Debata as questões, mas não destrua estátuas

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25 Junho 2020

“A história é escrita pelos vencedores” é o que nos foi dito, e, claro, isso é verdade em certo sentido. Mas a história, na verdade, é escrita pelos historiadores, e suas interpretações e reinterpretações dos eventos mudam.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado em National Catholic Reporter, 24-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É por isso que personagens históricos importantes como a rainha Elizabeth I ou o imperador habsburgo Maximiliano I ou Abraham Lincoln exigem muitos biógrafos. É por isso que cada geração subsequente dos povos cuja história está ligada a essas grandes figuras históricas deve revisitar suas vidas e fazer novas questões a elas. É por isso que, ao longo do tempo, ficamos sabendo que suas falhas muitas vezes eram tão grandes quanto os seus feitos.

As estátuas fazem parte do relato histórico e tendem a ser apenas ligeiramente menos maleáveis do que as mudanças historiográficas. Sir William Francis Butler foi aparentemente a primeira pessoa em inglês a pôr por escrito o sentimento de que “é o vencedor quem escreve a história e conta os mortos”, e esse relato é instrutivo. Ele se referia ao número desconhecido de membros do clã Gordon mortos na Batalha de Culloden, em 1746, a última tentativa séria de recuperar o trono britânico pelos Stuarts católicos.

Os Estados Unidos são pontilhados por cidades que levam o nome do vencedor da batalha, o duque protestante de Cumberland, que emprestou seu nome a montanhas e a uma passagem montanhosa, assim como ao Condado de Prince William, na Virgínia. Existem os condados de Cumberland no Maine, em Nova Jersey e na Carolina do Norte.

Na Inglaterra, a sua reputação declinou com o reavivamento do interesse pela história e pelas letras escocesas (assim como com a diminuição da ameaça perceptível do catolicismo), e uma estátua dele na Cavendish Square, em Londres, foi removida em 1868, não exatamente 100 anos depois de ela ter sido erguida. À época, Cumberland não era mais um herói protestante, mas sim o “açougueiro” de Culloden.

No fim do século XIX, os britânicos podem ter se disposto a derrubar a estátua do duque, mas não havia nenhum esforço, e não poderia haver, para retirar seu nome das suas associações estadunidenses onde o anticatolicismo ainda era pronunciado. Essa foi a era das “Emendas de Blaine” anti-imigrantes, que visavam a manter o apoio público das escolas católicas.

Os católicos ainda eram rotineiramente discriminados nos EUA na primeira metade do século XX. A Lei de Educação Compulsória do Oregon, uma tentativa pouco velada de fechar as escolas católicas, foi aprovada em 1922, com o apoio dos maçons daquele Estado e da Ku Klux Klan. Seis anos mais tarde, quando Al Smith se tornou o primeiro católico a concorrer à presidência, os protestantes distribuíram panfletos na Flórida que diziam: “Se ele for eleito presidente, você não será autorizado a ter ou a ler a Bíblia”.

Assim, quando os Cavaleiros de Colombo ergueram em 1932 uma estátua para o Pe. Junipero Serra, naquele que agora é o centro de Los Angeles, uma estátua que foi derrubada no fim de semana passado, assim como quando ergueram estátuas para Cristóvão Colombo por todo o país no fim do século XIX e início do século XX, eles estavam assumindo um posicionamento simbólico contra o Klan e o seu nativismo. Eles estavam dizendo que havia raízes católicas nessa terra, algumas das quais remontavam tão longe quanto as raízes protestantes. Eles estavam dizendo que os ítalo-americanos e os mexicano-americanos pertenciam a essa terra tanto quanto os estadunidenses cujos ancestrais provinham de terras protestantes.

Vandalizar uma estátua erguida por tais razões é tão objetável quanto atirar a estátua da Pachamama no Tibre durante o Sínodo Amazônico do ano passado. Se quisermos debater se Serra e Colombo ainda merecem ou não um lugar no panteão estadunidense, debatamos a questão, mas não destruamos as estátuas. Tenhamos em mente que o que podemos ver como objetável, outros podem valorizar, e não porque sejam racistas.

Quatro anos depois que a estátua de Serra foi erguida em Los Angeles, uma estátua de Jefferson Davis foi instalada na rotunda da capital do Estado em Kentucky. É desnecessário dizer que erguer uma estátua em tal época não visava a ser uma repreensão ao KKK; de fato, não há nenhuma explicação para erguer tal estátua que não inclua, forçosamente, uma defesa da supremacia branca. Também não podemos desculpar as opiniões de Davis dizendo que elas eram amplamente defendidas: nos anos 1860, quando Davis liderou a Confederação, a maior parte do mundo havia passado a reconhecer que a escravidão era má.

