“Com o convivialismo, unir as forças da vida contra o neoliberalismo”. Entrevista com Patrick Viveret

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31 Agosto 2020

“Elaborar um pensamento e uma inteligibilidade do mundo alternativa àqueles que o neoliberalismo conseguiu impor a todo o planeta”: esta é a ambição de 300 personalidades de 33 países diferentes [1] signatários do Segundo Manifesto Convivialista (Actes Sud). Trata-se de encontrar e formalizar uma alternativa à famosa “TINA” [“There is no alternative” – Não há alternativa] de Margaret Thatcher e aos valores veiculados pelo neoliberalismo, como a ganância, o descomedimento e a competição em excesso.

O convivialismo, “filosofia da arte de viver juntos”, propõe, pois, cinco grandes princípios para libertar nossas mentes da influência neoliberal: o princípio da comum naturalidade (os humanos vivem na natureza, não fora dela), da comum humanidade, da comum socialidade (as relações sociais são a nossa maior riqueza), da legítima individuação (o direito de afirmar sua personalidade), da oposição criativa (a diferenciação a serviço do bem comum), e um imperativo: a recusa do descomedimento, para fugir do desejo de todo poder.

A entrevista é de Aude Martin, publicada por Alternatives Économiques, 22-08-2020. A tradução é de André Langer.

No espírito dos seus autores, este programa, que retoma e complementa o primeiro manifesto convivialista publicado em 2013, em particular no que se refere à relação com a natureza, deve ser a base para uma “Internacional convivialista”. Patrick Viveret, filósofo e ensaísta, conselheiro mestre honorário do Tribunal de Contas, explica-nos este processo.

Eis a entrevista.

Para a maioria das pessoas, o neoliberalismo é, acima de tudo, um conjunto de preceitos econômicos que justificam a entrada do mercado em todas as áreas da vida social. Mas você optou por atacar o neoliberalismo como uma ideologia. Por quê?

Não descartamos a crítica propriamente econômica, que é uma das quatro grandes questões que colocamos com a questão moral, a questão política e a questão ecológica. Mas é verdade que o neoliberalismo – pessoalmente prefiro falar em hipercapitalismo – também passa a ser uma narrativa, uma ideologia. Foi construída como tal por Friedrich Hayek e Milton Friedman desde a criação da Sociedade Mont-Pèlerin, quando decidiram atacar o keynesianismo. Eles pensaram em uma operação gramsciana para questionar a hegemonia do modelo socialdemocrata nos países capitalistas.

Junto com a crítica propriamente econômica, precisamos, portanto, também de uma crítica ideológica do neoliberalismo, ou do hipercapitalismo...

No centro da sua crítica ao neoliberalismo você coloca um conceito, a Hubris – que pode ser traduzido como descomedimento, ou orgulho exagerado –, que nos vem da Grécia antiga. Foi o momento em que os homens pensaram que escapariam de sua condição, que, por sua vez, clama exigia a vingança dos Deuses. Por que você diz que a hubris está no cerne da ideologia neoliberal?

Se não retomarmos a acepção religiosa desse conceito, que suporia em simetria uma espécie de sacralização da natureza, a hubris está de fato no cerne do neoliberalismo, em particular do hipercapitalismo financeiro, ou ainda da gestão arriscada do risco nuclear.

Estamos na hipérbole do descomedimento, do fascínio do poder que se volta contra si mesmo com o risco de destruição da própria humanidade. A hubris ainda está presente no transumanismo, ou mais precisamente no pós-humanismo com seu fantasma de um homem robotizado. Além disso, a hubris também estava amplamente presente no produtivismo do comunismo de Estado.

Acima de tudo, o descomedimento de hoje é a extensão infinita do mercado, até a mercantilização do humano?

Sim. Tudo se torna mercadoria. A teoria do gotejamento, amplamente criticada no segundo Manifesto, leva a justificar a ampliação das desigualdades absolutamente destrutivas, como vemos hoje.

O descomedimento é um fator comum na relação com a questão ecológica – a destruição da natureza e dos seres vivos –, na relação com a política – especialmente na sua forma militar do risco de destruição das espécies, e, finalmente, na relação da economia com a sociedade.

Se os pensadores neoliberais estabeleceram sua hegemonia cultural a partir da década de 1980, em torno do que a Internacional Convivialista que você propugna poderia estruturar sua reconquista?

É o projeto da “plena humanidade”, que visa realizar todas as potencialidades criativas de cada ser humano e de todos os seres humanos, rejeitando a lógica do descomedimento. Lógica que pode até levar a uma forma de pós-humanidade reduzida a um número limitado de seres humanos, sendo os outros seres humanos reduzidos a uma forma de domesticidade em relação a essa pós-humanidade.

