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28 Agosto 2020

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 22º Domingo do Tempo Comum, 30 de agosto de 2020 (Mateus 16,21-27). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ainda estamos em Cesareia, onde Pedro confessou Jesus como Cristo, Messias (cf. Mt 16,16). Mas que tipo de Messias é Jesus? E o que significa ser seu discípulo? É ele mesmo quem no-lo revela.

Jesus, depois de ouvir as palavras de Pedro, ordena aos discípulos que não digam a ninguém que ele é o Messias (cf. Mt 16,20), porque esse título poderia ser mal interpretado. E precisamente “a partir de então”, sinal de uma virada importante no caminho de Jesus e da sua comunidade, “começou a mostrar a seus discípulos que devia ir à Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei, e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (cf. também Mt 17,22-23; 20,17-19).

Mas o que significa que Jesus “deve” viver tudo isso? Isso absolutamente não indica um destino cruel que lhe foi imposto por Deus, mas sobretudo uma necessidade humana, porque, em um mundo injusto, o justo só pode ser hostilizado, até ser morto (cf. Sb 2).

Pois bem, se Jesus, o Justo, enfrenta esta situação sem responder aos seus algozes com violência, mas permanecendo fiel a Deus, então a necessidade humana também pode ser lida como necessidade divina: no sentido de que a livre obediência à vontade de Deus, que pede para viver o amor ao extremo, exige uma vida de amor, mesmo às custas de uma morte violenta. Foi assim que Jesus viveu, tendo compreendido a sua própria vocação messiânica à luz das Escrituras, com particular referência ao misterioso Servo sofredor descrito por Isaías (cf. Is 52,13-53,12).

Pedro, porém, como fiel crente judeu, não pode aceitar que esse seja o destino do Messias, do Rei de Israel. Por isso, com uma reação impulsiva e muito humana, chama Jesus à parte e começa a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor!”. O discípulo, sem saber aquilo que diz, pretende repreender o Mestre...

Jesus, em resposta, reserva-lhe palavras muito duras: “Vai para trás de mim, Satanás!”, isto é, volte para o lugar que lhe cabe. “Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus mas sim as coisas dos homens!”, de forma mundana.

O passo entre a bem-aventurança dirigida por Jesus ao discípulo (cf. Mt 16,17) e o fato de ser chamado de “satanás” é muito curto: nós o fazemos cada vez que presumimos sair do seguimento de Jesus para nos colocar na frente dele, obstaculizando assim o caminho por ele estabelecido para o seu pequeno rebanho.

“Então” Jesus esclarece, para evitar equívocos, qual é o comportamento exigido de quem vive no seu seguimento. Ele apenas reitera de maneira mais explícita a estreita comunhão entre o seu próprio destino e o dos discípulos, sobre o qual já havia dito: “O discípulo não é maior do que o Mestre” (Mt 10,24).

Jesus afirma acima de tudo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Isso significa parar de considerar a própria pessoa como medida de todas as coisas e “renegar ao idolátrico pertencimento a si mesmo” (Bruno Maggioni). Quem renuncia a esse comportamento deixa de se justificar e, por amor a Cristo, aceita também carregar o peso da cruz, instrumento da própria condenação à morte.

Esse modo de vida é plenamente iluminado pela palavra subsequente de Jesus, uma frase paradoxal que, nos Evangelhos, ressoa várias vezes nos seus lábios: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la”.

Eis o verdadeiro ganho, a verdadeira salvação que podemos conhecer dia após dia: perder a nossa vida por Cristo, doá-la como ele fez e nos ensinou a fazer, até não distinguirmos mais a nossa vida da vida de Cristo em nós...

Por fim, Jesus, voltando a falar de si mesmo na terceira pessoa, diz: “Porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”. O vínculo com aquilo que veio antes indica que o juízo começa para nós aqui e agora, e o seu parâmetro é o seguimento concreto de Jesus Cristo, sinal de uma fé confessada com a vida: a vida de quem, por amor a ele, deseja “segui-lo aonde quer que ele vá” (cf. Ap 14,4).

 

 

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