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09 Setembro 2020

"Através da leitura orante comunitária as pequenas comunidades missionárias entram em contato com a Palavra de Deus, mas a Igreja no Brasil proporciona também momentos especiais para esse contato, como o Mês da Bíblia", escreve Eliseu Wisniewski, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade do Paraná (PUCPR) e professor na Faculdade Vicentina (FAVI), Curitiba, Paraná, sobre o livro "Em busca da Palavra de Deus: uma leitura do Deuteronômio entre contradições, ambiguidades, violências e solidariedades" [1] de Pe. Johan Konings e Ir. Zuleica Aparecido Silvano.

Eis o artigo.

A Igreja no Brasil por meio das atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2019-2023 fez a opção pelas comunidades eclesiais missionárias nos mais variados ambientes para que elas sejam casas da Palavra, do Pão, da Caridade e abertas à Ação Missionária. As comunidades eclesiais missionárias se encontram na base da animação bíblica da vida e pastoral na paróquia e na diocese.

Emerge, desse modo, a importância da Palavra de Deus e a necessidade de encontrar meios que essa Palavra de Deus seja geradora de discípulos missionários que testemunhem o Evangelho, contribuindo para que o Reino de Deus se manifeste em meio à realidade humana e socioambiental em sintonia com que o nos diz a Evangelii Gaudium (EG) sobre a Sagrada Escritura: “ela é fonte de evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra [...] é indispensável que a Palavra de Deus se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial. A Palavra de Deus, ouvida e celebrada, sobretudo na Eucaristia, alimenta e reforça interiormente os cristãos e torna-os capazes de um autêntico testemunho evangélico na vida diária” (n. 174).

As pequenas comunidades eclesiais missionárias são geradas pela Palavra de Deus e nela encontram alimento para a missão. Através da leitura orante comunitária as pequenas comunidades missionárias entram em contato com a Palavra de Deus, mas a Igreja no Brasil proporciona também momentos especiais para esse contato, como o Mês da Bíblia. Sabemos que a celebração do Mês Bíblico é um evento específico da Igreja no Brasil.

O livro do Deuteronômio é o livro proposto para este de 2020. Em vista disso diferentes subsídios bíblicos são oferecidos para um melhor entendimento da mensagem bíblica do Deuteronômio. Dentre eles fazemos menção ao livro: Em busca da Palavra de Deus. Uma leitura do Deuteronômio. Entre contradições, ambiguidades, violências e solidariedades (Paulus; CEBI, 2020, 120 p.) escrito por Dr. Luiz José Dietrich e Dr. Rafael Rodrigues da Silva.

Nesta obra o leitor é colocado diante de questões elementares do livro do Deuteronômio, contradições, ambiguidades e violências do texto bíblico, detalhes sobre a história da teologia de Israel: passagem do politeísmo à monolatria e desta ao monoteísmo, uma apurada reflexão sobre o Código Deuteronômico, hipótese das fontes, colonialismo, colonização e descolonialização, etc. No entanto, a originalidade das reflexões aí contidas está no convite para uma leitura profética do Deuteronômio: ligando o Deuteronômio com o nosso contexto, como as experiências narradas pelo autor deuteronomista podem iluminar e inspirar as lutas do Brasil de hoje. Isso porque “é muito importante que leiamos o livro do Deuteronômio tendo a realidade que nos cerca como pano de fundo” (p. 11), e, porque “o livro do Deuteronômio não é um simples livro de leis. Além da apresentação de leis e regras, encontramos algo mais profundo e provocador: nas entrelinhas, ele motivo e convence o leitor e ouvinte, que busca o bem comum, a seguir e cumprir as leis em defesa dos pobres e marginalizados da sociedade” (p. 5-6).