A realização da plena humanidade é um projeto que se relaciona com as ideologias emancipatórias no sentido clássico, combatendo as desigualdades e os despotismos. Portanto, é destinado a todos os humanos. Mas também se dirige a cada ser humano, no sentido qualitativo do termo, uma vez que todos somos portadores de uma inteligência criativa muitas vezes imobilizada, desperdiçada, pelo sistema descomedido do hipercapitalismo. Isso também se aplica ao outro grande risco que vemos surgir, especialmente na China, o neototalitarismo. Também aqui estamos no descomedimento e no desperdício de humanidade.

Mas não é utópico hoje querer ver essas lutas tão diversas convergirem no mesmo momento em que as opiniões se fragmentam em categorias, gêneros, nações, raças, religiões...?

Podemos ver essa dificuldade claramente. Mas a questão principal é a capacidade da humanidade de continuar sua própria história. Nós entramos em uma década crítica e não é ser catastrófico dizer que a humanidade pode se perder. Ela até está sem saber como isso vai acontecer, o que, lembro, inclui o risco de um acidente nuclear militar, simultaneamente o mais proeminente e menos identificado, por estar atualmente sob o radar dos ambientalistas. Como observou Albert Camus, desde Hiroshima, a humanidade tornou-se um sujeito negativo de sua própria história a partir do momento em que teve a capacidade de se autodestruir.

O grande problema é que a humanidade torna-se finalmente um sujeito positivo. Esta é também toda a questão do Antropoceno positivo em relação ao Antropoceno destrutivo. Podemos ver o risco de que a humanidade se perca, seja biológica ou moralmente, em uma espécie de sobrevivência puramente biológica que não se preocupa com os valores da civilidade humana. Mas também vemos a possibilidade de um novo humanismo revisitado pelos princípios do convivialismo, que produziria um salto qualitativo em direção à plena humanização.

Se o Homo sapiens sapiens não é uma origem, como diz Edgar Morin, então deve ser um projeto. Ao primeiro sapiens, que usa sua inteligência de forma cooperativa e construtiva diante de lógicas guerreiras e destrutivas, devemos acrescentar o segundo sapiens, o da sabedoria, integrando os melhores elementos da modernidade e excluindo seu lado sombrio, sua parte de hubris… É um projeto positivo que se expressará de forma econômica, política, ética ou ambiental.

Em 2013, o primeiro manifesto convivialista colocou a democracia como um modelo indiscutível. Sete anos depois, o segundo manifesto observa que os princípios democráticos estão sendo questionados até mesmo entre os jovens ocidentais...

Não é o princípio, mas a forma democrática inacabada que é contestada.

A democracia da rivalidade, ou organizada em torno da lei da quantidade, representa um progresso incontestável em relação a qualquer sistema censitário. Porém, é insuficiente para lidar com os grandes desafios do nosso tempo. Precisamos de uma forma de democracia muito mais participativa, quando a de hoje nem mesmo é representativa: ela é delegativa e pouco deliberativa. Como mostra Dominique Rousseau, para enfrentar os desafios que se apresentam, temos necessidade de uma democracia permanente com uma dimensão qualitativa muito importante, aquela, por exemplo, que lhe aportam os denunciantes ou “os denunciantes de futuro”.

Permanecemos no princípio democrático naquilo que tem de melhor. Mas saímos das práticas quantitativas de rivalidade, de descontinuidade, de pura delegação porque essas formas podem dar origem a “democraturas”. Isso já aconteceu no passado, com os exemplos clássicos de Luís Napoleão Bonaparte eleito por sufrágio universal antes de dar um golpe de Estado, Hitler chegando ao poder por meio de eleições... e, mais recentemente, Jair Bolsonaro no Brasil.

Mas é o neoliberalismo responsável pela deriva das democracias em democraturas? Afinal, no neoliberalismo existe liberalismo...

É aqui que a explicação dos termos é importante. Obviamente, quando o Manifesto critica o neoliberalismo, não é no sentido do liberalismo político e cultural, sempre atual, mas desse hipercapitalismo teorizado por atores como Milton Friedman e os Chicago boys, os antiliberais radicais que fizeram suas primeiras experiências no Chile sob a ditadura de Pinochet. Um pouco mais tarde, Margaret Thatcher declarou seu famoso “não há alternativas” ao mercado, o que é inerentemente antidemocrático.

