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15 Julho 2020

“Imagine que nosso principal motivo para voltar ao trabalho fosse fabricar e produzir as coisas que as pessoas realmente precisam para viver uma vida plena, em vez de simplesmente fazer nossa parte para manter os ricos protegidos e a salvo do resto de nós. Isso, sim, é pensar positivo”, escreve Douglas Rushkoff, escritor, documentarista e conferencista, em artigo publicado por El Salto, 10-07-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Ouviu as boas notícias? Donald Trump disse que a paralisação de nossos negócios como uma medida para conter o coronavírus já é coisa do passado. Sim, permitir que as pessoas retornem ao trabalho espalhará os contágios, mas a morte de algumas centenas de milhões de nós (se não acabar sendo alguns milhões) é um preço muito pequeno, se conseguir resgatar a economia norte-americana do colapso. Nas palavras do presidente: “não podemos permitir que o remédio seja pior que a doença”.

A mensagem de Trump é clara: a economia não existe para servir os seres humanos, os seres humanos existem para servir a economia. As pessoas que morrem a serviço do índice Médio Industrial Dow Jones são meras externalidades frente a maior prioridade do crescimento de capital. Como a destruição do meio ambiente, nossas doenças e mortes são um custo necessário para a atividade empresarial. Não podemos nos render frente aos deprimentes resultados anunciados por médicos e cientistas, para não esvaziarmos a esperança e o otimismo que fazem grande a América.

As pessoas que mais se beneficiarão do nosso sacrifício (os bilionários cujas fortunas se baseiam quase que exclusivamente na constante capacidade de crescimento da economia) já estão se preparando para escapar. Estão reservando aviões particulares, prontos para decolar para seus recintos isolados para o fim do mundo, no momento em que pensarem que estão em risco real.

É uma variação da "equação do isolamento" sobre a qual escrevi a alguns anos atrás, depois de me encontrar com um grupo de bilionários que procuravam conselhos sobre como manter a segurança em seus bunkers apocalípticos, caso chegasse o colapso da sociedade. O objetivo do jogo, tal como eles o veem, é ganhar dinheiro suficiente para se isolar das consequências diretas e indiretas de suas próprias empresas. É um pesadelo interminável: quanto maior o dano ambiental e social que causam, mais dinheiro precisam ganhar para se proteger da devastação que deixam para trás e mais se comprometem com a tarefa de salvar a pele e deixar para trás o resto do mundo quando surgir uma crise real.

Para ser honesto, essa visão de mundo é uma extensão natural de uma ideologia mercantil que já aceitava as baixas humanas como parâmetro na hora do cálculo. Como Trump declarou não sem razão: "se você olhar, o número de acidentes de carro é muito maior do que o número que estamos lidando e não é por isso que dizemos a todos para não dirigir mais". Todos os dias calculamos o custo relativo das vidas humanas, na medida em que conduzimos nossos negócios e aceitamos a concessão entre, por exemplo, o custo de fazer com que um carro seja seguro e a necessidade de fazê-lo rentável.

Assim é o American Way, a maneira americana de fazer as coisas em certos aspectos. Como Dan Patrick, governador do Texas, disse a Tucker Carlson, na segunda-feira: "ninguém chegou perto de me perguntar: ‘está disposto, como pessoa idosa, a arriscar sua sobrevivência em troca de manter a América que todo mundo quer para seus filhos e netos?’ Se essa é a troca, conte comigo”. A premissa subjacente é simples: o confinamento pelo coronavírus freia a expansão divina da economia estadunidense. É uma defesa equivocada dos fracos e dos idosos. Realmente vamos deixar que nosso grande mercado vá para o inferno?

Essa é uma visão de mundo quase fascista, na qual deixamos de nos obrigar a tomar decisões em favor dos perdedores e começamos a tomá-las em nome dos vencedores. Além disso, tal como nos ensinou Ayn Rand, quanto mais ajudamos os fracos, mais nos enfraquecemos como sociedade e acervo genético. Assim é a seleção natural.

Obviamente, a maioria das pessoas que argumentam a favor de aceitar esses riscos à saúde pública se encontra em uma situação de risco leve ou nulo. Têm médicos particulares que trabalham dia e noite para conseguir os testes e respiradores necessários, caso não consigam chegar a seus esconderijos a tempo. Não, os riscos são assumidos inteiramente por aqueles que não podem pagar tais medidas. Para os ricos, é muito mais fácil adotar uma postura positiva.

No entanto, para ser justo, existe certa lógica interna nessa abordagem, uma lógica tão antiga quanto o espírito otimista tão próprio dos Estados Unidos. Quando Trump atacou um jornalista de televisão que havia lhe pedido para falar com os estadunidenses que temiam por suas vidas, não estava se ofuscando simplesmente, mas estava recriminando a imprensa por subestimar a capacidade dos Estados Unidos na hora de pensar de forma positiva diante das crises. “Deveria voltar ao jornalismo, em vez de cair no sensacionalismo", respondeu Trump com raiva.

Recordemos que Donald Trump foi criado nas crenças da igreja de Norman Vincent Peale, autor de O poder do pensamento positivo, uma obra extremamente influente e material de base para todos os movimentos espirituais "de arranque", do "evangelho da prosperidade" a O segredo. Desde os 6 anos de idade, Trump se sentava com sua família nos bancos da igreja Marble Collegiate Church de Peale e escutava seus sermões sobre como podemos alcançar o sucesso que tanto almejamos se o visualizarmos (nas palavras de Peale, “formulando e grampeando em nossa mente com firmeza uma imagem mental de nós mesmos tendo sucesso”) e não cedermos jamais aos “pensamentos de medo”.

Ao menos para Trump e os de sua classe, a escolha de falar e agir de forma positiva diante de qualquer evidência de uma situação adversa não é cínica. Até 2009, quando acumulava uma dívida de mais de um bilhão de dólares e enfrentava uma execução hipotecária, Trump dependia do "poder de ser positivo". Naquele ano, disse à revista Psychology Today que “o que lhe ajudava era se negar a ceder às circunstâncias negativas e nunca perder a fé em si mesmo. Não acreditava estar acabado, nem sequer quando os jornais afirmavam isso.

Na melhor das perspectivas, Trump está tentando aplicar o poder do pensamento positivo à economia e ao vírus. Faz algum sentido no que diz respeito ao mercado de ações, isso porque os mercados são emocionais. Não há nada como esperança no futuro para justificar taxas altas de preços e lucros, incitar o gasto dos consumidores e estimular investimentos.

Mas ... a esperança pode matar o vírus? Sabemos que o efeito placebo é real. Podemos pensar e crescer saudavelmente da mesma forma que Napoleon Hill disse que deveríamos pensar e nos tornar ricos? Essa seria uma razão suficiente para manter um cientista pessimista como o Dr. Anthony Fauci fora da bancada durante coletivas de impressa.

Mas mesmo Trump não é um crente suficientemente autêntico para acreditar que o pensamento positivo pode eliminar o vírus por conta própria. No entanto, pode alimentar nossa determinação, por mais absurda que seja. É por isso que nos pede para fazer sacrifícios e, basicamente, nos limitarmos a desejar muito forte que o vírus desapareça.

Para os titãs da indústria que dependem do crescimento econômico constante, uma paralisação prolongada é, na verdade, um risco maior que podemos ver a olho nu. Quanto maior seja o lapso de tempo que as empresas permanecem fechadas, maior será o tempo que teremos para reavaliar a economia em que nascemos. Sim, precisamos de comida, água, abrigo e talvez uma infraestrutura de comunicação. Mas não muito mais. Em tempos como este, percebemos o valor real de agricultores, professores e médicos...

E quanto a todos aqueles homens de terno que vão à cidade negociar derivativos, criar planos de marketing e coordenar cadeias de suprimentos globais? Não tanto. O verdadeiro perigo disso tudo (algo que bilionários catastróficos entendem) é que ser um desses fenômenos do “cisne negro" poderia ser "o evento" que destrói nossa vontade de continuar correndo e girando a roda do hamster. Querem que voltemos ao trabalho, mas... Para quê?

Dizem que é para salvar a economia, mas não falam da economia real de bens e serviços. A economia estadunidense que lhes preocupa se baseia majoritariamente na dívida. Os bancos emprestam dinheiro às empresas, que pagam mais tarde com juros. De onde procedem esses lucros? Do crescimento. Sem crescimento, o castelo de cartas desmorona completamente, junto com os mais poderosos entre nós. Todos temos que acreditar para assim manter nossas esperanças vivas e os bilionários em seus bunkers.

Quanto aos super-ricos, o vírus a ser temido não é de índole médica, mas memética. Estamos abrindo os olhos diante da realidade de que fomos escravos de uma curva de crescimento exponencial, durante os últimos 40 anos, pelo menos, e na realidade foi durante um período muito maior. E estamos testemunhando como o mesmo crescimento exponencial que deu aos bilionários sua fortuna agora é o responsável por 40% dos estadunidenses terem menos de 400 dólares no banco para uma emergência.

A necessidade de crescimento exponencial também explica como cedemos a fabricação básica e a resiliência alimentar para frágeis cadeias de suprimentos locais. Podemos voltar ao trabalho, claro, mas nem sequer podemos fabricar nossos próprios respiradores.

Imagine que nosso principal motivo para voltar ao trabalho fosse fabricar e produzir as coisas que as pessoas realmente precisam para viver uma vida plena, em vez de simplesmente fazer nossa parte para manter os ricos protegidos e a salvo do resto de nós. Isso, sim, é pensar positivo.

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