“Na Amazônia, a Igreja tem o grande desafio de escutar, construir e caminhar juntos”. Entrevista com Alfredo Ferro

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23 Julho 2020

O Sínodo para a Amazônia tornou visível a necessidade de formalizar alianças entre a Igreja Católica e os povos indígenas. A partir daí, passos foram dados, sendo um deles a Assembleia Mundial pela Amazônia, da qual a Rede Eclesial Pan-Amazônica - REPAM, formalmente fez parte, posicionando-se claramente em favor dos povos originários, como o Cardeal Pedro Barreto, vice-presidente da REPAM, deixou claro em seu discurso de abertura.

O representante da REPAM na Assembleia Mundial da Amazônia foi Alfredo Ferro, que aponta que "o processo de organização e realização foi um pouco surpreendente", sendo visto como "algo que rompe todos os tipos de fronteiras e propõe realmente uma proposta ampla". Sem saber muito bem como a assembleia continuará a tomar providências, o jesuíta colombiano enfatiza a importância do trabalho em rede. Neste sentido, a Igreja, uma das instituições com presença mais capilar na Amazônia, "deve tomar consciência do que este território significa para o mundo, para o planeta, o que está em jogo e assumir um compromisso", sendo também uma Igreja profética.

Alfredo Ferro (Foto: Luis Miguel Modino)

No relacionamento da Igreja com os povos indígenas, o auditor do Sínodo da Amazônia destaca a importância da visita do Papa Francisco a Puerto Maldonado e sua disposição para escutar, o que representa um grande desafio para escutar, construir e caminhar juntos. Neste sentido, "a presença de homens e mulheres indígenas no Sínodo foi chave, fundamental, a voz dos povos originários". Olhando para o futuro, a Conferência Eclesial da Amazônia pode ajudar nesta relação, sempre sabendo que na Igreja, também na Amazônia, existem visões e sensibilidades diferentes.

A entrevista é de Luis Miguel Modino.

Eis a entrevista.

Este tempo de pandemia, em todo o mundo, mas especialmente na Amazônia, está mostrando que tudo isso tem causas e conseqüências. Neste sentido, a Assembleia Mundial da Amazônia quer ser um chamado para tomar consciência desta realidade. Qual é a importância desta Assembleia Mundial pela Amazônia para a REPAM?

Para muitos de nós, o processo de organização e realização da Assembleia Mundial pela Amazônia foi um pouco surpreendente, processos anteriores já haviam vindo de diferentes instituições, entidades, organizações, movimentos, mas acredito que há uma intuição e uma confluência de desejos, interesses e sonhos, e foi aí que a REPAM entrou, quando já havia começado um pouco. Inicialmente, havia sido pensada uma proposta mais regional e acredito que a que lhe deu maior impulso e força para assumir uma maior transcendência foi a COICA.

Uma leitura que tenho é que quando a COICA entra, quando a FOSPA também entra, vemos que também podemos nos aliar, construir juntos, não só com aqueles movimentos que existem em nível amazônico, mas também fazendo um chamado a todas as pessoas, entidades, comunidades, grupos, organizações, que estão interessadas, não só em tornar visível o que está acontecendo na Amazônia, a realidade, o contexto e a situação em relação à COVID-19.

Para a REPAM é uma grande oportunidade, não só de contribuir neste espaço, a partir de toda a experiência que a REPAM teve nestes seis anos, mas também de entrar em diálogo com outros movimentos, organizações e pessoas interessadas em levantar o que está acontecendo, tanto que o slogan é contra o etnocídio, o ecocídio e o extrativismo na Amazônia, que é agravado pela pandemia da COVID-19. Em resumo, é também uma grande oportunidade de poder realizar algo que nós da REPAM sempre contemplamos, que não é apenas um movimento eclesial, mas que deve ser estendido além dos limites da Igreja e dos países. É algo que quebra todos os tipos de fronteiras e propõe realmente uma proposta ampla naqueles três eixos em que a assembleia trabalhou.

A REPAM é uma rede, neste caso eclesial, a Assembleia Mundial da Amazônia também quer ser uma rede de organizações, movimentos, de pessoas preocupadas com a Amazônia. Podemos dizer que o trabalho em rede é apresentado como um caminho para o futuro da humanidade, especialmente no período pós-pandemia?

Sinto que a REPAM, com sua experiência na construção de uma rede, também pode contribuir para esta proposta de construção de uma rede global. Em uma das reuniões, quando a COICA entrou mais plenamente, a gente se perguntava se era regional ou global, e a COICA foi muito clara ao dizer que deveria ser global, porque a Amazônia é de interesse global, somos todos amazônicos e a Amazônia deveria nos interessar a todos. Essa perspectiva é muito interessante, para criar uma rede não apenas na Amazônia, mas além da Amazônia. Nesse sentido, também fortalecer o que já temos, consolidá-lo e repensar, em termos de uma ampla rede, quais seriam os grandes desafios da Amazônia.

É muito interessante lidar com algo que não sabíamos como iríamos fazer, que é a possibilidade de que mais de três mil pessoas estivessem conectadas em uma rede virtual, onde havia, como expressei um pouco no final, além do virtual, laços, lutas, memória, interesses, paixões por fazer algo mais juntos. Não sabemos, nem os organizadores nem todos nós que lá estivemos, como a construção desta rede continuará de forma concreta, acho que teremos que pensar nisso também, acho que já existe uma rota, mas isso também significa como girar muito mais fino onde esses nós de rede estarão, como a rede será construída, porque existem focos mais temáticos, mais regionais, mais territoriais.

Temos que olhar um pouco mais para isto e é um grande desafio, mas pela pergunta que você me faz, sinto que em todo o mundo, a sociedade tem proposto a construção não só de redes e a importância das redes, mas também temos que fazer caminhos e descobrir o que significa ser uma rede.

Você diz que a Amazônia deve ser importante para todos, por que a Amazônia deve ser importante para a Igreja Católica?

Em primeiro lugar, devido a sua presença histórica, se alguma instituição esteve presente na história da Amazônia, é a Igreja Católica. Como dizemos na REPAM, com suas luzes e também com suas sombras. Ultimamente, talvez desde o pontificado de Francisco, tem havido uma espécie de sacudida na Igreja, no sentido de que estamos realmente nos perguntando qual é nosso papel, nossa missão, o que significa esta presença histórica e atual em todos os territórios amazônicos. Se alguém chega aos recantos mais remotos deste território amazônico, é a Igreja. Temos uma presença, uma estrutura, que pode nos ajudar a criar estes vínculos, a fazer estas propostas específicas.

A Igreja Católica deve tomar consciência do que este território significa para o mundo, para o planeta, o que está em jogo, e assumir um compromisso, que creio ter sido destacado nesta pandemia, que é ser uma Igreja profética, da qual o Sínodo nos falou claramente, e uma Igreja samaritana, porque a Igreja é uma das instituições que também tem sido tocada pela necessidade, pela urgência, por uma tarefa de assistência humanitária, de estar perto daqueles que sofrem com esta pandemia. É do interesse da Igreja poder acolher, demonstrar solidariedade e estar ao lado daqueles que mais sofrem com a pandemia.

Mas também uma Igreja profética, na medida em que temos que denunciar tudo isso que se tornou visível na pandemia, diante dos problemas que a mesma assembleia levantou como o etnocídio, o ecocídio e o extrativismo. Estas três palavras expressam um pouco do que tem sido a tragédia e o que são as ameaças ao território amazônico. É muito importante dentro de nossa missão eclesial, dentro da REPAM, ser claro sobre nossa função, nossa missão, e refletir sobre ela, pensar sobre ela, discerni-la nesta situação concreta da COVID-19. Sabendo que temos que ser criativos, inovar, pensar em novas formas de presença.

Espero que a questão do fechamento de todos os templos, espero que nós, como Igreja, os párocos e todas as prelazias, as dioceses e arquidioceses, tenhamos sido questionados sobre o que isso significa, se talvez tenhamos sido fechados demais em nossas sacristias, em nossos templos, onde realmente está nossa missão, nossa presença, qual é a mensagem que temos que levar ao nosso povo e como podemos acompanhar mais de perto as comunidades.

O Sínodo para a Amazônia tornou visível uma aliança entre a Igreja e os povos originários que, como você disse, tem estado presente, com suas contradições e problemas, ao longo dos últimos quatro séculos. Olhando para o futuro, quais são os desafios que esta aliança apresenta para a Igreja em geral e para a REPAM?

Há novidades ali, que decorrem não só da experiência e história que a Igreja tem tido em relação aos povos indígenas, mas também de atitudes e práticas proféticas, como, por exemplo, a presença do CIMI, no Brasil, e das pastorais indígenas, não é a primeira vez que nos fazemos esta pergunta. Mas há algo que marca a história no relacionamento com os povos originários, e que é a presença do Papa Francisco na Amazônia, quando em Puerto Maldonado ele se encontra com os povos indígenas. Naquele momento, ele diz que quer escuta-los, ele faz um chamado a todos nós, como Igreja, sobre o que deve ser nosso compromisso, mantendo também a riqueza cultural, a riqueza de ser os cuidadores da floresta, dos povos indígenas.

Isso nos deu um novo ar, um novo espírito para dizer qual é nosso compromisso com os povos indígenas, com suas organizações. E nesse sentido, o Sínodo, também a mesma exortação apostólica Querida Amazônia, nos apresenta grandes desafios sobre a forma como podemos acompanhar os povos originários. Há um verbo que esteve muito presente durante todo o processo sinodal, que foi o verbo escutar. É algo fundamental, temos que começar, embora o caminho já tenha sido feito, pelo menos nos perguntarmos se estamos realmente escutando os povos indígenas, suas cosmovisões, suas práticas, sua história, se os estamos reconhecendo como tal, respeitando-os como eles são, como uma cultura.

Há um limite para as propostas de evangelização, até que ponto continuamos com as visões colonialistas na forma como estamos presentes aos povos indígenas, nos territórios, na forma como celebramos os sacramentos, em que estamos catequizando. Tudo isso são expressões que às vezes levam uma marca neocolonial, somos nós que vamos, aqueles que carregam a verdade, a doutrina, aqueles que distribuem sacramentos, é a Igreja institucional que faz presença para converter, mudar, evangelizar. Parece-me que temos que desaprender muitas coisas.

Aqui há um grande desafio de escutar, construir e caminhar juntos. Há algo que eu acho muito novo e acho que é fundamental, pelo menos eu o sinto, que é a relação com as organizações indígenas. A presença de homens e mulheres indígenas no Sínodo foi fundamental, a voz dos povos originários no Sínodo. Gregorio, o coordenador geral da COICA esteve presente no Sínodo, sua palavra foi muito importante, agora também, como líder, na Assembleia Mundial da Amazônia, e acredito que existe uma relação muito próxima. Fiquei impressionado com o fato de que no discurso final da assembleia ele fez uma alusão concreta ao Cardeal Pedro Barreto, dizendo que o Cardeal se comprometeu, e com ele a Igreja se comprometeu.

Há ali um reconhecimento que não existia antes, ou que era muito difícil, por causa do olhar, da visão, que muitas vezes os povos originários têm de uma Igreja muito imponente e autoritária, que muitas vezes não entendia suas visões e suas propostas. Tenho a impressão de que a aliança com as organizações é muito importante. Aqui na Colômbia, a REPAM Colômbia, junto com o IRI e a Secretaria Nacional de Pastoral Social, fizemos um acordo com a OPIAC, a Organização dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana, que é novidade, que não existia. Estamos abrindo caminhos para que se não construirmos estas propostas, com as organizações e associações dos povos indígenas, será muito difícil estar ao lado destes povos, acompanhá-los em suas lutas e a partir do mesmo território. Há ali desenvolvimentos muito interessantes, que teremos de continuar a entender e ver que há passos sendo dados.

O Sínodo para a Amazônia fez a proposta de criar um Observatório de Direitos Humanos. Esta Assembleia Mundial para a Amazônia poderia ser um elemento que ajudasse na criação deste organismo e encontrasse diretrizes sobre para onde ele deveria ir?

Na rota que foi traçada, alguns grupos da Assembleia Mundial o propuseram como necessidade de mapeamento, diagnósticos que têm a ver com o observatório que o Sínodo propôs. Vamos ver como acontece o desenvolvimento, mas me parece que este observatório deveria propor alianças, especificamente com esta assembleia, alianças com organizações, instituições, universidades. Isso requer pessoas especializadas, com muita boa formação, para que se possa construir um bom observatório que possa ajudá-la. A REPAM está contribuindo com todo o mapeamento, que foi muito reconhecido na assembleia como um passo muito importante, com tudo o que a REPAM tem feito dentro do processo não só de mapear a realidade e fazer um diagnóstico de todos os vicariatos, dioceses, arquidioceses que existem na Amazônia, mas também, o que é algo fundamental, para ver o que significa este observatório, e me parece que poderia ser um tema que a Conferência Eclesial da Amazônia poderia tratar.

Isso ainda está um pouco no ar, porque a iniciativa ainda não começou. É muito prematuro dizer isso, mas poderia ser uma tarefa da Conferência Eclesial da Amazônia elaborar os parâmetros do que poderia ser este observatório. E até que ponto este observatório teria que fazer alianças além da Igreja, com outras entidades, movimentos e com as próprias organizações dos povos indígenas.

O Cardeal Barreto disse na abertura da Assembleia Mundial da Amazônia que a Igreja está pronta para viver com os povos amazônicos e, se necessário, morrer com eles. Poderíamos dizer que a Igreja fez uma opção clara pela defesa da Amazônia e de seus povos, e que isso será aprofundado no futuro?

As palavras de Pedro Barreto foram muito significativas no início da assembleia, eu as achei muito boas. Ouvi várias vezes o discurso de Pedro, suas propostas, suas reflexões, e penso que este foi muito bom, no sentido de radicalidade, de dizer que queremos acompanhá-los, que queremos deixar a vida. Agora, que toda a Igreja Amazônica está alinhada para que assim seja, não creio que isso seja muito verdadeiro. Parece-me que a Igreja Amazônica não é monolítica, que há uma parte desta Igreja Amazônica que é muito comprometida, que está mais próxima dos povos e comunidades amazônicas, que tem um compromisso maior, que pode chegar ao ponto de entregar a vida, porque certamente, como sabemos, há perseguição quando há um compromisso radical de entregar a vida pelos povos e por suas lutas.

Mas me parece que há também outro setor da Igreja Amazônica muito na sacristia, muito olhando os touros da barreira, muito de uma pastoral sacramentalista, um pouco não sei se é carismático, na medida em que é difícil ver esta dimensão sócio-política, sócio-ambiental, que me parece ser fundamental. Há de tudo na Igreja na Amazônia, eu não diria que toda a Igreja na Amazônia está naquilo que o Cardeal Barreto nos chamou, mas me parece importante que no próprio processo da REPAM, em sua história de relacionamento com a Amazônia e em seu compromisso, enviemos uma mensagem profética e nos perguntemos se estamos realmente prontos para dar nossas vidas pelos povos indígenas.

 

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