O coração livre de Santa Sofia. Artigo de Enzo Bianchi

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28 Julho 2020

"Os mosaicos cristãos foram cobertos novamente por ocasião da oração da sexta-feira, hino a uma mortificante reconquista. Hagia Sophia poderá não ser motivo de conflito? E enquanto esse prédio se torna uma mesquita novamente, na Europa as catedrais estão queimando: Notre-Dame de Paris, a de Santos Pedro e Paulo de Nantes, outras igrejas recentemente... Devemos estar cientes: isso também é um sinal, um apocalipse para esta Europa astênica e calada e para todos os cristãos", escreve Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 27-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Desde sexta-feira passada, Hagia Sophia, um templo extraordinário no qual cristãos e muçulmanos reconhecem uma santidade particular, voltou a ser uma mesquita. É uma humilhação para a minoria cristã ortodoxa na Turquia, mas também para todos os cristãos do mundo.

Hagia Sophia, reconstrução da basílica constantiniana, de 537 a 1453, foi a "grande igreja" no centro do cristianismo oriental, sede do patriarca de Constantinopla, local de celebração de alguns concílios ecumênicos. Para a ortodoxia, foi o coração da fé e da missão, e é significativo que, no final do primeiro milênio, os enviados do príncipe Vladimir de Kiev encontrassem na beleza dessa igreja e na gloriosa liturgia ali celebrada razões para escolher a fé cristã.

Não se deve esquecer, no entanto, que os primeiros a profanar e saquear essa igreja foram os cristãos latinos, durante a IV Cruzada, transformando-a em uma catedral romana católica (1204-1261). Com a queda de Constantinopla, em 1453, Hagia Sophia foi convertida em mesquita: logo foram adicionados os minaretes, enquanto os mosaicos murais que representavam Cristo, Maria e os santos foram destruídos ou rebocados. No entanto, os cristãos continuaram a reivindicar Santa Sofia e até a igreja católica com o cardeal Gasparri, secretário de Estado de Bento XV, tentaram torná-la uma catedral católica. Em 1935, o fundador da república turca, Kemal Ataturk, em nome da laicidade, decidiu transformar esse edifício em um museu aberto a milhões de visitantes: um ato de reconciliação entre religiões frequentemente em conflito.

Não consigo esquecer quantas vezes entrei em Santa Sofia, procurando nos mosaicos novamente descobertos o rosto de Cristo, e Maria e dos padres, entre os quais, muito evidente, João Crisóstomo. É claro que não se podia orar publicamente, mas o coração estava livre para viver emoções contrastantes: admiração, dor, nostalgia e esperança... Bento XVI, visitando Santa Sofia, também parou em um silêncio emocionado.

Recentemente, o presidente turco Erdogan decidiu reconverter Hagia Sophia a mesquita. O patriarca ecumênico Bartolomeu protestou com palavras carregadas de dor, preocupado que esse gesto pudesse semear discórdia entre cristãos e muçulmanos. O papa disse que estava triste e outros patriarcas do Oriente manifestaram sua vibrante discordância, incluindo o russo Kirill e o metropolita Hilarión, mas com palavras de diálogo e pacificação.

Os mosaicos cristãos foram cobertos novamente por ocasião da oração da sexta-feira, hino a uma mortificante reconquista. Hagia Sophia poderá não ser motivo de conflito? E enquanto esse prédio se torna uma mesquita novamente, na Europa as catedrais estão queimando: Notre-Dame de Paris, a de Santos Pedro e Paulo de Nantes, outras igrejas recentemente... Devemos estar cientes: isso também é um sinal, um apocalipse para esta Europa astênica e calada e para todos os cristãos. É claro que eles podem prescindir de igrejas de pedra, mas também são cidadãos europeus que não podem renunciar aos sinais de sua história e cultura.

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