes tomadas de posição, a partir de uma Igreja em saída, que não fica estagnada, mas vai ao encontro das pessoas, sendo solidária, comprometida e fraterna.

No último sábado, dia 12, ouvimos atentamente Eurides Alves de Oliveira, religiosa da Congregação do Imaculado Coração de Maria, e o padre jesuíta Aloir Pacini, em uma manhã de reflexão denominada Amazônia e o cuidado com a criação: alegrias, esperanças e apelos. A atividade, proposta pelo Centro de Promoção de Agentes de Transformação - CEPAT e o Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental - SARES, contou com a parceria e o apoio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Conselho Nacional do Laicato do Brasil - CNLB, Comunidades de Vida CristãCVX/Regional Sul, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida - OLMA.

Jonas Jorge da Silva, do Cepat e Padre Paulo Tadeu Barausse, do Sares, abrindo a manhã

Contemplando a iniciativa mundial Tempo da Criação, a atividade se deu no marco da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia. Nela, o Papa Francisco expressa que os povos nativos “são os principais interlocutores, dos quais primeiro devemos aprender, a quem temos de escutar por um dever de justiça e a quem devemos pedir autorização para poder apresentar nossas propostas. A sua palavra, as suas esperanças, os seus receios deveriam ser a voz mais forte em qualquer mesa de diálogo sobre a Amazônia” (n. 26).

O Papa também reconhece que “os povos indígenas da Amazônia expressam a autêntica qualidade de vida como um bem viver, que implica uma harmonia pessoal, familiar, comunitária e cósmica e manifesta-se no seu modo comunitário de conceber a existência, na capacidade de encontrar alegria e plenitude numa vida austera e simples, bem como no cuidado responsável da natureza que preserva os recursos para as gerações futuras” (n. 71).

Nesse sentido, Aloir Pacini, que foi o primeiro a falar, destacou a Amazônia como um lugar teológico privilegiado, que implica questões que envolvem o planeta como um todo, daí a necessidade de aprofundar temas como o cuidado com a Casa Comum, a Mãe Terra, com suas alegrias e esperanças frente a um Estado brasileiro que foi tomado por um projeto contra a Amazônia e seus povos.

Ressaltou que as cosmologias ameríndias são um sinal, uma possibilidade de agirmos de modo diferente, e retomando o livro do Gênesis 1, 31: “E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom”, lembrou a beleza e a harmonia presente na Criação de Deus. Se por um lado, na atualidade, o pecado do capitalismo corrompeu o ser humano, por outro, a cosmologia indígena propõe uma rearmonização com a natureza, reconhecendo que compartilhamos um mesmo lugar com todas as outras criaturas, somos parte da natureza e toda a criação tem o direito de existir.

Para Pacini, que também é antropólogo, todos ganham com uma vida harmoniosa com a natureza. É urgente retomar esse equilíbrio. O capitalismo, com seu frenesi pelo desenvolvimento, que pode ser lido como des-envolvimento, suprimiu a sacralidade que envolve todos os bens da criação, dando ênfase a uma visão equivocada do que somos. O desafio atual é o de abandonar a estreiteza de um projeto de vida antropocêntrico e reaprender a fazer as coisas, escutando a Deus, as pessoas e os outros seres vivos, em consonância com os ensinamentos dos povos indígenas.

Pacini defendeu o programa do pontificado do Papa Francisco, que também é pertinente aos não crentes, já que a Amazônia diz respeito à sobrevivência de todos. Além disso, pediu clareza e posicionamento político na atual conjuntura: “Vamos continuar votando em um Bolsonaro que quer a morte dos indígenas, a morte da floresta amazônica?”, questionou.

Igor Sulaiman Said Felicio Borck, do Cepat, Irmã Eurides Alves de Oliveira, Padre Aloir Pacini e Jonas Jorge da Silva, do Cepat

Em seu momento de partilha, a religiosa Eurides Alves de Oliveira convocou os participantes a olhar para a Amazônia com o coração. Sintonizar o coração e, a partir da Amazônia, olhar para o mundo. “Todo o cuidado se dá a partir do olhar que temos”, ressaltou. É preciso sentir o coração da Terra, superando uma visão capitalista e produtivista sobre a Amazônia.

Para Oliveira, trata-se de cultivar um olhar de reverência à Amazônia, como um lugar sagrado, pleno de vida, de beleza e de riqueza. “Não a riqueza que o capitalismo busca, depredando, mas uma riqueza de vida, de dons, que garante o equilíbrio de toda a Criação”, destacou.

Trata-se também de um olhar a partir dos povos que vivem na Amazônia: indígenas, ribeirinhos, caboclos, quilombolas, enfim, todos os povos que foram construindo identidade nesse território.

Por fim, um olhar crítico e de denúncia da destruição da Amazônia pelo agronegócio, as mineradoras, as queimadas, a violência, etc. Nesse sentido, Oliveira clamou pela audácia profética.

A dimensão de que tudo está interligado é um convite a se tornar corresponsáveis pela Amazônia. Sentir e olhar a Amazônia como parte dela. Nas palavras de Oliveira, desenvolvendo “um olhar e um coração cósmico”. “A Amazônia nos propõe uma comunhão cósmica”, ressaltou.

Todo esse processo de conversão do olhar e do coração requer o que Oliveira chamou de pedagogia da escuta: escutar o clamor da Terra e dos Pobres. Escutar as pessoas ameaçadas e feridas por um sistema de morte. Lembrando o Papa Francisco, disse que o capitalismo é insuportável, que vive o seu momento de esgotamento e busca se refazer de sua crise a partir da degradação da Amazônia.

Nessa pedagogia da escuta, deve-se considerar todos os territórios em que vivem os povos, lembrando que os corpos, vítimas da violência capitalista, também são territórios. Nesse sentido, lembrou que a encíclica papal Laudato Si une ecologia e justiça social, sendo ambas indissociáveis.

A escuta exige mudança, conversão (pastoral, cultural, ecológica, sinodal). Não se trata de algo simples, pois exige um rompimento com processos históricos de colonização, tanto externos como também reproduzidos dentro da própria Igreja. Nesse sentido, para tal conversão é preciso romper com a indiferença e lutar conjuntamente para mudar as estruturas que geram morte. Em termos de evangelização, trata-se de conviver e não apenas visitar os povos da Amazônia.

Oliveira destacou que muita coisa bonita está acontecendo na Amazônia e que é esperançoso saber que Deus caminha conosco, que a vida teima em prevalecer na região amazônica. Também se disse esperançosa com a eclesiologia do Papa Francisco e que o Sínodo da Amazônia fez ecoar o grito amazônico para o mundo todo.

Religiosa enraizada no cotidiano de Manaus, Oliveira ressaltou a necessidade de superar o clericalismo e os modelos piramidais, tanto na Igreja como na educação. Além disso, avaliou que ainda há um longo caminho a ser feito para o pleno reconhecimento das mulheres na Igreja e na região amazônica.

Eis a íntegra do encontro.

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