Se não for um lugar de perdão, uma comunidade não é cristã

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • “Da crise não saímos iguais. Ou saímos melhores ou saímos piores”, afirma Papa Francisco na ONU

    LER MAIS
  • O olhar sobre a “comunhão eucarística”: uma mudança de paradigma. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • Pós-humano: o desafio de falar do humano e de seu valor. Mudança de época. Artigo de Paolo Benanti

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


11 Setembro 2020

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 24º Domingo do Tempo Comum, 13 de setembro de 2020 (Mateus 18,21-35). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estamos ainda dentro do capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus, no qual Jesus dirige aos seus discípulos o chamado “discurso eclesial” comunitário.

Assim que ele acabou de expor a exigência da correção fraterna (cf. Mt 18,15-20), Pedro lhe pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?”. Ou seja: existe um limite para o perdão? E, acreditando que está exagerando, ele já dá uma primeira resposta: “Até sete vezes?”.

Não, rebate Jesus, nem mesmo essa medida abundante é suficiente. O perdão para os outros deve ser ilimitado, desmedido: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”, palavras que subvertem a lógica vingativa própria do ressentimento humano: “Se Caim for vingado sete vezes, Lamec o será setenta vezes sete” (Gn 4,24).

Para que esse mandato seja impresso nos corações e nas mentes dos discípulos, Jesus lhes narra uma parábola que revela como o perdão concedido a cada um de nós pelo Pai celeste é o motivo e a medida do perdão mútuo: “O Reino dos Céus é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados…”.

Nessa história, tudo é inverossímil, mas, precisamente por isso, ela é clara no seu significado, que vai contra toda lógica humana. Há um servo, um oficial da corte, que deve ao seu rei dez mil talentos: uma soma desproporcional, impossível de devolver, pois equivale ao salário de cem milhões de dias de trabalho!

Ameaçado pelo seu senhor de ser vendido junto com a família e com tudo o que possui, para saldar essa enorme dívida em uma mínima parte, ele se joga aos seus pés e o suplica: “Dá-me um prazo! e eu te pagarei tudo”.

Então, o rei sente compaixão, isto é, estremece nas suas entranhas de misericórdia, verbo que exprime o sentimento profundo de Deus (cf. Lc 15,20) – e, por reflexo, de Jesus (cf. Mt 9,36; 14,4 etc.) – pelas situações de sofrimento e de pecado em que o ser humano se encontra. É a partir desse sentimento de Deus, o rei da parábola, que decorre o perdão incondicional (e economicamente insano) concedido ao servo.

Assim que sai dessa conversa que lhe reabriu um futuro possível, este encontra um companheiro que lhe deve cem denários: uma soma de dinheiro não pequena, mas irrisória em comparação com os dez mil talentos dos quais ele era devedor. Mas, com a sua conduta, ele mostra que o perdão nem sempre muda o coração de quem o recebe: o perdão é onipotente, porque tudo pode perdoar, e, ao mesmo tempo, é infinitamente impotente...

De fato, tendo sido suplicado pelo seu devedor com as mesmas palavras usadas por ele em relação ao rei, ele se mostra inflexível: depois de o ter tratado com violência, manda-o jogar na prisão, até que ele pague a dívida.

“Como isso é possível?”, perguntamo-nos instintivamente, esquecendo que, muitas vezes, esse é o nosso modo de agir... E, assim como nós, os outros servos da parábola também se perguntam isso, entristecidos e indignados, rebelam-se contra a injustiça perpetrada debaixo dos seus olhos e têm a coragem de denunciar o que aconteceu ao seu senhor.

Este último, tendo mandado chamar o servo malvado, primeiro o faz novamente aderir à realidade, lembrando-o da imensa dívida que lhe foi perdoada. Depois, convida-o a tirar as consequências do ocorrido, com uma pergunta que somos chamados a deixar ressoar em nós, pois ela representa o verdadeiro ápice da parábola e, ao mesmo tempo, o seu ensinamento fundamental: “Não devias tu também, ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?”.

Por fim, diante dessa estúpida cegueira do seu interlocutor, o senhor se vê forçado a entregá-lo aos torturadores, até que tenha restituído o valor devido. E Jesus comenta: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

Sim, devemos perdoar os nossos irmãos sem medida, porque Deus já nos fez objeto, em Jesus Cristo, de um perdão unilateral e sem medida (cf. Rm 5,6-10). E, inversamente, podemos pedir perdão ao Senhor somente na medida em que estivermos dispostos a perdoar os nossos “companheiros”.

É por isso que, no Pai-Nosso, o pedido de perdão dirigido por nós a Deus é condicionado pela nossa prática de perdão para com os outros. Não por acaso, a única demanda dessa oração que Jesus explica é: “Perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12), e ele o faz com palavras que devemos recordar com atenção, como um luz que ilumina as nossas relações cotidianas: “Se vós perdoardes aos outros as suas faltas, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. Mas, se vós não perdoardes aos outros, vosso Pai também não perdoará as vossas faltas” (Mt 6,14-15).

 

Assista também...

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Se não for um lugar de perdão, uma comunidade não é cristã - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV