Zeitgeist pós-iluminista e contrarrevolução cientificista na análise econômica

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Por: Guilherme Tenher Rodrigues | 03 Setembro 2020

Armando de Melo Lisboa demonstra de forma exemplar a história do pensamento econômico nos Cadernos IHU Ideias número 300. Desde os moldes iluministas e disruptivos, imbuídos do desejo de autonomia, racionalidade, aperfeiçoamento e humanismo dos séculos XVIII e XIX, até a análise crítica do exacerbado cientificismo e o trato demasiadamente “linear” e “mecânico” da Ciência Econômica no século XX, o autor nos convida, a partir dos inúmeros pensadores pós-iluministas que entenderam a intersubjetividade e complexidade da vida em sociedade, a apreendermos o “espírito do tempo” no século XXI.

O pensamento em ziguezague

Para todos aqueles que acompanham a evolução das ideias econômicas, é comum marcar o “nascimento” desta ciência a partir dos pensamentos iluministas dos séculos XVIII e XIX. Apesar de consistente e eficiente com o processo de rompimento da ordem social anterior, a epistemologia proclamada pelas Luzes apresentou profundas vicissitudes que, de uma forma ou de outra, ecoam até nossos dias. Segundo Armando, a revolução iluminista, dentre outras heranças, “rompe com o enclausuramento da visão de harmonia com a natureza, com os deuses e consigo próprio até então vigente; com o engessamento da concepção repetitiva e cíclica da história. No embate então posto com as forças conservadoras do Antigo Regime, estes princípios são levados ao extremo e, comprometendo a capacidade de cumprir suas promessas (corrompendo-as), se apresentam inicialmente de forma demiúrgica, ou seja, ambiciosa e irrealista. Os ideais da autonomia, racionalidade e aperfeiçoamento então se radicalizam e se metamorfoseiam de forma caricata”.

Apercebendo o caráter eurocêntrico, racista, imperial e unificante dos princípios de autonomia, racionalidade, aperfeiçoamento e humanismo, vários estudiosos, geograficamente difusos, convergiam para uma análise crítica do cientificismo e da incapacidade do pensamento economicista dialogar com os diferentes grupos, territórios e realidades. “Ao longo do século XIX, especialmente na sua segunda metade, fortalecem-se tanto questionamentos aos limites e excessos das Luzes, quanto o descortinar de outros horizontes. A progressiva luta decimonômica pela abolição do tráfico negreiro e da escravidão é um fulcral divisor. A perspectiva pós-iluminista que então surge [...] descobre-se como um desdobramento das Luzes que rejeita seus traços positivistas e gnósticos, repondo-a nos céticos trilhos dos fundadores desta tradição, como Hume e Smith. Este trabalho discutirá este despontar da razão pós-iluminista e sua trajetória no âmbito da razão econômica”, aponta o autor.

Armando elenca inúmeros pensadores com o intuito de apresentar a robustez conceitual e transdisciplinaridade da crítica ao determinismo. Citam-se autores como August Moebius, Darwin, Tolstói, Elisée Reclus, Nietzsche, Freud, Einstein, Karl Polanyi, José Vasconcelos, Schumpeter, Keynes, Veblen, entre outros. Entretanto, conforme alerta Armando, “em cada época não há ‘uma única zeitgeist’”, isto é, não se negligencia e existência de paralelas formas de pensar e interpretar os fenômenos do mundo.

Desta forma, “em meados do século XX ocorrerá no seio das ideias econômicas uma verdadeira contrarrevolução iluminista, a qual reafirmará a hipótese da racionalidade, núcleo central do programa neoclássico. Dela resultará o domínio absoluto da modelização matemática e econométrica – especialmente no âmbito da vertente keynesiana com a ‘síntese neoclássica’, reintegrando Keynes à velha tradição. Assim, com um quantitativismo positivista neutralizando e revertendo as ousadias teóricas daqueles precursores, além de isolar o liberismo radical dos austríacos, suas seminais ideias dissidentes serão abandonadas e esquecidas”, aponta o autor.

Esta “contrarrevolução iluminista” se desdobra em duas formas contemporâneas de se pensar Economia: a primeira é “tratar modelos puramente numéricos como representativos da realidade e confundi-los com o real”, já a segunda “revela-se nos que fogem dos números e buscam sua inviável eliminação, postura comum em muitas correntes heterodoxas. Enquanto uns se escondem em “moitas de álgebra”, outros carregam “a tocha da ideologia” [...] e proclamam a politização de tudo. Assim, diante das necessidades do cotidiano, a economia matemática acaba por ser um ferramental mais convincente e útil para explicar e operar trivialmente a economia”, escreve Armando.


Zeitgeist do século XXI


O que a história do pensamento econômico nos ensina para o século XXI? Armando encerra sua exposição teórica propondo uma análise aberta, que abarque “toda a riqueza contemporânea heterodoxa” dos estudos em economia, isto é, a importância de apreender a miríade de manifestações que enriquecem o campo da ciência econômica, incorporadas no “advento das economias ecológica, comportamental, solidária, feminista e da complexidade; o rebrotamento da ‘macroeconomia sem equilíbrio’”, por exemplo. E aponta perspectivas para a necessidade de diálogos transdisciplinares: “a natureza política e incerta dos problemas socioambientais contemporâneos exige que os economistas, cientistas políticos, antropólogos e biólogos saiam do encastelamento positivista de suas seguras casinhas e modelos técnicos para navegarem pelos revoltos mas fecundos e crescentes mares das demais disciplinas do conhecimento humano e com elas dialogarem”.


O texto está estruturado da seguinte forma:


Luzes: esplendor, corrupção, renovação
Para além das Luzes. Primeiros sinais
O despontar pós-iluminista na análise econômica
A vitória positivista nas ideias econômicas
Perspectivas para o século XXI

Armando de Melo Lisboa é professor no Depto. de Economia e Relações Internacionais da UFSC. Doutor em Sociologia Econômica pela Universidade Técnica de Lisboa (2004). Mestre em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (1988). Graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (1979). Atualmente é professor Associado I da Universidade Federal de Santa Catarina, tendo sido presidente da Associação de Professores da UFSC (APUFSC) entre 2006 e 2010, e exercido a chefia do Departamento de Economia e Relações Internacionais entre 2011 e 2015.

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