Percorrendo as páginas da obra de Dietrich e Silva - transcreveremos as indagações, provocações e indicações pastorais aí contidas - acolhendo desta forma a mensagem viva e atual encontrando “no estudo do Deuteronômio a Palavra inspirada e a orientação para que nossa prática cristã seja sempre promotora da vida, de relações fraternas e solidárias, que faça crescer a justiça e o amor, em nossas comunidades e em todos os lugares onde estivermos presentes” (p. 24):

1) “O livro do Deuteronômio guarda algumas das leis comunitárias de Israel. Certamente, muitas dessas leis e das experiências aí narradas podem iluminar e inspirar as lutas no Brasil de hoje. Especialmente em um momento em que se desconsidera a dimensão comunitária das leis, em que se enterram ou se desmontam leis que garantem o direito de viver para trabalhadores, trabalhadoras, indígenas quilombolas, migrantes e pobres” (p. 5);

2) “O livro do Deuteronômio é um livro ainda pouco estudado pelas comunidades, e a discussão de seu conteúdo pode nos ajudar a encontrar perspectivas cristãs, bem como luzes que são necessárias e urgentes para orientar nossas reflexões e nossas ações nos tempos em que estamos vivendo. Refletir sobre este livro em nosso tempo marcado por retrocessos, perdas de direitos, crescente aumento da violência institucional contra a dignidade humana, resultando na destruição do ecossistema e na constituição de um mundo que está de pernas para o ar, é um grande desafio. Ler em nossos dias o livro do Deuteronômio evoca a busca de possibilidades de mudança da sociedade e faz memória das lutas de nossos pais e mães, para construir uma sociedade justa e solidária” (p. 6);

3) “é um livro que aborda questões sociais como a pobreza, as migrações, os direitos sociais, a justiça e as injustiças”. Trata também das questões religiosas e espirituais relacionadas ao culto, aos rituais, ao modo de e ao local de prestar culto a Deus. E tem muitos textos sobre a relação das pessoas que praticam outras religiões com as pessoas que adoram a Deus de um modo diferente, ou que cultuam Deuses diferentes do Deus bíblico. Muitos desses temas estão no centro dos debates, das angústias e dos conflitos que povoam nosso cotidiano e o nosso contexto. Estão presentes em conversas, debates, estudos e discussões em nossas comunidades e, possivelmente, também em nossas famílias” (p. 6-7);

4) “ Javé é o Deus que não faz discriminação entre as pessoas e não aceita suborno” (p. 7);

5) “a instituição do ‘ano da remissão’ nasce de uma preocupação com os pobres, com os mecanismos que escravizam as pessoas pobres num ciclo de reprodução da pobreza. Como nós e nossas comunidades estamos preocupados com os pobres? Os empobrecidos têm espaço para falar de suas angústias para nós? Nós os vemos e ouvimos? Procuramos saber quais são os mecanismos de nossa sociedade que promovem tanta concentração de renda e tanta pobreza em nosso país? Vamos nos organizar, buscar subsídios, debater e refletir para lutar por uma sociedade mais justa e igualitária?” (p. 13);

6) “O Deuteronômio também recomenda que o escravo libertado não deverá ser enviado embora de mãos vazias (...) Por que tantos trabalhadores e trabalhadoras que trabalham desde jovens, e trabalham muito, são pobres e não recebem o suficiente para abrigar e manter suas famílias de forma digna? Por que mesmo depois de trabalhar durante toda a vida não podem se aposentar e ter o mínimo de tranquilidade financeira?” (p. 14);

7) “Como relacionar a Bíblia com a palavra revelada e inspirada por Deus? Como devemos entender, interpretar e reler versículos intolerantes e violentos, de modo a não repetirmos essas intolerâncias e violências, nem aceitarmos que sejam cometidas ainda hoje? E hoje essas violências são cometidas em nome de Jesus! Buscaremos situar esses textos em sus contextos históricos para encontrar pistas e fornecer elementos que estimulem leituras que combatam a intolerância, a discriminação e as violências feitas em nome de Deus” (p. 18). “Infelizmente, a violência em nome de Deus não ficou só lá, num passado distante, mas persiste, de diferentes modos e graus, em muitos grupos, discursos e atos de cristãos hoje “ (p. 24);

