Ser discípulo e discípula de São Domingos nestes tempos de pandemia

Revista ihu on-line

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Mais Lidos

  • Uma visão do suicídio no Brasil em resposta à outra visão apresentada

    LER MAIS
  • "É hora de reaprender a arte de sonhar com os xamãs nativos"

    LER MAIS
  • “É triste ver cristãos acomodados na poltrona”. O alerta do papa Francisco contra a acídia

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


10 Agosto 2020

"A pandemia no Brasil é um verdadeiro genocídio, cujos efeitos colaterais desvelam as desigualdades que marcam, há anos, a nossa história nacional: fome, miséria, desemprego, precarização das condições de trabalho, falência de empreendimentos, refluxo da economia, desestabilização do sistema escolar, etc. O que faria Domingos em uma conjuntura como esta, que chegou a vender seus livros, feitos de peles de animais, para salvar peles humanas? O que ele espera de nós, seus seguidores e suas seguidoras?", escrevem Lideranças Dominicanas do Brasil, em carta, por ocasião da Festa de São Domingos de Gusmão, celebrada no dia 8 de agosto.

Eis a carta.

São Domingos rompeu com o triunfalismo da Igreja do século 13, que tanto escandalizava os pobres, a ponto de provocar dissidências na Cristandade (cátaros e albigenses, por exemplo). Com seu testemunho, fez radical opção pelos pobres, tornando-se mendicante e, ao fundar o que hoje conhecemos como Família Dominicana, desejou ver a Igreja retornar às suas origens evangélicas. Domingos assumiu e propagou a espiritualidade de Jesus, marcada por sua vida de denúncias das opressões e compromisso com os pobres, o que lhe trouxe inúmeros conflitos pessoais e políticos.

Muita gente, ainda hoje, se pergunta por que Jesus fez tal opção pelos pobres? A resposta continua óbvia: porque Jesus sabia que todo pobre é, de fato, um empobrecido, ou seja, uma vítima da injustiça social. A pobreza não é uma escolha, mas sempre um estado de carência e, por isso, não há, na Bíblia, um só versículo que diga que ela é agradável a Deus. Ao contrário, ela sempre aparece como um mal, fruto da injustiça que ameaça a vida plena. Assim, Deus não está do lado da pobreza, mas está sempre do lado do pobre, que é um bem-aventurado diante de seu coração e seus olhos.

Jesus assume a causa dos pobres e, por isso, sua vida foi fundamentalmente política e ele sempre falou do Pai em sentido político. O Deus de Jesus não admite nenhuma ordem política que negue o direito à vida, mas é um Deus que deseja o bem comum e preza por valores como a fraternidade, a solidariedade e o bem-estar de todas as pessoas. Jesus traduziu muito bem esse Projeto: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (João 10,10).

A pandemia da Covid-19 é uma séria ameaça à vida humana. Hoje ultrapassamos 95 mil mortes no Brasil, vítimas desta doença! Devido à ineficácia e ao descaso das Políticas Públicas, marcadas pelo imediatismo e pela insensibilidade e irresponsabilidade diante da morte, a pandemia no Brasil é um verdadeiro genocídio, cujos efeitos colaterais desvelam as desigualdades que marcam, há anos, a nossa história nacional: fome, miséria, desemprego, precarização das condições de trabalho, falência de empreendimentos, refluxo da economia, desestabilização do sistema escolar, etc.

O que faria Domingos em uma conjuntura como esta, que chegou a vender seus livros, feitos de peles de animais, para salvar peles humanas? O que ele espera de nós, seus seguidores e suas seguidoras? Certamente ele assumiria três atitudes:

1ª) Denunciar as causas desse genocídio: o surgimento do vírus por desequilíbrio socioambiental; a inoperância de certos governos (e, no Brasil, especialmente); o sucateamento do Sistema Público de Saúde; a seletividade social das vítimas; enfim, toda a insensibilidade e frieza diante da perda de dezenas de milhares de vidas.