Eu deploro o vandalismo, mas ninguém deveria derramar uma lágrima pela remoção das estátuas confederadas erguidas para anular a emancipação dos negros estadunidenses que a Guerra Civil havia conquistado. Sobre os dois pontos, o histórico de Davis e os motivos dos construtores dos monumentos a ele devem ser removidos.

Serra chegou bastante tarde na conquista espiritual do México, uma conquista que foi marcada pela violência do começo ao fim. Se eu fosse indígena, eu guardaria um rancor enorme por Serra e seus irmãos, porque a chegada deles marcou o início de um genocídio cultural. Não há como negar isso.

Serra, é claro, não olhava isso desse modo, não porque odiasse os povos nativos. Ele não os odiava. É um dos enigmas da evangelização nas Américas o fato de ela ter sido incivilizada e paternalista ao extremo, mas ninguém que tenha lido algo sobre o assunto pode duvidar que os frades pensavam que estavam ajudando os indígenas, que eles sinceramente os amavam, e que muitos dos povos nativos da época também os amavam.

Por exemplo, no fim do século XVI, de acordo com a Historia Eclesiastica Indiana”, escrita na época pelo Frei Jerônimo de Mendieta, quando os padres dominicanos assumiram a missão em Cuauhtinchan, os nativos se rebelaram. Eles despojaram a igreja da sua ornamentação e tentaram matar de fome os frades dominicanos, recusando-se a lhes fornecer comida. Por quê? Eles exigiam o retorno dos primeiros frades franciscanos que os haviam convertido.

Eu não sou especialista nas missões da Califórnia, mas, pelo que eu sei sobre as missões lá e mais amplamente sobre como os europeus brancos interagiam com os povos nativos, por mais problemáticas que fossem as missões católicas, as coisas pioravam muito para os nativos quando os americanos anglófonos chegaram e secularizaram as missões. A história da conquista espanhola foi muitas vezes brutal, mas apenas os ingleses adotaram uma abordagem exterminacionista.

Serra evangelizou de um modo que nunca pensaríamos fazer hoje, mas, se tivéssemos vivido quando ele viveu, estaríamos nos enganando se pensássemos que teríamos evangelizado de uma forma marcadamente diferente daquela que ele empregava. Nunca devemos examinar esses casos de maneira anacrônica, julgando-os pelos padrões dos nossos dias, e não pelos padrões do seu tempo, a fim de transformá-lo em um vilão. É errado simplesmente derrubar a sua estátua pelos seus próprios méritos, ainda mais quando você considera as razões pelas quais a estátua foi erguida, em primeiro lugar, para demonstrar que os católicos espanhóis faziam parte da história estadunidense.

É um fato estranho da cultura ocidental que, embora concordemos quando somos informados de que os vencedores escrevem a história e vemos que, provavelmente, eles serão mais lembrados em estátuas, a imagem humana mais comum na arte ocidental não é um cenário de vitória: o crucifixo não retrata a vitória humana. Estátuas do Senhor ressuscitado ou do túmulo vazio não são desconhecidas, mas empalidecem em comparação com o imenso número e variedade de retratos da crucificação. Além disso, é notável o fato de que foi essa imagem do crucificado que muitas vezes moveu os corações dos servos na Rússia, dos escravos no Alabama e dos indígenas de Chiapas. Também é notável que as imagens da sua mãe tenham encontrado um lugar tão proeminente na devoção espiritual dos pobres ao longo da história.

Na última segunda-feira, na missa, o Evangelho do dia era do sétimo capítulo de Mateus:

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: ‘Não julgueis, e não sereis julgados. Pois, vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes; e sereis medidos com a mesma medida com que medirdes. Por que observas o cisco no olho do teu irmão, e não prestas atenção à trave que está no teu próprio olho?’”

Na nossa sociedade multicultural, precisamos convidar cada um de nós para discutir o que constitui uma trave e um cisco. A linha puritana dos EUA costuma usar a máscara da reforma moral, desde os julgamentos das bruxas de Salem nos anos 1690 e a Lei Seca nos anos 1920, mas o Evangelho nos aponta para uma direção diferente.

Aqueles que são cristãos brancos têm uma obrigação moral de simpatizar com a tristeza que uma pessoa indígena sente ao ver uma estátua de Colombo ou de Serra, mas ninguém é obrigado a aplaudir o anacronismo histórico. O vandalismo das estátuas deve parar. E todos devemos contemplar este humilde fato: nenhum de nós sabe quais coisas que fazemos agora serão vistas como bárbaras ou desumanas daqui a 200 ou 300 anos.

 

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