8) “Outra preocupação será a de nos ajudar a superar do ritualismo, do culto centrado e fechado em si mesmo. Devemos nos perguntar muito seriamente que cristianismo nós estamos praticando. Como podemos entender – e aceitar! – que em um país com solos tão ricos e férteis, com tanta água, com tantas igrejas, com tantos católicos e evangélicos, tantos cultos e Eucaristias, com tanto cristianismo, tenhamos tantas injustiças sociais? Que tipo de cristianismo é esse com tão pouca solidariedade, que convive com tanta violência e mortes praticadas contra jovens pobres, negros, mulheres e indígenas? Com armas e Bíblias sendo mencionadas justamente no altar?” (p. 19);

9) “Uma reflexão sobre a idolatria, tema frequente em discussões entre católicos, evangélicos e praticantes da umbanda e das religiões originárias da África e das Américas. Muitas vezes envolvendo atos intolerantes e violentos, como os que aconteceram recentemente durante o Sínodo da Amazônia, quando alguns católicos conservadores tomaram as imagens de Pachamama (Deusa Mãe Terra, que gera e sustenta a vida, para os povos da Cordilheira dos Andes) e as jogaram no rio Tibre, em Roma. Ou quando Igrejas católicas são invadidas e imagens de santas e santos são quebradas, ou quando terreiros de umbanda e candomblé são atacados, incendiados e expulsos de áreas por traficantes cristãos armados. A pergunta que poderia guiar a nossa reflexão é: (...) o que é idolatria? Quando o uso de imagens no culto e na espiritualidade é idolatria?” (p. 43);

10) “A crítica profética às imagens, à idolatria, tem mais a ver com o tipo de culto, de religião que a elas estão associados. Criticam-se as imagens mais por suas funções e pelas consequências de certos cultos do que as imagens em si. Podendo ser possível, nesse sentido, haver idolatria sem necessidade de haver imagens” (p. 44), “idolatria é todo culto a Deus - com imagens ou sem imagens – que não nos torna sensíveis e solidários para com os pobres e injustiçados, que não nos faz as injustiças e ouvir os gritos dos injustiçados, e que não nos leva a nos solidarizar com eles, a nos pôr em seu lugar, em seu meio, e a lutar com os oprimidos pela superação da opressão, das injustiças e das desigualdades nas práticas e estruturas sociopolíticas do nosso país. É o ritualismo, o culto desligado da vida, fechado em si mesmo, vazio e incoerente, que acontece em igrejas que negam a saírem de si mesmas, que não formam grupos, que não propiciam e estimulam a busca por práticas, organizações e estruturas mais justas, mais humanas e mais ecologicamente responsáveis” (p. 45-46);

11) “O estudo dos códigos nos permite ver melhor também as marcas das ambiguidades da religião e das teologias bíblicas. E isto, sem dúvida, é muito importante para que nossos olhos possam ver nos dias de hoje as ambiguidades presentes nas religiões originárias da Bíblia, e, com as luzes retiradas dos estudos, possamos discernir por onde passa o espírito de Jesus de Nazaré em nossas Igrejas e em nossos cristianismos” (p. 50); “esse discernimento é fundamental se quisermos ser fiéis ao Espírito e ao Deus de Jesus de Nazaré, para que não sigamos reproduzindo discriminações, intolerância e violências em nome de Deus, praticadas por poderosos que condenaram Jesus à morte, e que ainda hoje, infelizmente, muitas vezes são praticadas em nome de Jesus. E para que não caiamos nas armadilhas do espiritualismo e do ritualismo que identificam e aprisionam o sagrado em nome de Deus, em lugares sacralizados e em rituais a ele vinculados. Todos esses elementos podem ser manipulados, como quase sempre foram, tanto na Bíblia quanto na nossa história” (p. 69);

