O Dom Quixote da resistência anti-Francisco

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30 Julho 2020

No famoso romance de Cervantes, “Dom Quixote”, o protagonista é um nobre iludido que se imagina como um cavaleiro e vive em um mundo cavalheiresco criado pela sua própria imaginação. A história se mostrou tão popular que até nos deu uma palavra, “quixotesco”, para se referir a algo ou alguém que é irrealista, impraticável, movido por ideais inatingíveis.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicada em Crux, 29-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Se Cervantes estivesse vivo hoje e morasse na Itália, ele não precisaria sonhar com essa figura. Tudo o que ele provavelmente precisaria fazer seria seguir o Pe. Alessandro Maria Minutella.

Minutella, que completará 47 anos em setembro, é um padre siciliano que foi declarado excomungado latae santentiae pelo arcebispo Corrado Lorefice, de Palermo, em 2017, pelos crimes de “heresia e cisma”.

Ele é um tradicionalista feroz que agora aspira a liderar aquilo que ele chama de “resistência católica”, formando um “pequeno resto” que despreza a “falsa Igreja bergogliana” (uma referência ao sobrenome do Papa Francisco) e declara a sua lealdade ao Papa Bento XVI (que, é claro, nunca solicitou tal séquito).

“Sou apenas um instrumento, um burrico de Maria”, disse Minutella sobre o seu posicionamento. “Não tenho medo da afronta bergogliana e fomento a vergonha que ela merece, a fim de conscientizar as almas que querem se salvar da impostura anticristã desse absurdo neomessianismo.”

Aqui está a sua acusação em dez pontos contra Francisco.

1. Permitir a comunhão aos divorciados e em segunda união na Amoris laetitia;

2. Indiferença aos dogmas marianos;

3. Enfatizar a misericórdia com a exclusão do juízo (“misericordismo”);

4. Um documento sobre a fraternidade humana assinado por Francisco em Abu Dhabi, que Minutella afirma refletir um “sincretismo religioso”;

5. Negligência da missão (no sentido de não produzir convertidos ao cristianismo);

6. Neoarianismo, negando efetivamente a divindade de Cristo;

7. Reabilitar Martinho Lutero e Judas Iscariotes;

8. Uma escatologia “nebulosa”;

9. Questionar o celibato clerical por meio do Sínodo da Amazônia;

10. Idolatria daPachamama, uma figura da fertilidade amazônica, durante o Sínodo.

No domingo passado, Minutella levou seu ato a Roma.

Debaixo de uma árvore ao longo de uma rua que leva o nome de um dos primeiros papas, Minutella passou quatro horas e meia celebrando a antiga missa, fazendo catequese, proferindo uma homilia, e conduzindo orações e cantos dos Salmos. Ele atraiu uma multidão descrita por um simpático observador como “centenas”, incluindo pessoas “de todas as idades e classes sociais, todas usando máscaras e praticando o distanciamento social”, atraídas pelo boca a boca nos círculos católicos tradicionalistas.

O evento em Roma fez parte de uma turnê pelo interior da Itália, que também levará Minutella às regiões do Vêneto, Piemonte, Marcas e Toscana.

Para deixar claro, Minutella não é um ignorante. Ele possui um doutorado em História do Dogma Cristão pela Universidade Gregoriana de Roma, gerida pelos jesuítas, e escreveu a sua tese sobre a escatologia do famoso teólogo suíço Hans Urs von Balthasar. Quando ela foi publicada em livro, ela foi resenhada favoravelmente pelo L’Osservatore Romano, o jornal oficial do Vaticano.

No entanto, a inspiração de Minutella não se restringe aos clássicos teológicos. Ele também alega receber revelações privadas, o que inicialmente fez com que a Arquidiocese de Palermo o ordenasse ao silêncio em 2015. Isso realmente não aconteceu, já que Minutella acusou publicamente o Papa Francisco de heresia logo após a publicação da Amoris laetitia.

Em 2017, ele foi removido como pároco da sua igreja, levando ao decreto de excomunhão um ano depois, em um momento em que Minutella estava aconselhando seus seguidores – 43.000 em sua página no Facebook – a sequer entrarem em igrejas onde os párocos permaneciam leais a Francisco, a fim de evitar dúvidas sobre a validade dos sacramentos.

Para aqueles que objetam que não têm acesso a padres como Minutella, mas mesmo assim querem ir à missa, ele é inflexível. “A missa é muito importante, mas é ainda mais importante conservar a fé em sua integridade”, disse ele.

No entanto, a revolução de Minutella é principalmente virtual, já que são realmente apenas a mídia e os sites arquiconservadores na Itália que estão prestando alguma atenção. A poderosa Conferência Episcopal Italiana nem se preocupou em emitir uma declaração pública sobre isso, provavelmente porque, mesmo assumindo que todas as 43.000 pessoas que seguem Minutella no Facebook estejam “fechadas” com ele – e algumas provavelmente o seguem apenas por curiosidade, outras por algo semelhante à pesquisa de oposição –, isso ainda representa apenas cerca de 0,08% da população católica total da Itália.

É verdade que há muitos católicos que compartilhariam pelo menos uma parte do diagnóstico de Minutella. Alguns são admiradores do arcebispo italiano Carlo Maria Viganò, que provavelmente está mais próximo da posição de Minutella, pois não apenas pediu a renúncia de Francisco, mas também pareceu rejeitar o Concílio Vaticano II recentemente.

Um conjunto muito maior e mais diverso da opinião conservadora discordaria desta ou daquela decisão tomada por Francisco, embora provavelmente também encontraria coisas para apreciar.

Tudo isso, no entanto, é um mundo longe de abraçar abertamente a revolta e de correr para as barricadas.

No entanto, embora Minutella possa estar lutando contra moinhos de vento, ele não mostra sinais de abandonar a sua empreitada. Recentemente, ele lançou um desafio aberto aos teólogos, acadêmicos e até mesmo aos bispos simpáticos ao papa para acompanhá-lo em uma mesa redonda, com a condição de que um moderador neutro fosse encontrado para mediar a discussão.

Resta saber o quão produtivo seria esse intercâmbio, mas não há dúvida de que seria divertido – outro exemplo, talvez, da vida imitando a arte: neste caso, Cervantes provavelmente deveria se sentir lisonjeado.

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