“A Igreja precisa de mulheres cardeais. O fato de um homem ser ordenado não pressupõe competência”

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29 Julho 2020

"A questão da liderança na Igreja muitas vezes assume como padrão a questão da ordenação, um erro enorme, pois a ordenação simplesmente não confere tal competência à liderança, embora reconheça e confirme a capacidade de presidir certos sacramentos", escreve o jesuíta e teólogo estadunidense James F. Keenan, professor da cátedra Canisius do Boston College, nos EUA, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 28-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Na semana passada, o La Croix e a The Tablet noticiaram uma entrevista com o presidente da Conferência dos Bispos da França, o arcebispo Éric de Moulins-Beaufort. Durante a entrevista, ele imaginou que “a Santa Sé será um dia liderada pelo papa cercada por um Colégio dos Cardeais no qual haverá mulheres”.

As reflexões do arcebispo de Reims me lembraram de muitos anos atrás, quando eu era muito mais jovem, e os católicos mais velhos se atreviam a discutir a ordenação de mulheres.

Invariavelmente, os debates sobre a probabilidade de haver mulheres ordenadas se rendiam à questão de saber se essa ordenação era possível. Aqui, os argumentos contra a possibilidade foram levantados invocando a misoginia generalizada, as culturas locais, a teologia, o Direito Canônico, a Bíblia e até mesmo a intencionalidade de Jesus na última ceia!

Depois de esgotar uma série de objeções a essa possibilidade, invariavelmente alguém mais velho na sala sugeria: “Por que não criar mulheres cardeais?”. Isso muitas vezes provocava olhares duvidosos de quase todo mundo, mas o esperto proponente os lembraria que, até recentemente, havia, de fato, cardeais leigos. “Eles não precisavam ser ordenados”, concluía sabiamente o proponente.

Foi há apenas 100 anos que o “novo” Código de Direito Canônico (1917) decretou que os cardeais deveriam ser ordenados. Antes disso, eles eram ou leigos ou ordenados, embora claramente a maioria fosse ordenada.

A ordenação foi introduzida, em parte, para corrigir abusos na nomeação de cardeais. Por exemplo, em 1735, o Papa Clemente XII criou cardeal Luis Antonio de Borbón, filho do rei Felipe V da Espanha, aos oito anos de idade. A ordenação daria certa segurança de que a pessoa fosse adulta e com formação teológica.

Em 1983, o Código exigiu que os cardeais fossem bispos.

Não devemos pensar, no entanto, que essas leis negaram a possibilidade de os papas criaram cardeais leigos. Embora raramente possamos saber o que um papa pretende fazer até que ele o revele, houve relatos bastante consistentes de que o Papa Paulo VI queria ou realmente se ofereceu a criar cardeal o filósofo francês Jacques Maritain, e mais tarde o Papa João Paulo II ofereceu a nomeação para a Madre Teresa. Os dois recusaram a oferta.

Além disso, em 2013, o padre jesuíta Frederico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, comentou que as mulheres cardeais eram “teológica e teoricamente possíveis”. Assim como meus veteranos de 50 anos atrás, ele acrescentou: “Ser cardeal é um daqueles papéis na Igreja para os quais, teoricamente, você não precisa ser ordenado”. Ele disse isso, no entanto, para conter a especulação de que uma mulher estaria entre as nomeadas para o próximo consistório.

Por que as mulheres cardeais importam?

Assim como nas discussões há 50 anos, os comentários do arcebispo de Reims nos lembram de uma variedade de maneiras pelas quais os leigos em geral e as mulheres em particular podem e devem exercer a autoridade e a liderança na Igreja. Ele abordou a questão das diáconas, mas estava muito mais interessado na diversidade dos papéis de liderança na Igreja que não estão sendo preenchidos pelos leigos, nem especialmente pelas mulheres, religiosas ou leigas. Assim, ele observou que estava “completamente perplexo” diante do fato de que os irmãos religiosos não ordenados podiam votar nas assembleias do Sínodo dos Bispos, mas as mulheres não.

Lembrando-nos de que os ordenados “não são, em princípio, nem mais sábios nem estão mais perto de Deus do que os leigos”, ele acrescentou que “a voz de todos os leigos batizados, a partir do momento em que tentam viver cristãmente, deveria poder importar tanto quanto a do clero”.

Depois, ele se voltou para a questão da competência: “Nada as impede de desempenhar muito mais funções importantes no funcionamento da instituição, e todas são uma questão de competência”.

Ah, a competência! A questão da liderança na Igreja muitas vezes assume como padrão a questão da ordenação, um erro enorme, pois a ordenação simplesmente não confere tal competência à liderança, embora reconheça e confirme a capacidade de presidir certos sacramentos. A insistência do Papa Francisco em um sacerdócio que se ponha a serviço é um acréscimo útil: a Ordem é fundamentalmente um sacramento para uma vocação de serviço.

Quando se trata da competência para a liderança, o sacramento não dá às pessoas aquilo que elas não têm. Pelo sacramento da Ordem, um padre ou um bispo não se torna mais capaz de liderar um ofício, uma paróquia, um departamento de uma Conferência Episcopal, uma conferência estadual ou nacional, uma confraternidade, uma organização não governamental católica, um dicastério ou uma Congregação. O clero não ganha tal competência por meio da Ordem.

O apelo a se ter mulheres cardeais, então, é um ponto a ser considerado. O papa, logo após sua eleição, criou um gabinete de oito cardeais cujo julgamento ele queria convocar regularmente. Se ele está buscando um julgamento competente, não poderia haver mulheres nesse grupo? Se as mulheres pudessem ser cardeais, elas não deveriam estar no seu círculo íntimo de confidentes e conselheiros?

Eu sempre acho energizante o tema das mulheres cardeais. Assim como aconteceu há 50 anos e como Moulins-Beaufort ilustrou recentemente, o tema nos provoca a desvincular a questão da competência da Ordem e nos permite ver, como Paulo nos disse, a variedade de dons dentro da Igreja.

Essa desvinculação está muito atrasada.

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