Pode a espiritualidade inaciana contribuir para o engajamento na vida civil e política?

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15 Setembro 2020

“Os autores de 'Contemplação e ação política' dizem acreditar que a espiritualidade inaciana tem algo importante a acrescentar à vida civil nos Estados Unidos”, escreve Molly Cahill, em artigo publicado por America, 08-09-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Na terça-feira da semana passada, 8 de setembro, a Conferência Jesuíta do Canadá e Estados Unidos lançou um novo documento intitulado “Contemplação e ação política: um guia inaciano para o engajamento civil”. [1] Não exatamente um guia eleitoral mas também não apenas um documento espiritual, este recurso apresenta uma abordagem alternativa ao engajamento no espaço público através das lentes da oração e reflexão.

Os autores de “Contemplação e ação política” dizem acreditar que a espiritualidade inaciana tem algo importante a acrescentar à vida civil nos Estados Unidos.

“Parte aquilo que afasta algumas pessoas de qualquer aproximação entre religião e política é uma apresentação potencial de Deus como se estivesse de um lado e [a crença de que] se não estivermos aí, estaremos contra Deus. Essa não é a abordagem inaciana”, diz o jesuíta Ted Penton, secretário do Centro de Justiça e Ecologia, da Conferência. “Não se trata de saber de qual lado Deus está; tem a ver com a maneira como Deus atua nos corações das pessoas”.

Algumas das mentes por trás do documento conversaram com a revista America sobre os desdobramentos do texto e seu propósito. Entre essas pessoas estão o Pe. Tim Kesicki, presidente da Conferência; o Pe. Penton; e Mike Jordan Laskey, assessor de comunicações.

Uma conversa ano passado entre o Pe. Kesicki e o Pe. Penton levou-os a se perguntar sobre quais ferramentas para a reflexão e o engajamento político eles poderiam dar à rede de escolas, paróquias e outros ministérios jesuítas nos EUA e no Canadá. Isto que eles vislumbraram tinha uma amplitude enorme, estendendo-se para além de uma eleição e destacando a votação como somente um dos muitos e importantes modos pelos quais os católicos podem se envolver no processo político. A ideia inspirou-se também nas Preferências Apostólicas Universais, aquele conjunto de prioridades anunciadas pelo superior geral Arturo Sosa e pela Companhia de Jesus em 2019.

Kesicki e Penton montaram uma equipe, que incluía Jordan Laskey, para trabalhar no projeto. A produção do grupo usou a tradição espiritual inaciana como base para o engajamento na praça pública.

Empregando as próprias palavras do Papa Francisco, a primeira seção de Contemplação e ação política sugere aos leitores que “um bom católico se intromete na política”.

Essa ideia não é novidade para a Conferência Jesuíta. A entidade recentemente publicou notas a respeito de uma série de tópicos, incluindo uma nota pública sobre o aborto e a sua posição enérgica na questão do DACA, programa americano que protege da deportação imigrantes indocumentados no país e que aí chegaram aí quando eram menores de idade.

Membros da Conferência Jesuíta também foram ao Congresso falar sobre uma variedade de temas. Os jesuítas cumprem a Emenda Johnson, que impede que organizações sem fins lucrativos apoiem candidatos políticos. Mas isso não impede o compromisso que eles têm de se pronunciarem diante de temas importantes, sem partidarismo.

Embora os autores do documento saibam que muitos fiéis relutam em misturar questões de fé com questões religiosas, eles esperam que esta abordagem ressoe entre o público a que se dirige. O guia não inclui uma lista de posições políticas para se tomar enquanto católico, mas sugere oportunidades para um engajamento pessoal através de questões para reflexão, de orações e anedotas.

O Pe. Penton explicou que “os católicos apoiam candidatos e políticas diferentes. Para nós, isso não é motivo para não nos engajarmos na política. É um motivo para sermos mais reflexivos, mais orantes, entrar em diálogo sobre como a nossa fé modela a nossa política. Nada disso é motivo para nos retirarmos da política”.

Penton sugeriu ainda que um jeito de impedir que o discurso político se torne hostil é nos voltarmos à prática espiritual inaciana do desapego.

“Os católicos podem às vezes ser vistos como politicamente desabrigados”, acrescentou Jordan Laskey. “Como pessoas com uma bela coerência na proteção da vida e dignidade humana ao longo de todo o espectro, acabamos que não nos sentimos plenamente confortáveis com nenhuma das plataformas políticas. O importante é termos em mente que queremos que a nossa fé nos conduza às nossas visões políticas, em oposição às nossas alianças políticas a nos conduzir a crenças morais, o que vemos acontecer e muito neste ambiente político”.

“A beleza do desapego vem ao reconhecermos os nossos apegos e ao podermos colocá-los de lado com humildade, perguntando primeiramente qual o melhor para as nossas comunidades neste momento”, disse. “O que o nosso país, estado ou comunidade necessita para garantir o bem de todos? É preciso uma verdadeira maturidade espiritual para dizer: ‘Consigo pôr a minha aliança partidária de lado e realmente pensar sobre o que é o melhor daqui para frente’”.

As preferências apostólicas dos jesuítas fazem uma menção especial ao cuidado da “casa comum”, e o novo documento reflete esta atenção à administração do nosso planeta. O Pe. Penton disse que fica apavorado ao ver como a política partidária americana vem modelando essa temática.

“Por alguma razão, uns consideram conservadora a ideia de se opor às proteções ambientais. Para mim, não existe nada mais conservador do que conservar o planeta em que vivemos”, disse ele. “Em outros países, há líderes conservadores que tiveram uma inclinação e uma sensibilidade ecológica muito grande. Então, é uma pena que hoje esse tema tenha se tornado um problema partidário. Para mim, se há algo em que todos deveríamos concordar, o cuidado da casa comum estaria no topo dessas prioridades”.

O Pe. Kesicki retoma o que ouviu diretamente do próprio Papa Francisco: “Lembro da nossa 36ª Congregação Geral, onde o papa foi explícito em que a Laudato Si’ não é apenas uma encíclica ambiental; é uma encíclica social também. Esse documento conta com uma abordagem antropológica, sistemática. O Papa já disse e escreveu que se somos pró-vida, precisamos ser pró-meio ambiente também”.

Jordan Laskey concordou, dizendo: “Nós é uma simples preocupação com o ar, a terra e as águas, embora estas coisas sejam importantes em si mesmas. Nós também nos preocupamos por causa do impacto que têm contra as pessoas, em particular contra os que já se encontram em situações de vulnerabilidade, os marginalizados”.

Voltando à questão do diálogo respeitoso na política, o Pe. Kesicki apontou para a prática espiritual inaciana chamada agere contra, que, em latim, significa “agir contra”. Segundo ele, “às vezes, no discernimento, tentamos pensar na posição contrária à nossa própria. Escutamos o outro lado, não só com o caderno e lápis prontos para refutar, mas para nos perguntar por que alguém poderia sustentar aquela posição”.

“Ficamos com esta ideia e, então, voltamos à posição que tínhamos. Com muita frequência, retornamos para aquilo que originalmente acreditávamos”, disse o padre. “Mas, às vezes, acabando pensando de uma forma diferente, talvez não com tanta certeza, mas sim com uma compreensão renovada”.

Nota

[1] Texto disponível em inglês aqui.

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