No entanto, devemos ter uma visão dinâmica porque não enfrentamos apenas um grande risco advindo do capitalismo, mas também pela ascensão do risco neototalitário que está surgindo no Extremo Oriente com o controle social estabelecido pelo regime chinês.

Que lição o convivialismo tira da gestão da pandemia da Covid-19: a quarentena de metade da população do planeta, os estados de emergência, a crise social que pode vir na sequência...?

A principal decisão nesta pandemia foi ter colocado a vida humana acima da perspectiva mercantil clássica. Isso é um elemento fundamentalmente positivo. O elemento negativo está do lado da democracia e das liberdades. Podemos ver o grande desafio que temos pela frente: se queremos evitar que as medidas regulatórias, rígidas e legítimas, que os poderes públicos serão obrigados a tomar em face das futuras crises de saúde ou climáticas, caiam no autoritarismo, devemos aumentar com a mesma energia as novas formas do direito e das liberdades, em particular na área digital, onde podemos ver claramente uma grande aposta para o futuro.

Quando Marx e Engels publicaram o Manifesto do Partido Comunista em 1848, eles designaram o proletariado como força vocacionada para emancipar a humanidade. Hoje, quais são as forças sociais e políticas que devem sustentar uma política conviavialista?

São todos os atores que estão do lado das forças da vida, como explicam Bruno Latour ou Dominique Bourg. A grande aliança dos terráqueos, em face das lógicas mortíferas, ilustradas, por exemplo, pela economia do crime, da guerra, da corrupção e das formas políticas que os acompanham. A questão central é o que chamo de plena humanidade, para que continue seu curso na história.

Indo mais longe, servir-se daquilo que Edgar Morin chama de Eros (o amor, nota do editor) contra Thanatos (a morte, nota do editor). Este desejo profundo de uma vida humana mais intensa e mais forte se opõe àquilo que na humanidade está do lado da barbárie e da destruição. O ponto forte do convivialismo, ou do humanismo revisitado pelo convivialismo, é entender que a humanidade é para si sua principal chance e seu principal problema. De uma forma humorística, é o paradoxo dos dois PFH, como dizia o nosso amigo Alain Aubry, recentemente falecido: o “Puto Fator Humano” de um lado, o “Precioso Fator Humano”, do outro. A questão toda é como passar do primeiro para o segundo.

“O proletariado não tem nada a perder, a não ser suas correntes”, disse Marx. E por esta razão deveria carregar o bem comum da humanidade. Mas o ponto cego de Marx é que o proletariado também é humano! Ele pode muito bem lutar contra a exploração, mas, libertado das correntes, não se tornar ipso facto totalmente humano, pois não é imune por natureza ao risco de uma regressão bárbara. O fato de ter sido vítima não vacina contra a tentação de ser algoz, assim como o fato de ter sido colonizado não o impede de se tornar um dominador.

Atacar a própria raiz da questão, a ambivalência da condição humana, deve acontecer em todos os níveis: em escala planetária, já que o futuro da humanidade está em jogo, mas também no íntimo de nossas vidas. O que o Fórum Social Mundial de Porto Alegre chamou de “eixo TPTS”: Transformação Pessoal e Transformações Social e Estrutural, devem ser pensados de forma complementar e não contraditória. Isso é verdade no âmbito mundial, de um continente, de uma nação, de uma localidade…

Até agora, as ideologias emancipatórias se pretendiam universais. Mas o universalismo é hoje acusado de ser o nariz postiço da dominação: do colonialismo no século XIX, do imperialismo no século XX, e agora da extensão infinita das leis do mercado. Como permanecer universalista em 2020?

A crítica legítima do universalismo ocidental como ideologia no sentido de Marx – isto é, como máscara das relações sociais de dominação – não nos condena ao relativismo, que é outro impasse. Por exemplo, os direitos das mulheres não podem ser subordinados a esta ou aquela cultura.

O manifesto convivialista fala de “pluriversalismo”, que é tanto o reconhecimento da pluralidade, o que Édouard Glissant chama de “identidades raízes”, como do comum dos terráqueos, da família humana, que inclui elementos fundamentais, entre os quais estão os direitos humanos. O desafio não é abandoná-los, mas garantir, por exemplo, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda um simples horizonte ideal, se torne um fundamento de direitos reconhecidos pelos Estados.

 

Nota:

[1] Encontramos aí, entre outros: Alain Caillé, Harmind Rosa, Chantal Mouffe, Edgar Morin, Bruno Latour, David Graeber, Barbara Cassin, Suzanne Bosch, Fabienne Brugère, Tetsua Abo, Claude Alphandery, Patrick Viveret

 

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