12) “A leitura do Deuteronômio e de toda a História Deuteronomista nos desafia a discernir entre as teologias e práticas coerentes com o Deus libertador do Êxodo e dos profetas e as teologias oficiais, criadas por reis e impérios em busca de legitimação de sua prática de violência e dominação. A leitura e o estudo comunitário e crítico do livro do Deuteronômio, dos Evangelhos e de toda a Bíblia são hoje fundamentais e urgentes. Esse discernimento nunca foi tão necessário em nossa história como o é hoje, quando muitas teologias são apresentadas em nome de Jesus, e são usadas por grupos que impõem políticas concentradoras de riqueza e poder, aumentando os níveis de violência, exclusão e destruição do meio ambiente” (p. 55);

13) “Estamos vendo gente usando a Bíblia para retirar direitos do povo trabalhador, entregar as riquezas minerais e parte de nossa pequena infraestrutura para maximalizar lucros de empresas globais, fazer da saúde e da educação grandes negócios para banqueiros e empresários, para depredar e envenenar o meio ambiente, a água e os alimentos, para eliminar culturas e povos indígenas, para oprimir pessoas que se amam de um jeito diferente... Claro, que também vemos gente que se movimentam e se levantam em favor da justiça e do direito parecem estar sufocadas pela indiferença, a insensibilidade, a falta de solidariedade, quando não explícita cumplicidade, que vêm de muitos setores cristãos” (p. 56);

14) “Quem assume um pensamento intolerante, quem faz violência em nome de Deus promove, antes, uma hierarquização. Ele está convencido de que as suas teologias são as únicas corretas, são as únicas que se referem ao Deus verdadeiro e único. Para ele, suas doutrinas, suas concepções de Deus, valem mais do que a vida humana. Assim, aqueles que com violência impõe uma religião, podem pensar que estão fazendo um bem, por exemplo, salvando da ignorância do pecado, da heresia e da perdição eterna. Nesse sentido, até a morte de alguns podia ser considerada um preço pequeno, frente a tais recompensas” (p. 94);

15) “Uma leitura em perspectiva ecumênica e inter-religiosa vai então superar as práticas colonialistas e imperialistas, vai superar a compreensão exclusivista e homogeneizadora, associadas ao monoteísmo cristão, e saberá reconhecer que em todas as religiões existe um núcleo sagrado direcionado à prática do amor. Esse núcleo confere igual dignidade às religiões de todos os povos. É evidente que dentro de todos os povos, culturas e religiões também existem práticas que representam a negação do amor. Essas práticas, sim, devem ser combatidas e, se possível, eliminadas” (p. 95);

16) “um certo cristianismo que esquece do pobre, que não busca um país mais justo que forneça igualdade de oportunidades e condições para todos e todas, combatendo politicamente e economicamente as desigualdades, em parte, é possível porque a história da elaboração, disseminação e desenvolvimento do monoteísmo cristão ocorreu em associação com projetos de dominação imperial. Nessa associação, ele se misturou com formas coloniais, imperialistas e ocidentais de pensamento e de saber. (...) O cristianismo que aceita a promoção de discriminações, intolerâncias e violências é um cristianismo que ficou colonizado pelo desejo de poder dos impérios com os quais esteve aliado” (p. 98).

Portanto, o “estudo do Deuteronômio em grupos poderá nos ajudar a encontrar muitas luzes, propostas e caminhos práticos para construir uma sociedade mais solidária e justa, e que seja capaz de abrir as mãos para os irmãos. Como comunidades cristãs e como sociedade política, podemos dar passos para além do assistencialismo, mas que construamos relações solidárias no nosso entorno pessoal e familiar, e também busquemos ações que transformem nossas comunidades e nossas sociedades políticas municipais, estaduais e nacionais com a defesa e a implantação de relações sempre mais solidárias, analisando as injustiças sociais e promovendo iguais oportunidades de vida, estudo, saúde, trabalho e moradia para todos e todos os que conosco vivem” (p. 15-16).

Nota:

[1] DIETRICH, Luiz José; SILVA, Rafael Rodrigues de. Em busca da Palavra de Deus: uma leitura do Deuteronômio entre contradições, ambiguidades, violências e solidariedades. São Paulo: Paulus, 2020, 120 p. ISBN 9786555620207

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