2ª) Suscitar ações efetivas de solidariedade às vítimas, às suas famílias e aos setores mais vulneráveis da população: organizar mutirões e mobilização popular junto às populações pobres, para aliviar o sofrimento; promover distribuição de cestas básicas e produtos de higiene; ajudar iniciativas como as hortas e cozinhas comunitárias; ministrar cursos profissionalizantes às pessoas desempregadas; facilitar o acesso dos mais pobres aos recursos de internet, entre outras possíveis iniciativas.

3ª) Realizar ações formativas que levem à ruptura com os diversos fundamentalismos, porque estes se desdobram em violências contra as pessoas vulneráveis pela ação de seu Direitos.

Essas atitudes exigem de nós ainda mais: precisamos repensar a nossa missão dominicana. Como filhos e filhas de Domingos, somos discípulos e discípulas de Jesus? Em nossas missões, especialmente junto a Paróquias, Escolas e Movimentos Sociais, estamos sendo capazes de despertar o povo para o alcance da crise socioambiental da Encíclica Laudato Si'? Nossa Evangelização é meramente exortativa e sacramentalista ou também mobilizadora em favor das causas dos pobres e em prol da Justiça?

São questões que devemos responder com uma espiritualidade de compromisso libertador, assumindo a atitude de uma “Igreja em saída”, tão enfatizada pelo Papa Francisco. Nesta perspectiva, precisamos testemunhar uma Igreja que não seja fechada em sua expressão de conforto e omissão, como é o caso de certas estruturas conventuais, fundadas no distanciamento dos pobres e no receio de desagradar aos ricos.

Diante de quem bate às nossas portas com fome, chegou a hora de nós, também, “vendermos nossos livros” para alimentar as pessoas famintas, escravas, desempregadas, cansadas e desesperançadas de todo tipo.

Desejamos a benção divina de saúde e paz a todas e todos.

 

Assinam esta Carta: as lideranças dominicanas do Brasil, a saber:

• Frei José Fernandes Alves, Prior Provincial da Província Frei Bartolomeu de Las Casas e Coordenador da Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil
• Irmã Flor de Maria Callohuanca Aceituno, Priora do Mosteiro Cristo Rei
• Irmã Jacinta Fátima Souza, Presidente da Federação das Irmãs Dominicanas do Brasil
• Irmã Solanje Tavares de Carvalho, Priora Provincial das Irmãs Dominicanas de Monteils
• Irmã Maria do Bonfim, Priora Provincial das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena
• Irmã Maria Generosa Barbosa, Priora Provincial das Irmãs Dominicanas da Beata Imelda
• Irmã Solange Damião, Priora Provincial das Irmãs Dominicanas Romanas de São Domingos
• Irmã Judite Santana, Priora Provincial das Irmãs Dominicanas de Santa Maria Madalena
• Irmã Rosa Pinto, Delegada Geral das Irmãs Dominicanas do Santíssimo Sacramento
• Irmã Maria de Fátima e Silva, Priora Regional das Irmãs Dominicanas de Melegnano
• Irmã Mariza de Fátima Assis, Priora Regional das Irmãs Dominicanas de São José
• Irmã Marina Estevam de Jesus, Delegada Provincial das Irmãs Dominicanas da Anunciata
• Irmã Maria Cleide Pires de Andrade, Delegada Regional das Irmãs OPs da Apresentação
• Irmã Judith Gomez, Coordenadora da Casa dos Sonhos das Irmãs OPs do SS. Nome de Jesus
• Irmã Lucimar Custodio da Silva, Vigária das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena
• Rodrigo Barreto Rodrigues, Coordenador das Fraternidades Leigas Dominicanas
• Giovanna Araújo Santos, Coordenadora Nacional do Movimento Juvenil Dominicano – MJD

 

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Ser discípulo e discípula de São Domingos nestes tempos de pandemia - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV