“Não dê pérolas aos porcos”: carta aberta de uma religiosa dominicana a Dom Viganò

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27 Junho 2020

“A linguagem que o senhor usa na sua mensagem ao presidente dos Estados Unidos, para nós, mulheres, cristãs e religiosas dominicanas, nos assombra, mas ao mesmo tempo nos provoca a nos distanciar e a denunciar a ambiguidade do seu pensamento e da sua posição; tratando-se, além disso, de uma linguagem dualista e discriminatória.”

Publicamos aqui a carta que a religiosa teóloga italiana Antonietta Potente escreveu ao arcebispo Carlo Maria Viganò, após declarações em apoio ao presidente Trump.

A Ir. Antonietta faz parte da União das Irmãs Dominicanas São Tomás de Aquino.

A carta foi publicada em Terra e Missione, 25-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estamos profundamente indignadas com as palavras que o senhor, cristão e bispo, expressou em apoio ao presidente Trump, defensor de uma política que, nesses últimos meses, se mostrou cada vez mais discriminatória e violenta, seja na emergência sanitária, seja nesses últimos casos de racismo.

Parece-nos que usar as Escrituras para justificar a política violenta do presidente Trump é como dar as “pérolas aos porcos”, de acordo com as palavras do Evangelho: “Não deis aos cães o que é santo, nem jogueis vossas pérolas diante dos porcos. Pois estes, ao pisoteá-las se voltariam contra vós e vos estraçalhariam” (cf. Mt 7,6).

A linguagem que o senhor usa na sua mensagem ao presidente dos Estados Unidos (veja-se a carta do dia 7 de junho de 2020), para nós, mulheres, cristãs e religiosas dominicanas, nos assombra, mas ao mesmo tempo nos provoca a nos distanciar e a denunciar a ambiguidade do seu pensamento e da sua posição; tratando-se, além disso, de uma linguagem dualista e discriminatória.

Não nos resignamos a pensar que um membro do Magistério da Igreja Católica pode usar as Escrituras para apoiar essa política que vai contra todos os princípios do Evangelho. Já havíamos deplorado o seu pedido de renúncia do Papa Francisco, mas agora nos parece uma verdadeira blasfêmia usar o termo bíblico “filhos da luz” para declarar que Trump e também o senhor e toda a sua comitiva são vítimas de complôs eclesiais e sociopolíticos particulares.

Nós reputamos que negar a evidência desses últimos acontecimentos racistas por parte de membros da polícia, apoiados e defendidos pelo próprio presidente Trump, é algo contrário ao Evangelho. Os filhos da luz, dos quais o senhor tanto fala, são aqueles que na luz caminham, veem e, com parresia, denunciam aquilo que veem.

Nos lábios de Jesus de Nazaré, dos seus primeiros discípulos e discípulas, nunca se encontrou “bem-aventurados os fortes, os prepotentes, os opressores”, mas sim “bem-aventurados os humildes, os mansos, os amantes da justiça e da paz”, embora na precariedade da condição humana e histórica.

Não conseguimos compreender como o senhor pode se esquecer dessa mensagem e extrapolar a linguagem joanina da luz e das trevas para apoiar um governo tão violento como o atual governo dos Estados Unidos. Violento em palavras (basta ver as mensagens do presidente Trump nos últimos dias) e em obras. E isso não só dentro dos Estados Unidos, mas também na política mundial, nas relações internacionais, até mesmo no desejo de se apropriar de uma vacina que, como todo método de tratamento, deveria ser patrimônio da humanidade.

Estamos verdadeiramente assombradas, mas, ao mesmo tempo, estamos confiantes de que essas regurgitações de racismo, que o senhor atribui – fazendo uma grande confusão – aos filhos das trevas, não encontram espaço na alma humana e, especialmente, na das mulheres e homens que sofrem.

Nós, mulheres religiosas, sentimo-nos realmente “filhas de Eva”, mas não de acordo com a metáfora usada pelo senhor. Pelo contrário, pensamos que certas atitudes, assim como a linguagem que o senhor usa, não são alimentadas pelos filhos de Eva, como o senhor diz, mas sim por uma mentalidade homofóbica e, portanto, discriminatória, como mostra o presidente Trump apoiado pelo senhor.

Saiba que também nós rezamos por Trump e pelo seu país, mas não com a mesma intenção desejada pelo senhor. Nós rezamos como mulheres de fé, com as mesmas palavras que a verdadeira tradição bíblica nos ensinou: pedimos para colaborar para que os humildes e não os ricos sejam exaltados; pedimos que não existam mais poderosos e prepotentes que humilham e que destroem a esperança dos povos. Portanto, rezamos também por Trump e também pelo senhor, que diz apoiá-lo.

Que fique claro, porém, que nós estamos do lado dos mais fracos e oprimidos, certas de que somente a eles foi revelada a sabedoria que os dominadores deste mundo não puderam conhecer (cf. 1Cor 2,8).

Ir. Antonietta Potente
Teóloga da União das Irmãs Dominicanas São Tomás de Aquino

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